Cinema

Com alegria e uma história real, “The Prom” é o musical do momento na Netflix

Há uma história verdadeira a inspirar o musical que veio da Broadway e chega agora ao ecrã. Foi realizado por Ryan Murphy.
É a Broadway contra a intolerância.

Deixamos desde cedo um alerta aos mais distraídos: se é daquelas pessoas que não gostam de musicais e não percebe porque é que as personagens se põem a cantar do nada, nas mais diversas situações, fuja de “The Prom”. O filme será mesmo o seu pior pesadelo. Se, no entanto, tem um carinho especial por alguma excentricidade sempre a transbordar de alegria, sinta-se convidado para o baile.

Espalhafatoso, exagerado, bem-intencionado e sempre a acelerar. Eis “The Prom”, a estreia de Ryan Murphy na Netflix em modo musical, que chegou esta sexta-feira, 11 de dezembro, à plataforma, à boleia de um elenco de luxo que inclui nomes como Meryl Streep, James Corden e Nicole Kidman.

Ryan Murphy é o criador de séries tão díspares como “Glee”, “Nip/Tuck” ou “American Horror Story”. Em “The Prom” encontramos alguns elementos que já lhe conhecemos, em particular de “Glee”, mas elevados a um nível maior de orquestração. E com alguma ironia à mistura.

O filme começa com a história de um cancelamento. Numa escola perdida no rural e muito conservador estado americano do Indiana, o baile de finalistas foi cancelado porque uma das alunas, Emma (Jo Ellen Pellman, uma pequena revelação), uma rapariga de 17 anos assumidamente gay, queria levar a sua ainda secreta companheira Alyssa (Ariana DeBose) como par.

O baile de finalistas, essa instituição já histórica nos EUA que povoa inúmeras séries e filmes, é o ponto de partida para juntar dois mundos antagónicos: de um lado o tal Indiana, mais “pacóvio”; do outro um grupo de heróis improvisados vindo de Nova Iorque. São eles que aterram no Indiana à procura de uma causa conveniente. Quando chegam, apresentam-se de forma hilariante: “Somos liberais da Broadway”.

Murphy diverte-se com este grupo de auto-proclamados salvadores, ingénuos, pretensiosos e acima de tudo oportunistas, que apesar de tudo estão do lado certo. Afinal de contas a tal miúda só queria ter direito a um baile como o de qualquer outro colega: na companhia de quem gosta.

Há nomes de luxo no elenco.

Entre um baile à antiga, só de casais de rapaz e rapariga, e um baile inclusivo, o filme procura ser uma forma bem disposta de ativismo. E se tem um lado foleiro bastante visível, não é acaso: Ryan Murphy não está aqui para enganar ninguém. O inesperado sucesso da Broadway que decidiu transformar em filme não tem apenas detalhes lamechas e foleiros. É orgulhoso dessas características.

Parecendo que não, “The Prom” é uma incursão em peso da Netflix pelo mundo dos musicais. Fá-lo com um pouco de tributo a um género com história (nomeadamente na luta por uma maior tolerância) e com um elenco bem conhecido, onde é inevitável que Meryl Streep se volte a destacar, no papel de uma diva já em queda.

O filme não tem escapado a polémicas, como a escolha de James Corden para um papel de uma personagem gay. O tal debate sobre se a escolha para os papéis deve ser fiel à orientação sexual das personagens regressou, embora se calhar nunca devesse ter saído da questão do talento. Há muitos exemplos, mas basta lembrar Neil Patrick Harris, gay assumido, tão credível em comédia como no papel do machista Barney, de “Foi Assim que Aconteceu”, como no papel de uma obsessiva ameaça em “Em Parte Incerta”.

No entanto, Corden, que continua a ser um dos mais acarinhados apresentadores de talk-shows da atualidade, já se tinha destacado entre os piores da adaptação de “Cats” (2019), o que não é coisa pouca. Se volta a ser alvo de críticas pela sua atuação em “The Prom”, é possível que o problema não esteja em ser um ator heterossexual.

Seja como for, “The Prom” tem conseguido juntar muitos mundos num só, mantendo o tom brincalhão. Aqui há Broadway e aquele ambiente de liceu à americana, há conservadores e progressistas, fenómenos da Internet e, claro, o toque romântico que justifica o filme.

A história que chegou primeiro aos palcos, curiosamente, inspira-se num caso bem real, de Constance McMillen, uma jovem lésbica que viu a sua escola no Mississippi cancelar o baile de finalistas da escola precisamente pela mesma razão que Emma se viu excluída em “The Prom”.

O caso na altura não foi resolvido com danças e cantorias mas em tribunal federal, que decidiu em 2010 que a escola tinha violado os direitos constitucionais da jovem. Foi uma vitória para o lado da inclusão, embora certamente menos excêntrica do que a vitória que o tal grupo da Broadway de “The Prom” procura alcançar.

O mote para estas pouco mais de duas horas de filme até pode ser sério mas em segundo algum a coisa se quer sisuda. O pedido aqui é simples: “dance”. E ao contrário do tal baile de finalistas aqui não há polémica. Os fãs de musicais que se sintam convidados, que a pista para eles está aberta.

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