Cinema

Como o realizador se baseou na história de Rui Pedro (e não só) para criar “Sombra”

O filme português estreia nos cinemas esta quinta-feira, 14 de outubro. Ana Moreira é a atriz protagonista.
"Sombra" estreia esta quinta-feira.

Era para ter estreado no ano passado, mas a pandemia trocou as voltas a “Sombra”. Chega finalmente aos cinemas esta quinta-feira, 14 de outubro, e relata a história de uma mãe à procura do filho desaparecido durante muitos anos. Isabel é uma mulher que em 1998 tinha uma vida comum com uma família normal. Até que certo dia chega a casa e descobre que o seu filho de 11 anos, Pedro, desapareceu sem deixar rasto. O seu mundo desmorona-se.

O caso é falado em todas as televisões e jornais, as autoridades têm um suspeito, mas a justiça nunca consegue encontrar respostas. Apenas Isabel vai conseguir manter viva a busca pelo seu filho, que acredita ainda estar vivo, ao contrário de todos os que a rodeiam.

É a segunda-longa metragem realizada e escrita por Bruno Gascon, que se estreou há três anos com “Carga”, depois de três curtas-metragens. A ideia, explica o cineasta à NiT, já tinha alguns anos — veio na sequência do trabalho que fez em “Carga”, um filme que se centra em vítimas de tráfico de seres humanos.

“Na minha primeira longa-metragem falei das pessoas que iam, e fiquei com a ideia de que na minha segunda era importante falar das pessoas que ficavam, das pessoas que lutam e que procuram e que tentam encontrar os seus familiares”, explica.

Para começar a aprofundar-se no tema, Bruno Gascon contactou a Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas (APCD), que se prontificou a colaborar e fez a ponte com várias famílias portuguesas que têm crianças desaparecidas. Gascon já tinha uma base de guião, mas foi alterando o texto tendo em conta as conversas que foi tendo.

“Mediante todas as histórias que fui ouvindo, que essas famílias me contaram, elaborei o guião que vemos no ‘Sombra’. Acima de tudo, o que eu queria era passar o realismo. Queria que não fosse sensacionalista de maneira alguma. E queria que as pessoas com quem eu falei se sentissem retratadas e que não se sentissem defraudadas. Todas as conversas que tive foram de uma honestidade incrível”, diz o realizador e argumentista, que assume ter mudado a sua forma de ver a vida depois deste trabalho de pesquisa e investigação que durou alguns meses.

“Mudou a minha maneira de pensar e a minha forma de viver. No dia a dia convivemos com aqueles pequenos problemas que nos chateiam e depois quando vemos a força, a coragem e a luta que estas famílias têm mudamos um bocado a nossa perspetiva. Ouvi histórias que me tocaram imenso. Tornou-se, na verdade, o meu filme mais pessoal. Tenho um carinho enorme por este filme. Ouvi coisas surpreendentes, coisas que as pessoas jamais acham que são realidade.”

Se em “Carga” tinha feito uma pesquisa com base em relatórios sobre aquele tipo de crime, e só tinha lido e sabido de histórias através de outras pessoas, neste caso construiu o guião a partir das histórias que absorveu em primeira mão. Bruno Gascon explica que todas as famílias estavam recetivas a falar — até porque é algo essencial para que os casos não caiam em esquecimento.

“Todas estas famílias querem que não se esqueçam da história dos filhos, das crianças desaparecidas. Não querem que, com o passar do tempo, se vão esquecendo. Porque existe sempre a esperança de que os seus filhos apareçam. Essa esperança nunca morre. Por isso, cair em esquecimento não é bom para estas famílias. É importante que se continue a falar destas histórias, destas crianças, para que essa esperança vá continuando.”

Há uma história em particular que é muito parecida com a do filme. É a de Rui Pedro, cujo desaparecimento aconteceu precisamente em 1998, quando tinha 11 anos, e se tornou um caso imensamente mediático em Portugal. Filomena Teixeira, a mãe de Rui Pedro, foi a grande influência para o guião.

Apesar de não ser apresentado como um filme que conta apenas a história de Rui Pedro, grande parte dos detalhes narrativos são idênticos. “Eu falei com várias famílias de crianças desaparecidas, mas a influência maior foi a Filomena Teixeira, mãe do Rui Pedro. É a memória que todos nós, mais velhos e mais novos, temos de um caso de desaparecimento. Mas uma coisa que é transversal a todas as famílias é esse sentimento. E foi isso que eu quis passar. Aquela força, aquela coragem, aquele amor incondicional de uma mãe por um filho, é transversal a todas as famílias.”

Bruno Gascon argumenta que não se tentou distanciar da história de Rui Pedro, mas que procurou que os sentimentos presentes ao longo do filme — transversais a tantas mães e familiares que perdem crianças — fossem uma parte essencial de “Sombra”, que representassem e simbolizassem todas aquelas pessoas. O filme termina precisamente com uma dedicatória a diversas crianças desaparecidas em Portugal — Rui Pedro é a primeira que aparece, e em maior destaque.

Ana Moreira, que a NiT entrevistou no ano passado sobre este papel, é a grande atriz protagonista — aparece em quase todas as cenas e é o grande fio condutor da narrativa. Bruno Gascon explica que, quando estava a escrever o guião, já estava a pensar num certo perfil de atriz onde Ana Moreira se incluía.

Ana Moreira tem 41 anos.

“Para mim foi fantástico trabalhar com a Ana, que é uma atriz fabulosa. Atingi o número máximo de elogios para ela, num filme em que tudo é complicado, com uma personagem super complicada, e nas conversas que tive com a Ana fomos construindo todas essas camadas que a personagem tem de forma a torná-la o maior realista possível.” Ana Moreira também falou com várias mães cujos filhos desapareceram para preparar o papel.

Bruno Gascon assume que é um filme com um “tema pesado”, mas sublinha que além disso é “uma história de amor incondicional, de uma mãe por um filho”. “Esse peso transforma-se em responsabilidade. Tinha a responsabilidade de as pessoas serem retratadas o melhor possível e o mais realista possível, sem serem defraudadas. Eu assumi esse peso, na verdade, quando quis fazer este filme. E tenho um orgulho de as pessoas retratadas me agradecerem e dizerem que os sentimentos que veem no filme são reais.”

“Sombra” já foi apresentado numa antestreia no Cinema São Jorge, em Lisboa, e em festivais de cinema na China, Polónia, Itália e Espanha. Segue-se o Reino Unido no final de outubro. Além disso, está entre os seis pré-selecionados pela Academia Portuguesa de Cinema para ser o possível candidato nacional à próxima edição dos Óscares.

“É sempre importante, e acima de tudo é um orgulho enorme estar nesses pré-selecionados e estar com colegas meus que são tão conhecidos e relevantes no cinema. Para mim poder mostrar o filme além fronteiras é super importante até porque o que nós queremos é chegar ao maior número de pessoas possível.”

O próximo filme de Bruno Gascon, que já está em fase de pós-produção, é “Evadidos”. Será uma distopia que imagina como seria viver numa ditadura agora — e centra-se num grupo de homens que vai lutar contra essa ditadura. Provavelmente estreia em 2022.

Carregue na galeria para conhecer outros dos principais filmes que vão estrear até ao final do ano.

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