Cinema

Como Josh Hartnett destruiu de propósito a carreira para fugir de Hollywood

Estava a caminho de ser uma estrela, mas recusou os papéis de Super-Homem e de Batman para não ser o novo DiCaprio.
Fugir de fãs aos berros não era para ele

Camisa de mangas arregaçadas, blusão de cabedal atirado para trás do ombro e longos cabelos compridos impecavelmente ajustados atrás da orelha. Os riffs de “Magic Man” dos Heart tornavam a cena inaugural da sua personagem de “As Virgens Suicidas” numa espécie de anúncio foleiro dos anos 70.

Era esse o objetivo de Sofia Coppola, que se estreava na realização. Foi ela quem viu em Josh Hartnett o talento para chegar ao patamar mais elevado da fama. Nunca o conheceu pessoalmente antes do filme. Contratou-o assim que o viu interpretar uma cena em vídeo. “Percebias logo que ele o tinha”, explica sobre aquela espécie de dom inexplicável que só os atores de elite têm.

“Sabíamos que tínhamos de o tornar num ícone”, confessou à “Vanity Vair”. Estávamos em 2001 e aos 23 anos, Hartnett era um sério candidato a novo membro do grupo de jovens estrelas que derretem plateias. Na sala estavam já nomes como Leonardo DiCaprio, Will Smith, Matt Damon ou Ben Affleck.

Foi ao lado deste último que consagrou definitivamente o estatuto, no mega-blockbuster “Pearl Harbor”. “Ele vai ser grande como o caraças”, atirou o realizador Michael Bay.

Vinte anos depois, Hartnett corre o risco de passar despercebido pelas ruas de qualquer cidade no mundo. A relação com a fama foi sempre atribulada e chegou mesmo a um limite onde quebrou. O ator hesitou, a máquina trituradora de Hollywood continuou a desbravar terreno e os dois nunca mais se entenderam.

Hoje, à distância de duas décadas, continua a atuar, mas nos seus próprios termos e condições. Nunca admitiu que o fechassem na caixa castradora do herói ou super-herói — e pagou por isso. Seguiram-se muitos filmes independentes, sempre com um olho atento para escolher trabalhos com realizadores promissores, entusiasmantes e consagrados. Nos planos está o próximo filme de Guy Ritchie, “Wrath of Man”.

“Estou feliz por me ter visto livre dessa era e por estar agora a fazer filmes que me são muito pessoais. Os realizadores estão a vir ter comigo para me convidarem a interpretar personagens, ao invés de me convidarem a reinterpretar uma versão de um herói de um filme que fiz há uns anos”, explica ao “The Guardian”

A viver numa pequena cidade inglesa com a mulher e dois filhos, encurralado pela pandemia, Hartnett parece querer apagar a fase blockbuster da memória, embora recorde com especial carinho o primeiro grande papel no filme de culto “As Virgens Suicidas”.

“Parte-me o coração perceber que já passou tanto tempo. Era uma criança, tinha 19 anos. Gravar esse filme foi como juntar-me com um grupo de amigos a tentar fazer um projeto. Acho que continuo à procura de uma experiência igual a essa sempre que faço um novo filme”, confessa.

Um ícone em potência

Chegou a Hollywood em 1997, pela mão de uma agência de talentos que o descobriu numa série de peças de teatro. Assim que aterrou na Califórnia, tentou agarrar tudo o que podia. Chegava a fazer quatro audições por dia.

“Sempre que íamos, recebíamos uma chamada afirmativa, o que é muito pouco usual. Além disso, os diretores de casting estavam a ligar a outros colegas a dizerem-lhes que tinham que o conhecer. É um buzz enorme que simplesmente não podes comprar em Hollywood. É uma bênção dos céus”, contou a agente Nancy Kremer à “Vanity Fair”.

Em apenas quatro anos, tinha as portas abertas para o sonho de 99 por cento dos atores: uma proposta para assumir o papel de protagonista no blockbuster do ano. Uma produção de Michael Bay que envolvia um orçamento estonteante, um triângulo amoroso com Kate Beckinsale e Ben Affleck, num elenco de luxo com Cuba Gooding Jr., Michael Shannon e Alec Baldwin.

Contrariamente ao que seria de esperar, o primeiro instinto de Hartnett não foi o de pegar na caneta e perguntar onde é que tinha que assinar. “Não queria necessariamente que as coisas mudassem muito. Estava feliz com o nível de fama que tinha atingido e com o tipo de papéis que estava a ganhar. Ao mesmo tempo, perguntei a mim próprio: ‘Terei apenas medo que, ao fazer o ‘Pearl Harbor’, entre numa categoria para a qual talvez não esteja preparado?’ No final, decidi aceitar o papel, porque a recusa estaria sempre baseada no medo. Depois, esse papel definiu-me, o que significou que eu tinha toda a razão em ter medo do que poderia estar para vir.”

Teve o seu grande papel ao lado de Ben Affleck e Kate Beckinsale

O filme foi gravado, lançado e a loucura começou. Toda a gente queria falar com a nova jovem estrela de sorriso tímido e olhos rasgados. Agendavam-se sessões fotográficas em tronco nu, especulava-se sobre a sua vida amorosa, um carrossel de paparazzi perseguia-o para todo o lado.

“Sabes o que tem piada? Isso não tinha nada a ver com a forma como eu levava a vida nessa altura (…) Quando era mais novo, era importante eu perceber que tipo de figura é que eu era, o que queria para a minha vida, como é que queria formatar a minha vida sem tanto escrutínio. Fi-lo e hoje sinto-me confortável como sou e com a fama que tenho”, diz à “Variety”.

Recorda o dia em que foi capa da “Vanity Fair” numa ousada sessão em que surge semi-nu. “Havia alguma citação minha na peça ou era só sobre pessoas a dizerem como eu era tão sexy? As pessoas começaram a ficar ligeiramente irritadas comigo depois disso. Sentiam genuinamente que eu lhes tinha sido atirado para cima. Foram tempos muito estranhos”, recorda

Uma relação complicada com a fama

Assim que assinou o papel que o ligava a “Pearl Harbor”, os telefonemas e os conselhos não pararam de chegar. Nem todos com boas notícias, pelo menos na visão de Hartnett.

“O Josh vai tornar-se muito famoso, muito rapidamente, e vai correr o risco de se tornar nos Backstreet Boys, personificados num só homem, para as miúdas de 15 anos com as hormonas aos saltos. Está particularmente em risco porque é tão bonito. Suspeito que ele vá achar que este cenário é esmagador. É arrebatador e grandioso, mas também um pouco bizarro”, comentou Ben Affleck sobre o estrelato instantâneo do colega de elenco.

Quando foi anunciado como protagonista de “Pearl Harbor”, Hartnett tinha apenas quatro filmes lançados. Era tudo uma novidade absoluta.

“Garanto-vos que este miúdo se vai tornar numa estrela de cinema”, garantia Michael Bay. O produtor Jerry Bruckheimer era da mesma opinião.

“Estou sempre a dizer-lhe que quando este filme sair, a sua vida vai mudar. Ele diz que sabe, mas não sabe. Não faz ideia do que vem aí. Vai ter mulheres e pessoas a correrem atrás dele por um autógrafo. Recordo-me ser perseguido, eu e o Tom Cruise, era inacreditável. Tivemos que nos esconder num parque de estacionamento. Vai-lhe acontecer o mesmo. E ele vai arrepender-se”, explicou.

Hoje vive em Inglaterra com a mulher e atriz Tamsin Egerton

O choque com Hollywood

Quisesse ou não, Hartnett era o sonho de todos os estúdios e realizadores. Às mãos chegou-lhe o convite para ser o protagonista do regresso do Super-Homem aos cinemas, no filme de 2006 realizado por Bryan Singer. Como ator que gosta de pensar e embrenhar-se nas personagens, criou a sua própria visão de quem seria Clark Kent.

“Tinha esta ideia de que por viver num mundo onde ele não pode tocar em nada sem que o objeto voe até ao outro lado da sala, [o Super-Homem] teria quase medo de si próprio e do seu poder. Ele deixou de saber como era ser Super-Homem. O medo era tanto que se havia tornado quase castrado pela experiência de viver na Terra, onde pode explodir coisas apenas ao olhar para elas”, recorda. O estúdio não gostou da ideia. 

“Não queriam uma personagem tão baseada no medo como protagonista central do filme”. Sem entendimento, Hartnett decidiu esquecer o projeto e seguir em frente.

Mais ou menos na mesma altura, o seu nome estava escrito na curta lista de atores que Christopher Nolan gostaria de ter no papel principal da sua trilogia Batman. Diz-se em Hollywood que na ordem do realizador, Hartnett estava mesmo à frente de Christopher Bale, que haveria de brilhar como super-herói.

Os rumores circularam por todo o lado: Hartnett tinha feito o impensável e tinha recusado o papel que todos queriam. Os rumores circularam por todo o lado, dos bastidores dos estúdios a reuniões das mais altas cúpulas de Hollywood. Segundo o próprio, chegou apenas a conversar informalmente com Nolan, mas nada avançou. Tarde demais.

A tentar fugir à rotulagem em que tantas vezes os grandes talentos caem, decidiu esquivar-se aos blockbusters e apostar em filmes mais modestos e que, na sua opinião, o poderiam ajudar a escapar à prisão em que se sentia enclausurado.

“Black Hawk Down” (2001) de Ridley Scott foi o seu último blockbuster

“Olhavam para mim como seu tivesse mordido a mão de quem me deu de comer. Não foi nada disso. Não fazia as coisas por rebeldia ou pura desobediência. As pessoas queriam criar em mim uma marca que fosse acessível e simpática, mas não me agradava a ideia de interpretar a mesma personagem vezes e vezes sem conta. Por isso expandi, tentei encontrar filmes mais pequenos dos quais pudesse fazer parte do processo. Destruí todas as pontes que tinha construído com os estúdios porque não estava a participar. Os nossos objetivos não eram os mesmos.”

Vinte anos depois, não se arrepende da decisão. Os trabalhos continuam a chegar a bom ritmo. No verão lançou “Most Wanted”, onde interpreta um jornalista canadiano que investiga as estranhas circunstâncias da detenção de um toxicodependente nas cadeias tailandesas. Participou na série de comédia “Die hart” ao lado de Kevin Hart e John Travolta, e prepara-se para passar pelo novo filme de James Franco, “The Long Home”, bem como um lugar no elenco na próxima bomba de Guy Ritchie, que deverá chegar em 2021.

Sobre a fama, sempre teve uma visão muito clara, como a que lançou em 2001, ainda no set de gravações daquele que se tornaria no seu segundo e possivelmente último grande blockbuster, “Black Hawk Down”. “Essa é a questão sobre as verdadeiras estrelas de cinema, algo que eu nunca irei ter. Quando elas entram numa sala, tudo é sobre elas. Elas sabem isso e o resto das pessoas também. Eu gosto de voar por baixo dos radares. Ou pelo menos é isso que tento fazer.”

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