Cinema

Crítica: Foi você que pediu um filme de “Saw” com o humor de Chris Rock?

“Spiral — O Novo Capítulo de Saw” tentou reinventar a saga às costas do comediante. É pouco provável que o faça — mas não vai defraudar os fãs.
Nunca a comédia de Rock teve tanto sangue
60

A voz e o humor de Chris Rock são inconfundíveis. O arranque do novo capítulo da saga “Saw” acontece de forma imprevisível e surpreendentemente bem-humorada. Num monólogo em que discute se “Forrest Gump” poderia ser lançado numa era onde impera o politicamente correto, a personagem do comediante que aqui é protagonista deixa a dúvida: estamos num segmento de humor de Rock ou num filme de terror e suspense?

As improváveis gargalhadas que definem o tom inicial de “Spiral — O Novo Capítulo de Saw” são tão inesperadas como bem-vindas. Não é motivo para surpresa: afinal, Rock serve aqui de produtor executivo mas também de estrela principal do elenco que faz regressar aos cinemas a saga de terror que conta já com nove filmes.

Neste capítulo regressa Darren Lynn Bousman, o homem que dirigiu os “Saw II”, “Saw III” e “Saw IV”, escolhido a dedo por Rock, que chega acompanhado de Samuel L. Jackson e Max Minghella (“The Handmaid’s Tale”). A saga é reimaginada para voltar às origens, sem as complicações e o peso de uma história que se prolongou por nove longos capítulos. A estreia acontece esta quinta-feira, 13 de maio.

Gravado em 2019, chega finalmente aos cinemas depois de adiamentos sucessivos, para acompanhar Zeke Banks, um experiente detetive odiado pelos seus colegas. Ao contrário dos filmes anteriores, é no drama da personagem principal que se foca o primeiro terço da produção.

Banks é filho de Marcus Banks (Samuel L. Jackson), venerado chefe da polícia, agora reformado. No seu lugar ficou Angie Garza, o seu braço direito que tenta dirigir uma esquadra recheada de conflitos e testosterona.

A morte de um polícia numa das já famosas armadilhas mortais que coloca as vítimas num dilema tenebroso é o ponto de partida para a apresentação de outro dilema: Zeke Banks, ainda um novato, acusou um polícia corrupto de assassinar uma testemunha. Um ato corajoso que, muitos anos depois, é visto pelos colegas como uma traição.

O elenco conta com a estrela de “The Handmaid’s Tale”

Contra tudo e todos, Banks tornou-se num detetive solitário que agora pretende resolver o homicídio macabro de um amigo e colega. Sem a ajuda da esquadra, recebe como parceiro William Shenck (Max Minghella), um novato na força policial. Juntos, recriam o velho cliché de Hollywood, numa dinâmica divertida e inusitada num filme “Saw”, mas que soa sempre a algo que já vimos em qualquer lado, em qualquer filme.

Rock não se esconde disso mesmo — e garantiu que a sua ideia passava por trazer humor ao horror, ao lado de uma homenagem aos clássicos filmes do polícia rebelde —, dispara as suas tiradas cómicas em catadupa. Depois, assim que o drama arranca, a personagem mergulha no passado obscuro e na súbita realização de que o homicídio representa o regresso de um assassino que tenta replicar o estilo maquiavélico de Jigsaw.

Percebe-se a intenção de atenuar o humor para não diluir a tensão necessária que não deixa a audiência ficar confortavelmente sentada no seu assento. Mas assim que a criatividade de Rock fica presa no argumento, estamos de volta a mais do mesmo.

Embora a intenção passe por virar o foco para as personagens, a sua história e a sua dinâmica, os 90 minutos de filme não dão espaço suficiente para que os atores possam reforçar as suas personalidades e relações. “Spiral” acaba por cair numa espécie de armadilha de Jigsaw: pode decidir inovar no estilo, mas arrisca alienar todos os fãs que servem de base a uma saga com nove filmes.

Rock e Minghella são parceiros em “Spiral”

É preciso investir nas armadilhas, no gore, nos dilemas tenebrosos em que são colocadas as personagens — e que por sua vez colocam os espectadores também no seu lugar. Há, claro, um espaço reservado para o twist que é já um clássico nos filmes “Saw”. Tudo isso acontece e tudo isso acaba por tornar este novo capítulo em algo que já foi visto.

“Spiral” mantém-se fiel aos princípios fundadores de “Saw” e será, por isso, um provável sucesso entre quem acompanha a saga. Será mais difícil que cumpra o outro propósito assumido por Rock e Bousman, de trazer novos fãs ao franchise e aos género do horror/suspense. Nesse sentido, é um sucesso.

O estilo subtil de Max Minghella faz de William Shenck a personagem mais real e cativante do elenco, sem que tenha tempo suficiente para a tornar numa figura que queiramos continuar a acompanhar nas potenciais sequelas.

Rock é Rock e isso é tanto uma crítica como um elogio. Talvez porque tenhamos gravada na memória a sua voz e o seu tom humorístico, torna-se difícil embrenharmo-nos na figura de Zeke Banks, sem que, mesmo nos momentos de maior tensão, estejamos à espera de uma tirada cómica.

A ambição não recompensou. “Spiral” dificilmente será uma forma de atrair novos públicos ao universo “Saw” ou sequer de dar um novo rumo à saga. Mas quem quer mais uma dose de homicidas sem escrúpulos revelados no último minuto, armadilhas sangrentas e pequenos puzzles, talvez “Spiral” seja suficiente para saciar a fome até à chegada do nono filme.

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