Cinema

Como Val Kilmer venceu um cancro da garganta e regressou com uma nova voz

Há 30 anos, teve o seu grande papel como Jim Morrison, em "The Doors". Porém, a má fama perseguiu-o durante demasiado tempo.
Ator sobreviveu a um cancro.

Era um daqueles projetos que iriam sempre acontecer e que ao mesmo tempo parecia que nunca iria chegar. Brian De Palma já tinha namorado a ideia de levar ao cinema a vida de Jim Morrison. Martin Scorsese idem. Ao longo dos anos vários nomes foram pensados para o papel, de Tom Cruise a Johnny Depp, passando por Bono, dos U2. Mas esta era uma daquelas produções que pareciam amaldiçoadas.

Em 1988, Oliver Stone assumiu finalmente o projeto. Três anos depois, a 1 de março de 1991, chegava aos cinemas “The Doors: O Mito de Uma Geração”. O filme foi mesmo uma das melhores obras da carreira de Oliver Stone. E se ali acertou em cheio muito o deve ao longo e duro trabalho de Val Kilmer.

Ray Manzarek, teclista da banda, nunca foi fã do projeto. Foi o único que não quis ajudar Stone na produção. Mas os membros sobreviventes dos The Doors e a crítica de então destacavam algo evidente: Val Kilmer surgia mais parecido com Jim Morrison do que o próprio Jim Morrison.

Kilmer deu tudo o que tinha ao ponto de ter partido um braço ao atirar-se do palco numa das cenas. Durante aquele ano, o ator procurou nunca sair do papel, num daqueles exercícios de ator de método que impressiona pela disciplina mas que o deve tornar uma companhia bem difícil. Nas filmagens terá sido insuportável, ao ponto de ter começado aí a fama de ator complicado que o perseguiria nos anos seguintes.

No papel de Jim Morrison.

Estávamos nos anos 1990 e o ator da prestigiada escola de Julliard era já um nome de relevo em Hollywood, uma daquelas caras bonitas que não disfarçavam o talento. Foi ele o rival de Tom Cruise em “Top Gun — Ases Indomáveis” e mesmo com poucas falas destacou-se no argumento.

A fama garantiu-lhe o papel de Batman em “Batman Para Sempre” (1995). Em entrevistas na altura, passava boa parte do tempo a queixar-se do suplício que tinha sido usar aquele fato. Joel Schumacher diria muitos anos depois que Val Kilmer fora “psicótico” durante as filmagens. Kilmer era suposto ter feito mais filmes no papel do super-herói mas a coisa nunca aconteceu. George Clooney seguiu-se como Batman (para mal dele e dos nossos pecados), Kilmer justificou-se na altura apenas com a velha desculpa de calendário.

A verdade é que nos anos seguintes os grandes estúdios iriam progressivamente ficando menos encantados com a ideia de contratar um dos outrora meninos bonitos de Hollywood. Com maior ou menor destaque, Kilmer continuou a fazer filmes. Até que de repente desapareceu por completo dos holofotes.

Em 2016, Michael Douglas revelou que Val Kilmer tinha um cancro na garganta. Ele respondeu que o colega estava “mal informado”. O cancro já tinha sido falado antes mas Kilmer negou a doença. Mais tarde, em 2017, admitiu que era verdade, mas que já estava curado.

Na verdade, o próprio admitiu numa entrevista ao “The New York Times”, no ano passado, já começara a sentir alguns sintomas há mais tempo. Tinha dificuldade em engolir e acordou uma ou duas vezes deitado no próprio sangue na sua residência em Malibu, na Califórnia. Um médico sugeriu-lhe logo na altura que na origem das queixas estaria um cancro.

A recuperação naqueles anos fez-se com recaídas e com o ator a dedicar-se à sua fé de ciência cristã, um movimento religioso originário do século XIX em que a cura começa na espiritualidade. No caso de Kilmer, a cura passou por uma traqueostomia e radiação. O mundo viu-o naqueles anos a surgir mais gordo. Em 2019, depois de um par de anos longe do ecrã, voltava a vê-lo e estava irreconhecível, com o rosto alterado e bem mais magro.

O ar envelhecido veio acompanhado de uma outra forma de olhar para as coisas. Nos últimos anos, o ator continuou dedicado à sua fundação TwainMania. O escritor Mark Twain, aliás, continua a ser uma das suas grandes inspirações.

Em 2020, recomeçámos a vê-lo de volta ao ecrã. Está diferente fisicamente, é certo, mas o que talvez mais tenha mudado nele é a voz. Parte das diferenças são mitigadas pelo próprio. Os exercícios de voz que odiava dos tempos de escola, em Julliard, tornaram-se mais úteis do que nunca.

“É como aprender qualquer outra língua ou dialecto”, chegou a explicar em entrevista sobre sua busca por novas formas de comunicação após ter a fala afetada. “Precisas de aprender uma nova forma de comunicação, o que não é diferente de qualquer outro desafio enquanto ator”.

O seu mais recente filme é “Paydirt”, um de muitos projetos nos cinemas que a pandemia adiou. Por cá, estreou em fevereiro no TVCine Top (vai ser transmitido novamente a 5 de março, pelas 18h30). No filme, o ator partilha o ecrã com a filha, a atriz Mercedes Kilmer, uma das suas filhas do casamento de oito anos (terminou em 1996) com Joanne Whalley. Mas o seu papel mais ansiado será em “Top Gun: Maverick”, onde volta ao papel de Iceman. Ainda não sabemos que destaque terá no filme, mas o ator hoje em dia parece bem mais amigável nas rodagens.

No entretanto, o ator vai mostrando a sua paixão pelas artes no estúdio HelMel, uma galeria que o próprio fundou que recebe trabalhos dos mais diversos artistas e onde também já partilhou quadros seus. Val Kilmer lançou também já dois livros de poesia, além de uma autobiografia, “I’m Your Huckleberry: A Memoir”, onde fala do cancro e da sua vida em Hollywood, incluindo a vida amorosa, já com um toque de humor e distanciamento que a vida lhe deu.

Pelo meio, continua a fazer trabalho de caridade através da sua fundação. O site ValKilmer.com dá-nos uma pequena amostra do que ali se passa. Dá-nos também um olhar curioso sobre um ator que, no palco, no ecrã e na sua vida pessoal, se transfigurou por diversas vezes. Aos 61 amos, é um sobrevivente de cancro mas também de Hollywood.

O regresso do Iceman.

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