Cinema

Como o pai de Venus e Serena criou dois talentos do ténis — e se tornou numa lenda

Apesar de nunca ter sido profissional, treinou duas das melhores tenistas de sempre. A sua história inspira o novo filme de Will Smith.
Will Smith é a estrela do filme

Atualização: Will Smith venceu o seu primeiro Óscar de Melhor Ator na madrugada desta segunda-feira, 28 de março, pelo papel que fez em “King Richard: Para Além do Jogo”. Neste momento, o filme está disponível na plataforma de streaming HBO Max.

Em 1978, Richard Williams era um homem divorciado sentado no sofá a ver televisão. Entre um frenético zapping, pausou o carregar dos botões ao ver uma jovem tenista a receber um cheque de 20 mil dólares. Essa jovem era a romena Virginia Ruzici. Essa conquista inesperada inspirou o resto da sua vida.

“Era uma data de dinheiro por quatro dias de trabalho”, explicou anos mais tarde desse dia. “Fui ter com a minha mulher e disse-lhe que tínhamos dois filhos e que nos tornaríamos ricos. Eles iriam ser jogadores de ténis.”

Pai de cinco filhos — três rapazes e duas raparigas — de um primeiro casamento, não teve grande sucesso no seu treino. Mas voltaria a ser pai anos mais tarde e aprenderia tudo o que há para saber sobre ténis. Dois anos depois casava com Oracene Price e no espaço de um ano saía da maternidade por duas ocasiões. Numa com Venus nos braços, na outra com Serena.

Desde que viu Ruzici a vencer o Open francês em 1978, contratou os serviços de um tal de Old Whiskey, antigo jogador que educou Williams nas regras e segredos do jogo. O pagamento era feito em garrafas de álcool.

Em casa tinha um caderno de 78 páginas com toda a estratégia detalhada de como iria tornar as duas raparigas em estrelas do ténis. O primeiro passo? Deixar a zona de Long Beach e mudar-se para as duras ruas de Compton, bairro conhecido pela pobreza, violência e criminalidade.

A família Williams não era uma família pobre. Podia perfeitamente viver num local menos problemático. Mas era precisamente isso que o pai queria.

“Sabia que iria torná-las mais duras. Ia dar-lhes uma verdadeira mentalidade lutadora”, confessou anos mais tarde. Tinha razão. Venus e Serena viriam a dominar o desporto durante as décadas que se seguiram. Venceram mais de 30 Grand Slams e mais de 120 títulos individuais. Em dupla, conquistaram 22 títulos, 14 dos quais em Grand Slams.

Mais do que isso: tornaram-se milionárias, lançaram marcas de moda e são hoje ícones do desporto e ídolos de milhões de fãs. E só em 2021, já depois dos 40, é que anunciaram a sua retirada.

Dificilmente isso teria sido possível sem a ajuda do pai, cuja história real é agora tema do mais recente filme de Will Smith, que interpreta precisamente Richard Williams. “King Richard: Para Além do Jogo” é um drama biográfico realizado por Reinaldo Marcus Green e que tem no elenco nomes como Jon Bernthal, Demi Singleton, Aunjaune Ellis e Saniyya Sidney. Chegou aos cinemas portugueses em novembro.

O filme conta também com a participação de Venus e Serena como produtoras-executivas, ainda que as desportistas tenham adiado até ao fim a decisão de terem os seus nomes nos créditos. Só depois de verem o resultado final é que responderam afirmativamente.

Para Williams, a preparação das filhas era uma obsessão. Deixou o emprego como segurança noturno para se dedicar totalmente ao treino que ia muito além do jogo jogado. Mais do que aprenderem a técnica, era absolutamente vital que tivessem a mentalidade certa.

No entanto, deixou sempre bem claro que havia linhas vermelhas. Nunca permitiria deixar-se cair no lugar comum dos pais de desportistas, muitas vezes mais preocupados com o próprio sucesso do que com o bem-estar dos filhos.
“Em todos os temas, incluindo o ténis, decidi que seria sempre o seu pai antes de mais. Foi a melhor decisão que tomei na minha vida. Já vi tantos problemas criados por pais que não tomam essa decisão”, revelou.

Alguns contestam essa certeza de Williams e apontam para um episódio que o próprio revelou na biografia oficial lançada em 2014. Venus e Serena competiam no court local quando dezenas de miúdos invadiram as bancadas e começaram a insultá-las.

Entre comentários pouco elogiosos e alguns gritos racistas, as duas raparigas aguentaram-se firmes. Souberam depois que tinha sido o próprio pai a levar os miúdos para o court precisamente com o objetivo de espicaçar as filhas.

Os Williams eram uma família afro-americana a infiltrar-se num desporto de ricos, sobretudo de brancos. Richard sabia que, mais cedo ou mais tarde, esse era um cenário que Venus e Serena teriam que enfrentar.

“Para seres bem-sucedido tens que te preparar para o inesperado — e eu queria prepará-las para isso. As críticas podem ajudar a retirar o que há de melhor em ti”, explicou à “CNN”

Eram gozadas pelos vizinhos e pelos miúdos dos gangues de Compton, que não compreendiam porque é que duas raparigas sonhavam ser tenistas. Rapidamente começaram a sair em sua defesa, quando os abusos raciais nos courts se tornaram evidentes.

Richard recorda o torneio de Indian Wells, em 2001, tinham as filhas ainda 20 anos. Apesar de jogarem em casa, nos Estados Unidos, foram alvo de vaias. “Quem me dera que estivéssemos em 1975, esfolávamo-vos vivos”, terá dito alguém na plateia, recorda Williams.

“Tudo o que via era um mar de pessoas ricas, mais velhas na maioria, sobretudo brancas, todas de pé a vaiarem-nos, como uma espécie de multidão de linchadores aristocratas”, recorda Serena, que não jogou a meia-final contra a irmã por causa de uma lesão de Venus.

A desistência não agradou à plateia, que acusou os Williams de terem engendrado um esquema para evitar o cansaço. Serena haveria de vencer a final contra outra sensação do ténis, Kim Clijsters.

As irmãs resistiram estoicamente e, para o pai, essa capacidade deveu-se precisamente à forma como foram expostas ao mesmo tipo de ambiente desde pequenas. “Toda a gente se virou contra ela e a única coisa que ela tinha que fazer era lembrar-se do treino pelo qual passou”, concluiu o pai.

“Este desporto consegue ser bastante cruel para as pessoas negras, sobretudo nos clubes privados”, revela o antigo treinador de ténis Kamau Murray. “E particularmente no ténis, trata-se de uma crueldade subtil. Não é óbvia, não é feita às claras. Muitas vezes isso consegue ser ainda pior.”

Williams percebia isso. Treinada a resistência mental e chegados aos torneios a sério, transformou-se numa espécie de escudo das filhas.

Em 2000, Venus chegava à final do sempre conservador Wimbledon, o torneio da realeza, onde as tradições mais antigas ainda são preservadas — e onde, por exemplo, estão proibidos quaisquer equipamentos mais arriscados ou coloridos; deve ser tudo branco, simples, como sempre foi.

Claro que a chegada de uma jogadora negra, inexperiente, traria à tona a tal “subtil crueldade”. Williams agitou o ambiente diretamente das bancadas, num espetáculo poucas vezes visto em Wimbledon. Entre saltos e gritos, festejou como um doido a vitória na final, sempre de cartaz na mão onde se lia: “Esta é a festa da Venus e ninguém foi convidado”.

Tinha repetido a proeza um ano antes, num torneio menor, onde saltou para as bancadas com outro cartaz. “Bem-vindos ao show dos Williams.”

Richard Williams é visto por muitos com a força motriz por trás de todo o sucesso das irmãs, sobretudo de Serena, vista como uma das melhores, senão a melhor de todos os tempos no ténis feminino. Infelizmente, o pai não pôde acompanhar os últimos anos de carreira das filhas, como sempre fazia. Em 2016 sofreu um AVC, seguido de outros episódios semelhantes que o deixaram incapaz de falar e com princípios de demência.

“King Richard: Para Além do Jogo” será possivelmente a última grande homenagem de Venus e Serena ao pai que lhes deu tudo.

Richard foi a estrela da festa em Wimbledon

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