Cinema

“Color Out of Space”: o filme que Nicolas Cage gravou em Sintra vai estrear na televisão

Vai ser transmitido na televisão este domingo, 28 de fevereiro. A NiT falou com um dos produtores portugueses envolvidos.
O filme foi gravado em 2019.

Já foi há dois anos que Nicolas Cage esteve em Sintra a gravar o seu filme “Color Out of Space”. É uma história de terror sobrenatural, com momentos de suspense e muita ficção científica, baseada num conto de H.P. Lovecraft, que foi atualizado — e adaptado ao século XXI — para este enredo.

A produção realizada por Richard Stanley (que já não filmava há duas décadas) acabou por estrear nos EUA em janeiro de 2020 — e nas semanas seguintes chegou aos cinemas de outros países. Mas, por uma razão ou outra (a pandemia chegaria em força em março), nunca estreou em Portugal. Este domingo, 28 de fevereiro, estreia na televisão portuguesa: “Color Out of Space” vai ser transmitido no canal TVCine Top, a partir das 21h30. Tem 1h51 de duração.

Nicolas Cage interpreta Nathan Gardner, um homem que tem de lutar contra um organismo mutante extraterrestre depois de um meteorito atingir o quintal da sua pacata casa rural. Esse organismo acaba por infetar as mentes e corpos da família Gardner, o que se vai tornar num verdadeiro pesadelo.

O elenco desta co-produção portuguesa — são muitos os nomes nacionais na equipa técnica do projeto — tem ainda Joely Richardson, Q’orianka Kilcher, Elliot Knight, Tommy Chong, Julian Hilliard e Madeleine Arthur, entre outros.

As gravações aconteceram “95 por cento em Sintra”, mas também em Oeiras, Tomar e na zona do Monsanto, em Lisboa, revela à NiT um dos principais produtores portugueses envolvidos, Mário Patrocínio, da Bro Cinema.

“O maior desafio de todos é sempre ter a oportunidade de mostrar que Portugal e as suas empresas têm condições para receber grandes produções de forma exímia, acrescentando valor criativo ao que é produzido. Existem vários países que estão muito desenvolvidos nesta área e que têm enormes apoios para atrair essas produções”, conta Mário Patrocínio.

Nicolas Cage tem 57 anos.

“Color Out of Space” teve um orçamento de cerca de 5,4 milhões de euros e beneficiou do programa do Instituto do Cinema e do Audiovisual Cash Rebate, que tem como objetivo atrair a Portugal grandes produções internacionais.

“Temos excelentes condições naturais e climatéricas, variedade paisagística e arquitetónica, excelentes equipas e material técnico mas falta-nos ainda criar a indústria. Nós temos um longo caminho a percorrer que vai exigir consistência no trabalho, nos sistemas de apoio financeiro para atrair as produções internacionais e de uma aposta muito forte na melhoria da formação de profissionais e infra-estruturas de estúdios”, defende o produtor português.

Esta foi uma das maiores produções de sempre filmadas na íntegra em Portugal — ainda que haja outras de maior dimensão que tenham passado por cá para algumas gravações. Isso envolveu uma equipa técnica de várias nacionalidades. Mário Patrocínio explica que os desafios são diferentes num projeto desta envergadura.

Mário Patrocínio com o realizador Richard Stanley.

“Pois em equipas multinacionais é importante entender que vão existir algumas fragilidades que têm a ver com as diferenças culturais e respetivos métodos instituídos. É importante estar atento e prevenir logo no início esses potenciais pontos de fricção para esclarecer ou eliminar, criando uma maior união e respeito entre todos em prol da eficiência e felicidade no trabalho. E foi assim que foi a nossa experiência. Equipa extraordinária, maioritariamente portuguesa com uma pequena parte composta por americanos, ingleses, espanhóis e franceses.”

A produção tem uma grande componente de efeitos especiais digitais. As filmagens — que apesar de serem em Sintra levam a crer que tudo se passa numa zona rural do norte do estado americano de Nova Iorque — incluíram ainda o uso de cães e alpacas. 

Mário Patrocínio conta que Nicolas Cage foi um profissional “exemplar”. “Trouxe sempre uma energia muito forte para o set de filmagens, um profissionalismo ímpar, apresentando soluções de interpretação que em muito contribuíram para a história que estávamos a contar. Um profissional focado e dedicado. Em privado foi sempre cordial e bem educado, provou os nossos melhores vinhos e contou muitas histórias boas de se ouvir. Foi enriquecedor ter trabalhado com ele e ver o seu lado ‘humano’, à parte da mediatização gerada por ele ser uma mega estrela mundial de cinema.”

As gravações duraram vários meses.

Outro nome bastante conhecido é um dos produtores do filme. Falamos de Elijah Wood, mais conhecido por ter interpretado o protagonista Frodo na trilogia de “O Senhor dos Anéis”.

“O Elijah apenas esteve em Portugal alguns dias e fez-se acompanhar pela sua esposa, que estava grávida. Mas foram bons dias em que pudemos partilhar alguns momentos. Falou-me da sua grande paixão pela música e da gigante coleção de vinis. Curiosamente, já tinha passado por Lisboa e pelo Funchal na função de DJ. Numa das noites tivemos um jantar de equipa e ainda tivemos o prazer de o escutar a partilhar essa sua arte.”

Mário defende que, apesar do sucesso desta produção, Portugal “ainda não tem uma indústria” de cinema e que há um longo caminho a percorrer na sua área profissional.

A equipa junta.

“Somos um país com um mercado interno muito pequeno e apesar de termos cerca de 250 milhões de falantes de português a maioria desta fatia é no Brasil, que praticamente não consome nenhum produto audiovisual de Portugal, a não ser que seja dobrado para português do Brasil. Para criarmos uma indústria temos que produzir filmes portugueses, sejam eles de ‘arthouse’, de uma linha mais de entretenimento, sejam séries ou outros formatos que possam surgir.”

E acrescenta: “Mas não temos que ficar só por aí, com o aparecimento das plataformas de streaming, existem hoje muitos casos de estudo que mostram que também será possível fazer conteúdos originais portugueses que tenham potencial para chegar ao mundo. Temos que apostar mais na criação do que na produção a meu ver. Se formos um país de criadores, as histórias poderão ultrapassar qualquer fronteira e levar o talento português a qualquer ponto do planeta. Para isso temos que apostar no desenvolvimento de ideias e na formação de bons guionistas, em associação com produtores com visão de mercado internacional. No fundo, ao levar criações portuguesas para o mundo estamos a mostrar o nosso talento que por sua vez será um ponto de atração também para atrair produções para Portugal. Para que isso aconteça é preciso unir os intervenientes do nosso mercado e em conjunto com as entidades governamentais e o Instituto de Cinema e Audiovisual traçarmos um plano consistente a pelo menos 10 anos.”

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