Cinema

Cláudia Vieira: “É avassalador e perturbador interpretar uma vítima de violência doméstica”

A NiT entrevistou a atriz sobre o seu papel no telefilme “Amor”, da trilogia “Na Porta ao Lado”, que se centra neste tema.
A atriz interpreta a vítima deste telefilme.

Depois de “Esperança”, a trilogia “Na Porta ao Lado” prossegue com “Amor”. Trata-se de um novo telefilme para ver na Opto, a plataforma de streaming da SIC, centrado no tema da violência doméstica em diferentes classes sociais e contextos. O projeto conta com o apoio da APAV.

O segundo capítulo desta produção estreou a 21 de agosto. Foi realizado por Rita Nunes, escrito por Filipa Martins e tem no elenco nomes como Cláudia Vieira, Marco D’Almeida, Cleia Almeida e Mafalda Jara. Todos estes telefilmes foram escritos e realizados por mulheres.

Cláudia Vieira interpreta Marta, uma tradutora casada, mãe de um rapaz de dez anos. Em pleno confinamento, sem trabalho e num ambiente de tensão claustrofóbica, o seu marido começa a descarregar em si todas as frustrações — numa escalada de violência física e psicológica que vai colocar tudo em causa.

Além disso, a atriz faz parte do elenco da nova série que a SIC está a preparar para a Opto, “A Lista”. Leia a entrevista da NiT sobre estes projetos e a faceta de apresentadora de Cláudia Vieira.

O que é que a atraiu quando lhe explicaram que filme era este? De que é que gostou mais?
Sem dúvida nenhuma que o tema. É um tema que acaba por ser quase uma responsabilidade social de nós, mulheres, independentemente de atrizes ou não, tentarmos dar um grito umas pelas outras — acontece de forma geral com o ser humano, mas quem sofre mais de violência doméstica são sem dúvida as mulheres. E a forma como me contaram como queriam fazer — vários telefilmes, situações, origens, estilos de casais, classes sociais diferentes… Achei que era interessante porque isto é transversal. Vai desde pobre a ricos e há todo o tipo de violência, desde física a psicológica, e no caso específico do meu telefilme baseava-se na alteração de rotina de um casal, que até então se dava muito bem, e o facto de estarem presos em casa de quarentena. Mais atual era impossível e retratava uma história de violência doméstica que infelizmente sabe-se que foram muitos os casos, aumentaram drasticamente. Todo este tema interessou-me bastante e acho que era um dever para mim enquanto mulher e atriz. E passar a mensagem da importância da porta ao lado. 

Que é o conceito central desta trilogia?
Nestas histórias há sempre alguém que se apercebe do que se está a passar. Nós temos muito aquele ditado português de “entre marido e mulher não se mete a colher”, mas não é bem assim. Porque não se pode ignorar: muitas vezes as vítimas estão completamente impotentes. O convite foi feito através da Patrícia Sequeira, uma pessoa que estimo muito e com quem adoro trabalhar, e a forma como ela me falou neste projeto foi de “temos esta obrigação, este dever”. A ideia era serem mais telefilmes, não sei se vão avançar com mais. Neste momento são três e foram feitos em tempo recorde. Foi de uma entrega e violência muito grande, acabar um dia de gravações com um grande murro no estômago e com uma sensação de desespero. É desesperante imaginar que há pessoas que passam por estas situações e que estão presas nas suas próprias casas e emoções, acreditando que tudo pode ser diferente no dia seguinte. Porque existe um sentimento que é o amor, que é um bocado o subtexto deste telefilme, porque o amor está lá e existe entre ambos. 

E muitas vezes são situações mais complexas do que podemos imaginar quando estamos de fora.
Exatamente, e é um impacto tão grande, física e psicologicamente, que afeta completamente a estrutura de uma pessoa. Não sei como é que alguém que é vítima, como a minha personagem foi, consegue no dia a seguir acordar e ir trabalhar de uma forma normal. Porque é ficar sem chão de repente, ficar com o coração esmagado, apertado e uma sensação de realmente querer ver-se livre daquilo… mas não é ver-se livre do marido, porque existe um sentimento muito grande. No caso deste telefilme, o facto de se passar em quarentena e ter havido uma alteração neste casal… Ele era um pai distante, um marido ausente, pela profissão. Quando estava em casa era tudo absolutamente maravilhoso, ele estava desejoso de estar junto da família, de compensar a mulher e o filho com tudo o que podia. Por mais que ele tivesse um temperamento um pouco intempestivo, não era com eles. E transformou-se completamente com a quarentena. E acho que isso foi sentido em muitas casas e em muitas pessoas.

Marco D’Almeida interpreta o marido.

O primeiro filme centrava-se numa classe social alta, num casal sem filhos. Neste caso trata-se de uma família de classe média?
Sim, a Marta é tradutora, na verdade a quarentena não veio alterar muito a vida dela, porque ela já trabalhava muito a partir de casa. Têm um filho com dez anos, o Miguel, e estar em casa numa fase inicial torna-se complicado — porque ela tem de o entreter e tentar dinamizar ao máximo o dia daquela criança. Mas eles têm uma cumplicidade muito grande e tudo funcionava. O marido, Jorge, era segurança e passava temporadas fora. E o facto de, de repente, ficar em casa, havia uma revolta gigante que se foi apoderando dele, e depois há uma diferença a nível de cultura, de gostos, de inteligência de um para o outro e ele sentiu-se menorizado. Sentiu raiva de ela estar a trabalhar, de conseguir ganhar dinheiro, e foi-lhe quase roubando as capacidades. O facto de ela estar a fazer chamadas era suficiente para ele ficar desconfiado. E ele aos poucos e poucos queria isolá-la e afastá-la de tudo e todos. Ao ponto de a trancar em casa. Ao ponto de não permitir que ela fosse à rua pôr o lixo. E ela foi tomando essa consciência, do que é que se estava a passar, e como mulher inteligente — e até independente — que sempre se sentiu, percebeu que naquele momento tinha que fugir porque as coisas estavam a ganhar proporções. E foi nessa tentativa de fuga que…

As coisas correram mal?
Exatamente [risos], não posso dizer mais.

Apesar de ter sido uma rodagem curta, fez alguma preparação específica para o papel? Inspirou-se nalguma coisa para interpretar esta vítima?
Na altura recebi indicações da Rita Nunes de algumas reuniões. Tivemos contacto com alguns testemunhos de várias vítimas que estão na APAV, relatos de mulheres, e baseámo-nos nesses relatos. E houve também um livro que tinha muitos relatos de vítimas que me foi aconselhado. E foi essa a preparação que fiz para construir a personagem.

Embora seja quase uma responsabilidade social, como estava a dizer, é difícil para um ator — para uma atriz, neste caso — fazer este tipo de papel?
É, porque se mergulha um bocadinho num buraco. Vai-se a zonas de um medo que por mais que saibamos que estamos a representar, só o facto de sabermos que isto existe em várias casas e que se calhar é na nossa porta ao lado… é muito avassalador e perturbador. Por isso é difícil. 

As cenas mais violentas são as mais desafiantes de gravar? Ou, na verdade, não?
Teve um bocadinho de tudo. Havia cenas que nem eram de agressão física, mas de se sentir controlada e vigiada e presa que eram muito difíceis, porque eram de repente um confronto com uma realidade que estava a acontecer na casa dela. Ou seja, sentia-se presa, rodava a maçaneta da porta e estava trancada. Ela sentia que ele a estava a manipular, que estava louco e que a estava a levar à loucura. Essas cenas às vezes são onde se tem mais dificuldade. Porque é representar estas emoções todas, o medo, o pânico, o confronto com a situação, e não há uma contracena. É viajar um bocadinho sozinha e essas cenas são extremamente difíceis. 

A atriz e apresentadora tem 43 anos.

Também vai participar na nova série da Opto, “A Lista”. Que papel vai fazer?
Ela é uma advogada, com um escritório onde está a estagiar uma das personagens que faz parte do grupo mais jovem de protagonistas. Depois fico envolvida nos casos que elas próprias fazem uma investigação e uma busca de informação e um defender uma pessoa que é culpada. Então estou completamente dentro do caso, mas não fazendo parte do grupo dos jovens da lista. 

Mas ainda assim é uma personagem relevante?
É uma personagem de elenco fixo — que é muito pequenino. Somos só 11 atores. A história está completamente focada no grupo de amigos, mas sim, sem ser a minha personagem, há só mais uma ou duas que têm esse ênfase também.

Tem mais projetos de ficção em vista?
Não, para já não. Acabei de entrar neste e é a este que estou dedicada.

A Cláudia também tem explorado a sua faceta enquanto apresentadora ao longo dos últimos anos. É algo que se vê a fazer cada vez mais? Ou gosta de ir equilibrando as duas coisas, a apresentação e a representação?
Ultimamente tenho feito mais apresentação de programas, com “O Noivo é que Sabe”, depois o “Regresso ao Futuro”, depois fiz a substituição na “Casa Feliz”. E tenho tido cada vez mais contacto com a apresentação e gosto imenso e sinto que tenho muito que aprender, porque, no fundo, a estaleca que se ganha nos diretos, e cada programa tem o seu enquadramento, características diferentes, é muito interessante e gosto mesmo muito. É ser eu na minha pele. Mas eu gosto muito de representar. Gosto muito deste equilíbrio, mas não acho que seja interessante para mim enquanto atriz, porque me exponho muito — eu, Cláudia — ao conduzir um programa. E esse lado torna-se desinteressante, porque acho que há um lado enigmático dos atores que é muito bom que seja mantido para que cada personagem ganhe a sua credibilidade. Que não se sinta que está ali um bocadinho da pessoa — e há sempre um bocadinho de nós, por mais diferente que ela seja não deixa de ser o nosso corpo a dar-lhe vida. Acho que é uma coisa que joga contra mim. Mas por outro lado tenho tanto prazer em conduzir um programa e me dedicar a esta área, e gosto tanto de representar, que não estou com vontade alguma de abdicar de uma das duas. Portanto, vou tentando pôr a coisa mais equilibrada possível, não estando muito tempo afastada de nenhuma delas — porque acho que não vai ser benéfico para mim. Quero muito fazer isto de forma alternada.

Apesar de ser uma desvantagem, o facto de serem dois métodos de trabalho tão diferentes…
É revigorante. Tem aqui algo de pessoal e profissional de muito desafiante, que me leva a experienciar coisas muito distintas. A área da representação de uma forma geral já tem esse lado porque estamos sempre a construir personagens diferentes — a não ser que estejamos muito focados em novelas e aí realmente às vezes é muito tempo a fazer a mesma personagem. O facto de estar agora a fazer esta série, de ter feito o telefilme, vai-nos dando oportunidade de fazer personagens muito diferentes. Mas sem dúvida que é refrescante estar nestas duas frentes.

E é um caminho que pode haver até para outras pessoas de ser possível fazer carreira nas duas áreas.
Eu acho que cada vez mais os próprios canais estão a apostar nas caras do canal, pelos atores ou apresentadores que têm, a levá-los a experienciar coisas diferentes e que se calhar não se imaginavam a fazer. Eu quando há uns bons anos fui desafiada para fazer o “Ídolos”, o meu pensamento foi de imediato: nem pensar, eu não estou minimamente preparada. Mas depois, ao mesmo tempo, tive consciência do desafio incrível que era conduzir um programa como aquele e não quis fechar a porta a essa experiência, mas consciente de que não estava preparada para o fazer. Não tinha a capacidade que exigia um direto, o lidar com pessoas em busca dos seus sonhos e com algum grau de nervosismo, mas foi a melhor coisa que fiz. Foi um ano absolutamente incrível da minha vida em que pensava: isto é viciante [risos]. Porque os diretos têm muito essa adrenalina.

Leia também a entrevista da NiT a Miguel Guilherme, que interpreta o agressor no primeiro filme da trilogia “Na Porta ao Lado”.

O filme vai estar disponível na Opto.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT