Cinema

“Conheci o Zé Pedro quando eu tinha 7 anos e ele veio viver connosco, era o tio cool”

A NiT entrevistou Diogo Varela Silva, realizador do documentário “Zé Pedro Rock n’ Roll”, que estreia esta quinta-feira.
O filme tem quase 1h50 de duração.

Diogo Varela Silva cresceu com Zé Pedro. Não foi só um fã dos Xutos & Pontapés, ou alguém que acompanhava de perto uma das maiores — senão a maior — bandas nacionais de sempre. Durante alguns anos, foi o seu sobrinho. Viveu na mesma casa que ele. Assistiu ao crescimento do grupo em primeira mão, no seu dia a dia.

Com um histórico ligado ao fado — Diogo Varela Silva é neto de Celeste Rodrigues, irmã de Amália; e o seu filho adolescente, Gaspar Varela, é um guitarrista prodígio que tem estado em tour internacional com Madonna —, o cineasta quis realizar um documentário sobre o seu grande amigo Zé Pedro.

Já era uma ideia que vinha antes da morte do guitarrista dos Xutos & Pontapés (e um dos maiores ícones da cultura nacional), em novembro de 2017, aos 61 anos. Depois, continuava a fazer todo o sentido homenagear a figura que Zé Pedro foi — e ao mesmo tempo foi uma maneira de Diogo Varela Silva lidar com o luto.

O documentário “Zé Pedro Rock n’ Roll” estreia nos cinemas portugueses esta quinta-feira, 30 de julho. Tem imagens de arquivo (algumas praticamente inéditas) e entrevistas com amigos, família e colegas, que colaboraram ativamente na produção do filme. Leia a entrevista da NiT com Diogo Varela Silva.

Quando conheceu o Zé Pedro?
Conheci o Zé Pedro em miúdo, eu tinha sete ou oito anos, foi quando ele começou a namorar com a minha tia Mizé e foi viver para nossa casa — da minha avó, Celeste Rodrigues — com ela. 

Quais foram as primeiras impressões que teve dele?
Aquela coisa do “este tio é muita cool” [risos]. Ele já tinha aquela onda toda rock, era muito raro ver-se na altura, por isso gostei logo dele à primeira vista. Ele tinha uns 20 anos, se tanto. Nem tanto, se calhar, não sei. Ele viveu connosco uns tempos, não sei precisar ao certo quanto, mas o relacionamento deles ainda durou uns anitos [risos].

Mas a vossa relação de amizade continuou.
Sim, ficámos amigos para sempre, ficámos muito amigos e unidos até ao fim. Tive sempre uma relação de proximidade. Apesar de o relacionamento deles ter acabado, ele continuou sempre a ser o tio Zé Pedro e continuávamos a dar-nos e ele levava-nos aos concertos, ficávamos em casa dele a ver filmes até às tantas, sei lá, foi uma amizade muito próxima e muito grande até ao fim. Foram 40 e tal anos.

Indo aqui para o presente, em que momento é que decidiu fazer o documentário?
O documentário era uma coisa que já tinha sido falada de fazermos um dia. Sempre naquela ideia de que um dia faríamos, quando fosse a altura, quando tivéssemos tempo. Isso não aconteceu e depois até acabou por ser um bocado a minha maneira de lidar com a questão do luto, com a perda dele.

Foi algo com que decidiu avançar logo após a morte do Zé Pedro?
Não foi logo após, foi passado uns tempos, não foi uma coisa imediata. Na altura nem estava a pensar nisso, estava a lidar com a perda do Zé e isso foi a parte mais chata.

A partir do momento em que começou a trabalhar no filme, como foi pensar nele e na melhor forma de o construir?
Houve um trabalho de recolha e de pesquisa de material de arquivo primeiro, e com base no que foi encontrado e nessas coisas todas é que comecei a perceber como é que poderia construir a narrativa para o filme. E ver o que é que era preciso filmar para contar a história que eu queria contar, tendo aquela base de partida. 

Houve alguma parte da história do Zé Pedro de que não estava à espera de encontrar, mas que o surpreendeu durante a pesquisa e que achou que valia a pena aparecer no filme?
Não, na verdade não. A nossa ligação era grande, por isso não tinha assim grandes surpresas na história dele. Não havia assim nada que eu não soubesse ou não conhecesse. O que houve, por exemplo, foi a descoberta de algumas coisas de arquivo que não eram conhecidas ou que não eram conhecidas do grande público. Falo de filmes de Super 8 de quando ele era miúdo, que foram digitalizados agora de propósito para o filme. Eram coisas que não eram vistas há muitos anos porque já ninguém via película, já ninguém tem projetores de Super 8 em casa. E nunca foram vistos pelo público em geral.

O Zé Pedro é uma figura conhecida por ter marcado imensas pessoas que se cruzaram com ele ao longo da vida e há muitas histórias conhecidas sobre ele. Tem alguma favorita?
Tenho muitas histórias minhas com o Zé Pedro, mas também não é isso que me interessa contar, não é uma coisa à volta de mim, é à volta dele. Acho imenso piada à história dele de barco de Timor, quando ele pára pela primeira vez em Hong Kong e vê aquela eletricidade toda pela primeira vez, acho essa parte gira, o fascínio dele pelas viagens, a ida dele de avião para a Guiné. São histórias a que acho muita piada e, quem não as conhecer, acho que vão gostar de saber.

Em relação às entrevistas, houve alguma mais desafiante de fazer?
Não sei, não. Toda a gente me abriu as portas e me ajudou na recolha de arquivo e na vontade de fazer o filme. Estou a falar das várias famílias do Zé: os Xutos, a Cristina — que é a mulher —, as irmãs, o irmão, os sobrinhos. Os próprios amigos dele, todos eles ajudaram, mostraram-se muito disponíveis para o filme. E realmente foi uma ajuda preciosa.

Houve alguma parte da história do Zé Pedro de que não tenha conseguido imagens, mas que estava nos seus planos? Ou foi o documentário que tinha imaginado desde o início?
Foi o documentário que eu quis fazer. Quer dizer, preferia tê-lo feito com o Zé em vida, com o Zé a contar-me as histórias, para a câmara. Mas é o que está, e foi o que quis fazer.

Diogo Varela Silva tem vários filmes sobre fado.

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