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“Cidade Corrupta”: ninguém escapa ileso no thriller sensação da Netflix

O filme realizado por um ex-polícia é um dos destaques do momento na plataforma de streaming.
Um filme carregado de ação.

Marselha é uma cidade violenta. A cidade na costa sul de França combina o cenário do Mediterrâneo com histórias de pobreza, violência e corrupção. A localização tornou Marselha um porto de entrada de droga na Europa e isto abriu caminho a histórias do submundo do crime, com gangues a lutar pelo controlo do narcotráfico.

Na última década, a cidade tem registado dezenas de homicídios por ano, mas em agosto de 2017 as coisas atingiram outra proporção, com uma guerra entre gangues a provocar mais de uma dezena de mortos no espaço de um mês, muitos caídos com balas de Kalashnikov.

Foi este lado negro de Marselha que serviu de base para “Cidade Corrupta” (“Bronx” no título original), thriller francês que estreou a 30 de outubro na Netflix e que entretanto tem reservado lugar no topo das escolhas dos utilizadores da plataforma. Em Portugal é um dos conteúdos mais vistos nos últimos dias.

O filme é escrito e realizado por Olivier Marchal, um antigo polícia que, há mais de duas décadas, entre cinema e televisão, tem revitalizado o thriller à moda francesa. O elenco conta com vários nomes de destaque do cinema francês. Entre outros, encontramos Lannick Gautry, que os portugueses deverão reconhecer do sucesso “A Gaiola Dourada”; Jean Reno, com uma carreira dividida entre França e Hollywood; ou Claudia Cardinale, a belíssima Jill do clássico “Aconteceu no Oeste”, de Sergio Leone, que aqui surge veterana, no papel de matriarca de uma família mafiosa.

Uma grande produção francesa.

Em “Cidade Corrupta” abunda uma certa testosterona. Os polícias ali surgem, com barba de quem não dorme bem há algum tempo, a fumar e a beber. Estão dispostos a torcer algumas regras mas vivem também atormentados com as suas escolhas. Têm a ingrata missão de combater gente poderosa e sem escrúpulos, muitas vezes contra a própria hierarquia da polícia e com colegas por perto que, entre a chantagem e o suborno, muitas vezes trabalham do lado errado da lei.

Estas dinâmicas não são novas no universo de Olivier Marchal, ele que cresceu num colégio de jesuítas e que antes das nomeações aos César e do sucesso da série “Braquo” teve a própria experiência como polícia.

Ao “Le Monde”, em 2019, falava de como cinema e o mundo da lei se misturavam como ilusão enquanto crescia. “Fui educado na culpa de Deus a observar-nos. O que me trouxe muitas neuroses”, contava ainda. Mais tarde, já polícia, chegou a realidade enquanto tentava misturar os dois mundos. Foi ainda como ator que tudo começou.

“Muito rapidamente, senti um sentimento de inutilidade, uma falta de consideração da hierarquia, do público, dos políticos. As pessoas insultavam-nos, cuspiam em nós”, recordava. Durante sete anos, pediu para fazer o turno da noite. De dia frequentava aulas de teatro, entrando em cenas no palco. De noite, as cenas do crime eram outras quando tomou contacto com o Bairro 13, um dos bairros mais pobres não apenas de Marselha, mas do país inteiro.

Ao jornal francês, o agora realizador contava que era até um tipo amigável com os criminosos, exceto quando se tratavam de casos em que as vítimas eram crianças ou idosos. Chegou a deixar dinheiro a famílias de detidos após buscas, consciente de como havia quem fosse apanhado, inocente, pelas ações de outros. Viu cadáveres, conheceu colegas que se suicidaram, esteve com um jovem em choque após ter testemunhado o assassinato dos pais. “Essas imagens são para a vida toda. Desafio qualquer um a manter alguma aparência de serenidade”, afirmava ao jornal francês.

Em 1992, desafiado por um colega da polícia judiciária que já colaborava em produções cinematográficas, foi desafiado a seguir a outra paixão. Continuou como ator, pegou em câmaras na viragem para o século XXI e desde então foi ganhando nome com marca própria, com histórias de violência e polícias assoberbados, mas resistentes, em relação ao mundo que os envolve.

Com “36 Anti-Corrupção”, de 2004, lançou-se em definitivo, conquistando várias nomeações aos Óscares franceses. De então para cá, entre cinema e televisão, as lições do passado vão sendo transfiguradas no ecrã. Desse tempo, o realizador de 61 anos guarda ainda uma rotina intensa e o hábito de dormir apenas três ou quatro horas de noite. “Preciso de estar sobrecarregado, isso impede-me de pensar.” É o seu lado honesto que chega às suas personagens, ainda que por vezes elas não sejam particularmente honestas.

“Cidade Corrupta” conta com quase duas horas de ação recheadas de tiroteios, tensão, twists e violência física e psicológica. O próximo projeto de Olivier Marchal será em frente às câmaras, na série “La Promesse”, já em pós-produção.

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