Cinema

Coppola gastou 110 milhões para fazer o filme de uma vida — Hollywood disse não

O cineasta exibiu "Megalopolis" à elite da indústria, mas os maiores nomes terão recusado avançar para a distribuição.
Este é o projeto de vida do realizador.

“[O filme] não é nada bom. É triste assistir a isto. Qualquer pessoa que invista dinheiro nisto vai perdê-lo. Não era assim que Coppola deveria encerrar a sua carreira como realizador”, confessou um chefe de estúdio ao “The Hollywood Reporter”, depois de ter assistido à estreia, numa exibição privada, de “Megalopolis”, um dos projetos paixão do icónico cineasta Francis Ford Coppola. 

Aos 84 anos, o realizador levou a sua mais recente obra até aos magnatas da indústria, num visionamento que aconteceu a 28 de março, em Los Angeles. Da Paramount à Disney, da Netflix a Warner Bros, nenhuma cara faltou à chamada para ver o projeto autofinanciado por Coppola e que começou a ser escrito em 1983. “Procurei fazer um filme sobre utopia, sobre o que é realmente o céu na terra”, disse o realizador numa conferência de imprensa no festival de cinema de Lumière, em Lyon, França, onde recebeu o Prémio de Carreira, em 2019.

Abandonou o projeto temporariamente no início do século, na sequência dos atentados do 11 de setembro — o filme aborda a reconstrução de Nova Iorque após um evento cataclismico —, e classificou-o como o seu “filme mais ambicioso” de sempre. No total, a produção custou cerca de 110 milhões de euros, montante que em grande parte foi conseguido através da venda de uma parte significativa do seu império vitivinícola, num acordo feito em 2021 e que rendeu mais de 500 milhões.

O resultado foi uma longa-metragem com duas horas e 15 minutos de duração, numa história que acompanha a reconstrução da metrópole após a sua destruição. Nessa reconstrução assistimos a um embate entre um arquiteto idealista (Adam Driver) e um autarca com sentido prático (Giancarlo Esposito), que terão que chegar a acordo. 

A verdade é que a expetativa era grande e todos quiseram ir ver em primeira mão o resultado final. A desilusão foi geral. Segundo o “THR”, “”Megalopolis” enfrenta uma batalha difícil para encontrar um parceiro de distribuição. “Simplesmente não há como posicionar este filme”, nota a publicação, que cita a opinião de vários dos presentes.

Coppola esperava que o visionamento o ajudasse a fechar um acordo com um grande estúdio, de forma a garantir que teria um orçamento de topo para a promoção do filme. Uma estratégia que deveria ter um custo acima dos 100 milhões, e que automaticamente coloca de parte os estúdios mais pequenos — onde o espírito mais criativo do filme poderia encaixar. O caráter pouco comercial da obra poderá também afastar os maiores estúdios, o que resulta num impasse para o cineasta. 

Sabe-se que a Universal e a Focus já desistiram de lutar pela licitação da produção e que muitas outras empresas vão seguir o mesmo caminho. “Se o Francis estiver disposto a suportar ou a apoiar os gastos, acho que haveria muito mais partes interessadas”, revelou um dos presentes no evento. “Embora todos torçam por ele e sintam alguma nostalgia, há o lado comercial das coisas e ninguém quer perder dinheiro.”

Ainda assim, nem todas as críticas foram negativas. Também houve quem achasse que “Megalópolis” estava bem conseguido e que “tem vida real”. O certo é que não se sabe se algum estúdio vai chegar a acordo para comprar a produção ou para a distribuir.

Coppola sempre quis que este filme fosse lançado em IMAX também. Como tal, antes da sessão de compra, houve uma pequena exibição em Playa Vista, em Los Angeles — foi aqui que o realizador viu pela primeira vez o filme completo numa tela com esta tecnologia.

Ainda assim, embora ele mantenha o desejo, a produção não foi filmada para IMAX; apenas foram utilizadas tecnologias que permitem filmar certas sequências de forma a preencher totalmente este tipo de ecrãs. Por este motivo, ainda não está garantido um lançamento completo neste formato.

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