Cinema

Chris Rock: “Não queríamos ser engraçadinhos e arruinar o terror do novo ‘Saw’”

A NiT falou com o ator e produtor de “Spiral — O Novo Capítulo de Saw”, o novo filme da saga que estreia esta quinta-feira.
Rock decidiu experimentar o terror

Chris Rock lembra-se bem da primeira vez que se sentou numa cadeira de um cinema para ver o primeiro capítulo de “Saw”. “Fiquei horrorizado e ao mesmo tempo maravilhado com a genialidade. Quem fez isto? Quem escreveu, realizou? Isto é algo que eu nunca vi antes”, recorda à NiT o comediante. “Por favor, podem dar me mais uma dose disto?”, suplicou.

O desejo do comediante multifacetado de 56 anos concretizou-se e 17 anos depois é ele próprio a estrela do novo capítulo da saga. Mas não só. Rock é também o produtor-executivo e homem que fez arrancar o projeto que tenta relançar a saga de suspense e terror numa nova direção.

Darren Lynn Bousman, o realizador dos capítulos II, III e IV de “Saw”, está de regresso para um novo filme que agarra a história do franchise, mas que lhe tenta dar um twist. Até por isso recebeu o nome de “Spiral — O Novo Capítulo de Saw”, com o realizador a explicar que não se trata de um “Saw IX”. “Queríamos contar uma história diferente.”

Gravado em 2019, deveria ter chegado aos cinemas em 2020, uma estreia adiada pela pandemia e que acontece agora em simultâneo em todo o mundo, à medida que o desconfinamento vai permitindo a reabertura das salas.

A chegada de Rock atraiu outros talentos para o elenco, com Samuel L. Jackson no topo da lista, acompanhado de Max Minghella, conhecido pelo papel de Nick em “The Handmaid’s Tale”, mas também Marisol Nichols.

A história leva-nos até ao mundo de Zeke Banks, detetive interpretado por Chris Rock e que é um pária na sua esquadra. Filho de um antigo e venerado chefe da polícia (Samuel L. Jackson), Banks é odiado pelos colegas, depois de ter denunciado um polícia corrupto. Emparelhado com o novato detetive Shenck (Max Minghella) e sob as ordens da capitã Angie Garza (Marisol Nichols), vai deparar-se com um homicídio horrendo que o irá arrastar para um mistério cruel que vai abalar as forças policiais.

Para Rock, que assume ser “um fã da saga”, esta foi a oportunidade única de emprestar o seu talento a uma história que lhe diz muito. Mas deixou sempre bem clara uma regra: “O humor foi a única razão pela qual decidi fazer o filme.”

Um homem da comédia no meio do terror

Não é fácil dissociá-lo dos papéis humorísticos e do bom velho Chris Rock que todos conhecemos. O ator de 56 anos sabe-o muito bem e reconhece que nunca lhe teria passado pela cabeça participar na saga se não lhe fosse possível trazer um pouco do seu principal talento.

“Lembro-me de ver os filmes e dizer aos meus amigos: ‘Como é que isto seria com algum humor à mistura?’. Se tivesse que interpretar tudo de forma séria, ter-se-ia tornado aborrecido. Raramente se vê humor nos filmes de terror e pensei que isso poderia ser interessante.”

Apesar da vontade de acrescentar um elemento mais bem-humorado, as piadas tiveram que ser cuidadosamente medidas e, à medida que a trama adensa, os soundbites de Rock vão se diluindo. Rock não sente que o terror e o humor sejam incompatíveis.

Max Minghella interpreta o parceiro novato de Rock

“Chegámos a um acordo no qual não queríamos ser engraçadinhos, de forma a que isso estragasse o elemento assustador do filme (…) Se o fizéssemos estaríamos a desrespeitar os fãs da saga”, conta à NiT. “Não é que sejam incompatíveis. Mas até um filme como o ‘O Caça Polícias’ [‘Beverly Hills Cop’] começa num tom mais engraçado e depois entra o drama. Talvez acrescente mais algum humor no fim, mas a comédia fica sempre no arranque.”

Fora do seu elemento e do género a que está habituado, Rock sente a responsabilidade. “É uma honra mas também uma imensa pressão. Não queres ser conhecido como tipo que matou a saga. ‘Oh, sim, estava tudo a correr lindamente até ao momento em que o Rock entrou (risos)”.

Ainda assim, a opinião unânime era de que seria necessário fazer algo original, romper com o que foi feito até então. “Tem elementos que os fãs vão adorar, mas ao mesmo tempo elementos que vão abrir o filme a pessoas que não vêm filmes de terror: o humor, o elenco, as relações entre personagens são mais quentes do que vimos nos outros filmes.”

Rock regressa ao papel de polícia, mais de 20 anos depois de ter aparecido como detetive novato em “Arma Mortífera 4” e admite que a participação em “Saw” foi a concretização de um desejo egoísta.

“É uma espécie de homenagem ao polícia do ‘estou demasiado velho para esta merda’, ao Bruce Willies e ‘Die Hard’, a todos esses tipos”, explica Chris Rock

“Nunca tinha interpretado um polícia, além desse pequeno papel no ‘Arma Mortífera 4’. E é muito comum, sobretudo para os comediantes negros, fazerem de polícias: Eddie Murhpy, Chris Tucker, Martin Lawrence, Jamie Foxx, Kevin Hart. Mas fazem todos os mesmos filmes. Achei que era um rito de passagem fazê-lo, mas queria que acontecesse num cenário mais interessante. E se fosse num filme de terror? Cá estamos.”

Sobre a sua personagem, o detetive Zeke Banks, diz que é “uma espécie de Danny Glover em ‘Arma Mortífera’”, também um pouco “tipo o Morgan Freeman em ‘Sete Pecados Mortais’, mas com piada (risos)”. “É uma espécie de homenagem ao polícia do ‘estou demasiado velho para esta merda’, ao Bruce Willies e ‘Die Hard’, a todos esses tipos.”

É algo mais do que isso. A carreira de Rock virou, nos últimos anos, para um lado mais dramático, sendo que protagonizou um dos papéis principais na quarta temporada de “Fargo”. A viragem é algo que vê com bons olhos.

Marisol Nichols é a chefe da esquadra

“Já estou firme nos meus 50 e à medida que envelheces, mesmo quando estas a fazer comédia, tens sempre um tom mais dramático. É difícil fazer filmes patetas quando és mais velhos, ficas ridículo em perucas. Estou a envelhecer e a aceder a novos papéis que antes nunca poderia fazer. Dizem que Hollywood discrimina pela idade, mas se virem bem, todos os bons papéis são desenhados para os teus 50 anos. Tenho a sorte de estar a beneficiar disso.”

Sobre o talento de Rock, Mas Minghella aponta para a sua “capacidade de saltar entre diferentes tons”, algo que considera “uma das coisas mais difíceis que um ator tem que fazer”. “Consegue partir de uma situação muito tensa e encontrar o lado mais leve, torna tudo mais real. A vida não é feita de um único tom, é sempre 100 coisas diferentes e gosto de filmes que retratem isso.”

Minghella é William Shenck, o detetive novato que se torna parceiro de Banks, numa reedição do velho cliché de Hollywood — ou será mesmo? “Desta vez é diferente, porque estamos habituados a que quando isso acontece, as personagens sejam muito antagonistas durante todo o filme. Aqui, ao fim do primeiro dia a trabalharem juntos, as duas personagens parecem ter já uma ligação, uma dinâmica funcionar que é pouco usual e que lhes dá mais peso, sobretudo quando depois vemos a direção em que o filme se dirige”, explica à NiT.

Também o realizador, Darren Lynn Bousman, que foi pessoalmente escolhido por Rock para dirigir o filme, explica as intenções e os méritos de Rock. “Disse-me logo que queria dar-lhe uma abordagem ao estilo do ’48 Horas’ [filme com Eddie Murphy e Nick Nolte]. Quando vi o filme, pensei que era uma comédia, mas depois revi e é violento, duro, embora com momentos de humor do Murphy.”

“O Chris queria fazer o mesmo tipo de filme, mas queria alguns momentos mais leves. Nada é feito apenas pelas piadas, não temos o Chris a dizer piadas só porque sim, mas ele é hilariante. Há uma cena em que ele fala do Forrest Gump logo no início e é um bom exemplo disso. E mostra à audiência que não faz mal rir-se, não há problema em divertir-se com esta personagem.”

Reimaginar “Saw”

“Assim que chegámos ao Saw VIII, tínhamos algo tão denso e complicado. Queria voltar atrás e fazer algo como o Saw original, uma história simples com algumas armadilhas”, nota o realizador que confessa a vontade de “separar ‘Spiral’ dos restantes filmes”.

A saga conhecida pelas armadilhas cruéis e pelos twists tem uma fórmula vencedora. Mas será que ao fim de tantos filmes, ainda é possível surpreender os fãs enquanto se reinventa a fórmula?

Samuel L. Jackson juntou-se ao filme de Darren Lynn Bousman

“É um malabarismo difícil. Os fãs de ‘Saw’ são uma espécie rara porque esperam tudo e mais alguma coisa. Digo sempre que o ‘Saw’ é um truque de magia. Se voltarmos ao Saw original, é uma ilusão que acontece à nossa frente (…) Como realizador, é difícil [iludir os fãs] e reimaginar a saga, porque queres manter os velhos fãs satisfeitos, ao mesmo tempo que queres chamar pessoas que nunca viram os filmes”, explica à NiT.

Parte da fórmula desenhada por Rock e Bousman assenta nas novas personagens, nas suas histórias e relações. E para o seu desenvolvimento dependerá também o sucesso deste filme e a criação de novas sequelas. O plano está montado.

“Não quero pôr o carro à frente dos bois [e falar na sequela], porque depende do sucesso desse filme. Mas isto faz tudo parte de um grande plano (…) A minha intenção inicial passava por criar o mundo, apresentar as novas personagens e esperar, que se tudo isto correr bem, possamos dá-las a conhecer melhor.”

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