Cinema

Crítica: Daniel Craig despede-se de James Bond no filme mais emocional de todos

“007: Sem Tempo Para Morrer” chegou aos cinemas a 30 de setembro. É um dos melhores filmes desta era de Bond.
Daniel Craig não volta a ser James Bond.
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Os produtores de James Bond tinham várias missões para “007: Sem Tempo Para Morrer”. Era o último filme de Daniel Craig no papel principal, numa era em que Hollywood está saturada de remakes e sagas intermináveis, e estava latente o objetivo de aprofundar e modernizar a própria imagem de Bond.

Adiado múltiplas vezes por causa da pandemia, o 25.º filme da saga baseada nos livros de Ian Fleming estreou nos cinemas a 30 de setembro. É o mais emocional, o mais denso, e uma das melhores histórias de Bond na era de Craig — só perde (ou empata) com “Casino Royale”.

A história começa no sul de Itália, com Bond reformado do MI6 e a tentar levar uma vida romântica com Madeleine Swann (Léa Seydoux), com quem estava desde o último filme. Embora, como ela nota, ele esteja sempre a olhar por cima do ombro. E com alguma razão. Um ataque repentino desenrola-se, fá-lo duvidar da palavra de Madeleine, uma mulher de muitos segredos, e os dois separam-se num impulso.

Cinco anos depois, Bond vive tranquilamente no meio da paisagem exótica da Jamaica até ser interrompido pelos velhos amigos da CIA. Querem a sua ajuda para derrotar definitivamente a Spectre, que vai ter um encontro internacional em Cuba. O MI6 também está interessado naquilo — porque tudo está relacionado com um projeto secreto do governo britânico, que desenvolveu uma arma letal que foi roubada do laboratório.

É assim que James Bond acaba por conhecer a sua substituta, a nova agente 007, a muito competente e perspicaz Nomi (Lashana Lynch). A relação entre ambos vai começar tensa mas torna-se progressivamente mais harmoniosa. A tal arma secreta — que consiste em nanorobôs combinados com ADN, que podem provocar a destruição da humanidade — acaba por ir parar ao grande vilão da história.

Ele é Lyutsifer Safin (Rami Malek), um bizarro e perturbado perito em venenos que vive numa ilha remota e que pretende impor a sua visão idílica do mundo através da destruição e chacina. Nada de novo aqui. A grande diferença é que ele tem uma ligação a Madeleine. Obviamente, vai ter de ser travado por James Bond — que neste caso tem motivos muito mais pessoais para fazer aquilo que faz sempre.

Desta vez, Bond não quer apenas salvar o mundo per si. O agente secreto está apaixonado, desenvolve um sentimento paterno que sempre lhe foi estranho — pela primeira vez, há uma criança que é realmente uma personagem — e tudo isso vai contribuir para um clímax emocional épico de redenção. O final é mesmo emotivo e justo para com a partida de Daniel Craig — o ator que foi mais além e tornou Bond numa personagem mais multidimensional.

Tudo aquilo que torna um filme de 007 num filme de 007 está lá. As irrepreensíveis e ambiciosas cenas de ação; a incrível direção de fotografia que tem de ser apreciada no grande ecrã; James Bond a fazer manobras arriscadas com carros, motas e todo o tipo de veículos; os destinos exóticos que vão desde as ilhas Faroé à Jamaica. Tudo aquilo que foi realizado por Cary Joji Fukunaga, o primeiro americano a dirigir um capítulo da saga, mantém a classe e estilo visual aprimorado de um filme de James Bond.

Ao mesmo tempo, é provavelmente o filme mais auto-consciente da saga. Estão lá os grandes carros, o Martini e as mulheres vistosas — mas nada disso é abordado como sendo o mais importante. O papel tradicional das “Bond Girls” foi desdobrado em três personagens reais neste filme — obviamente já não são meros adereços. Ana de Armas interpreta a parceira de Bond em Cuba e faz jus ao seu apelido; Léa Seydoux é o verdadeiro amor do protagonista; Lashana Lynch é a primeira mulher 007. “Sem Tempo Para Morrer” tem força feminina e inclusão sem ser algo de todo forçado.

O filme tem noção do seu espaço, da sua história desde os anos 60, da mitologia de Bond, do seu atual lugar de vanguarda nos blockbusters, mas consegue modernizar e levar a narrativa para novos caminhos — mais emocionais e densos, numa fase pós-Bond 007. Além disso, é envolvente. Apesar de ser o mais longo filme de sempre de James Bond (com quase três horas de duração), o tempo não custa nada a passar.

A habitual sequência inicial está lá, o genérico fabuloso também, não faltam as ocasionais piadas one liners e a canção original desta vez pertence a Billie Eilish, que criou uma balada soturna que combina bem com grande parte do filme. Afinal, esta é uma despedida. Um requiem para James Bond — pelo menos o James Bond de Daniel Craig.

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