Cinema

Como Chris Rock superou os traumas psicológicos para aprender a reagir à violência

“Se alguém te tratar mal, dá-lhe um beijo." É a máxima do humorista que fez terapia durante anos e que explica a sua reação nos Óscares.
A reação de Rock nos Óscares é explicada pelo próprio

“Senti sempre que havia algo de ligeiramente errado”, confessou o humorista sobre o transtorno detetado tardiamente, mas que se terá feito sentir em todos os aspetos da sua vida. “Afetava as minhas relações, a minha família, as mulheres com quem namorava.” “Sempre tive problemas com a comunicação não-verbal.”

A conselho de um amigo, em 2020 submeteu-se a uma série de exames cognitivos até conseguir chegar a um diagnóstico. Sofria de transtorno de aprendizagem não-verbal, uma condição que impede a perceção de comunicação que, ao contrário do que se possa pensar, vai muito além das palavras. Estima-se que cerca de 80 por cento da comunicação numa conversa entre duas pessoas seja feita de forma não-verbal. “Tudo o que percebo são as palavras”, explicou em entrevista à “The Hollywood Reporter”.

Foram precisamente as palavras que o traíram e que o conduziram até à posição de protagonista de um dos mais inéditos momentos dos Óscares e da televisão. “Jada, mal posso esperar pelo ‘GI Jane 2’”, brincou na cerimónia de domingo, 27 de março, numa piada dirigida a Jada Pinkett-Smith.

A alusão ao cabelo rapado dos soldados — que Demi Moore envergou com orgulho no filme de 1997 — não caiu bem à atriz que sofre de alopecia. Nem a Jada nem a Will Smith, o marido que depois de algumas gargalhadas, se levantou e agrediu com uma chapada o humorista. Surpreendido mas imperturbável, Rock mostrou-se à altura do desafio, mesmo enquanto Smith vociferava do seu assento: “Tira o nome da minha mulher da merda da tua boca.”

Rock, um velho amigo do casal, deixou prosseguir o espetáculo e manteve a postura profissional. No final da cerimónia, optou por não apresentar queixa na polícia — uma atitude que dificilmente teria replicado décadas antes, quando, segundo o próprio, tendia a reagir de forma mais intempestiva.

“Sempre atribui os problemas ao facto de ser famoso”, explicou sobre a forma como o transtorno o afetava, sobretudo como encarava todos os comentários de forma literal, já que era incapaz de entender as subtilezas da comunicação. “Quando alguém me respondia de uma forma negativa, pensava que estavam a reagir a algo que eles pensavam que eu era. Agora percebo que o problema estava em mim. Muita da culpa era minha.”

“Tudo isso é ótimo para escrever piadas — mas não é lá grande coisa no que toca a relações entre duas pessoas”, diz sobre a condição. Munido de um exército de psicólogos e terapeutas, Rock assume que o pedido de ajuda funcionou. “Tudo se torna mais fácil assim que estás diagnosticado.”

“Vivemos num mundo onde todos querem ser autónomos e independentes, dizer que tudo o que fizeram foi graças a si próprios. Isso faz com que nos desliguemos do mundo, rejeitamos pedir ajuda quando realmente precisamos”, conta. “Visito dois terapeutas, participo em terapia de grupo, falo sobre os meus problemas e ouço os problemas dos outros. E se podes falar com pessoas, tudo se torna melhor.”

O humorista de 57 anos encarou no palco dos Óscares um cenário repetido que o atormentou durante a juventude. Dois meses antes de ser agredido em direto por um colega, Rock falava sobre a forma como tendia a deixar que os outros “o pisassem”.

“Metade do bullying que sofria era porque eu era o tipo pequenino”, contou. “Depois cheguei à escola e implicavam comigo porque era baixinho e porque era negro. Era bullying a dobrar.”

Farto de ser alvo de piadas e de agressões, o jovem Rock decidiu resolver o assunto pelas suas próprias mãos. “Fui para casa e pus um tijolo na mochila — e esta é uma história lendária lá no meu bairro —, atirei aquela merda à cara do gajo e fui-me a ele, à moda do Joe Pesci, ao ponto de todos pensarmos que ele podia morrer”, contou. Essa viagem repentina de vítima a agressor foi tema para muitas horas de terapia e terá levado o comediante a adotar uma postura de alguma fragilidade.

“Resumindo, desde esse dia que o meu psicólogo diz que eu tenho medo de voltar a ficar irritado”, conta Rock. Para evitar situações de violência, passou a ignorar quem se aproveitava de si. “O tipo que as pessoas conheciam era um que ia ao limite para ser simpático, tudo porque tinha pavor da minha raiva.”

Durante anos, a terapia serviu para o tentar ajudar a ultrapassar esse incidente traumático da infância. “Esse tipo despertou algo dentro de ti”, disse o psicólogo, segundo Rock. “Tens tanto medo de que essa raiva volte a acordar, que acabas por deixar que o mundo de pise. Os teus amigos passam por cima de ti, as tuas relações amorosas — toda a gente te lixa.”

Rock não reagiu à agressão — e prosseguiu com o espetáculo

A verdade é que, mesmo agredido perante centenas dos seus colegas e milhões de telespectadores, Rock manteve a calma. Parte da opinião pública congratula-o pela postura profissional, outra pela capacidade de ignorar o atropelo à sua dignidade provocado pelo mesmo homem que viria a receber um Óscar em palco.

Rock ainda não se pronunciou oficialmente sobre o sucedido, mas foi do seu irmão que chegaram algumas novidades sobre a forma como a agressão foi recebida pelo outro lado.

Embora Diddy tenha confirmado que o incidente tinha ficado sanado na after party dos Óscares, o irmão do humorista, Tony Rock, deixou claro no Twitter que isso não tinha acontecido. “Aprovas o pedido de desculpas [do Will]?” “Não”, frisou Tony, que ainda está “à espera” de uma abordagem privada de Smith que ainda não terá acontecido.

Independentemente da forma como Will Smith e a sua família irão ou não agir, Rock revelou, ainda antes do incidente, estar profundamente orgulhoso da sua evolução pessoal. “Não tenho medo de dizer às pessoas o que sinto. Agora consigo dizer: ‘Olha, não gostei do que me disseste’, sem perder a cabeça, sem que parta a cabeça a alguém com o raio de um tijolo.”

Deu um exemplo durante a visita ao programa de Howard Stern, em 2020, sobre o reencontro com um dos seu maiores bullies da infância. “Ele estava a trabalhar como segurança num filme que eu estava a fazer. Era o tipo que, um dia na escola, literalmente me virou ao contrário para me roubar o dinheiro que caia dos bolsos”, disse. “Dei-lhe aquele olhar, sabes, como quem diz ‘espero que estejas bem’. Continuei a andar. Não fiz aquela cena do ‘tirem-no do set, despeçam o gajo’. Ele podia ter sido um amigo. Podia ter estado comigo no camarim a ver ‘O Padrinho’, percebes?”

A postura tão elogiada de Rock pode estar diretamente relacionada com a postura dos últimos anos. “Só o facto de [o bully] ter de aguentar ali todo o dia a ver me andar de um lado para o outro, em toda a minha glória… Não tive que fazer nada.”

“Alguma vez viram o Bugs Bunny?”, questionou durante a conversa no programa de rádio. “Sabem quando o Elmer Fudd ficava realmente fulo com o Bugs Bunny? Era quando o Bugs o beijava. Era precisamente quando ele ficava louco.” E deixava bem clara a sua máxima: “Quando alguém te trata mal, é simples, dá-lhes um beijo.”

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