Cinema

“Colectiv”: um dos melhores documentários do ano estreia finalmente em Portugal

Relata um escândalo político na Roménia, que começa com um trágico incêndio numa discoteca de Bucareste.
O filme acompanha a investigação jornalística.

Foi um dos filmes mais mencionados na última edição dos Óscares — por ter estado nomeado nas categorias de Melhor Documentário e Melhor Filme Estrangeiro —, mas “Colectiv – Um Caso de Corrupção” acabou por não levar nenhuma estatueta dourada para casa. Esta quinta-feira, 24 de junho, chega finalmente aos cinemas portugueses.

Este documentário romeno realizado por Alexander Nanau centra-se num caso concreto que é paradigmático da corrupção sistemática e dos interesses económicos ilegais instalados na máquina estatal do país do leste da Europa (algo que porventura se poderá aplicar também a outros estados).

Em 2015, uma banda estava a atuar na discoteca Colectiv, em Bucareste, capital da Roménia. “Algo está a arder aqui”, disse a meio do concerto o vocalista do grupo, pouco antes de as chamas se tornarem realmente visíveis — o momento foi registado e pode ser visto no filme. “Isto não faz parte do espetáculo.”

O público entra em pânico e corre para a saída — não há quaisquer saídas de emergência e portanto só há uma porta para que dezenas e dezenas de pessoas consigam escapar do incêndio. O resultado? 27 pessoas morreram imediatamente. Outras 180 ficaram feridas — 37 das quais morreriam mais tarde no hospital.

O escândalo é imediato. Vários cidadãos romenos, indignados e furiosos com o facto de um clube noturno poder operar sem saídas de emergência, vão para as ruas protestar, obrigando o primeiro-ministro a demitir-se. Um novo governo toma posse — mas este é apenas o início desta história.

“Colectiv – Um Caso de Corrupção” centra-se na investigação jornalística feita durante este caso, nomeadamente no repórter de um jornal desportivo chamado Cătălin Tolontan. É um dos jornalistas que estão a cobrir a situação e a colocar perguntas de forma insistente. O principal foco não é a causa do incêndio, nem a negligência governamental, mas sim o que aconteceu para que tantas pessoas morressem já hospitalizadas.

Tolontan acaba por descobrir que os hospitais que trataram as vítimas do Colectiv usaram um produto desinfetante que tinha sido bastante diluído pelos fabricantes — em conluio com os hospitais — que os tornava quase inúteis e deixava os pacientes desenvolverem infeções fatais que nunca deveriam ter tido em primeiro lugar. O objetivo, claro, era lucrar. Os hospitais estavam a receber subornos do fabricante, e o governo estava a par do negócio clandestino.

Ou seja, além de aquelas pessoas terem sido vítimas de um incêndio num local que não tinha as condições adequadas de emergência, muitas delas acabaram por morrer em hospitais, desenvolvendo infeções, porque foram tratadas com um produto ineficaz de forma propositada. Há literalmente uma cena em que se vê a ferida exposta de uma vítima do incêndio contaminada por larvas, num ferimento claramente não tratado da forma correta.

A descoberta levou à demissão do ministro da saúde romeno e à sua substituição por outro. Apesar de muitos questionarem qual seria a grande diferença entre ambos — já que a corrupção era algo sistemático e não casual — o novo ministro tornou-se, pelo menos, numa voz mais ativa contra a forma como os hospitais funcionam no país.

Este é um documentário que mostra como é importante existir uma imprensa forte e livre, que os cidadãos podem responsabilizar os governantes pelos seus atos (ou pela sua falta de ação), e que devem ter uma participação cívica ativa.

Além disso, é contado quase como se fosse uma história dramática de ficção, e tem depoimentos de pessoas que sofreram diretamente com este caso. Tanto há um pai em luto, uma jovem cuja vida foi completamente alterada por aquilo que aconteceu, como um funcionário público que despreza os seus colegas corruptos. Os jornalistas têm de ter cuidado: são aconselhados a ser cautelosos pela segurança das suas famílias.

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