Cinema

A crítica que quase destruiu a carreira de Sidney Poitier

Era amado pelos brancos e por isso tornou-se um alvo da comunidade negra que lutava pelos direitos civis.
Poitier morreu aos 94 anos

“Porque é que a América branca gosta tanto de Sidney Poitier?”, questionava o jornalista do “The New York Times” Clifford Mason, numa peça de opinião publicada em 1967. Mason, claro, dava a resposta.

“Existem dois Sidney Poitier. Um, é um homem dedicado à melhoria da imagem dos negros em geral, e particularmente à retificação dos males cometidos contra as mulheres negras. O outro é a estrela negra de filmes que toda a América branca adora”, escrevia o jornalista, também ele negro, antes de lançar uma profunda crítica ao ator. No texto, havia um eco do sentimento de uma camada da comunidade negra mais revolucionária do que nunca, com vontade de agitar a sociedade.

Para eles, Poitier era apenas isso, o negro que se moldava para agradar aos brancos, que aceitava as limitações impostas e que era recompensado por isso — apesar de todo o seu percurso indicar o contrário — com prémios, um deles em destaque, o Óscar de Melhor Ator em 1964, o primeiro atribuído a um ator negro. Mas ainda assim, a crítica de Mason haveria de lhe mudar a vida.

Uma vida que terminou na quinta-feira, 6 de janeiro, aos 94 anos. O icónico ator nascido nas Bahamas passou por dificuldades mas conseguiu criar uma invejável carreira no cinema, mesmo numa época de profundas divisões raciais. Um tema que nunca esteve muito longe das histórias e das narrativas que levava ao ecrã.

Mesmo afastado de papéis românticos e de estar enclausurado nas personagens tidas então como aceitáveis para um ator negro, distingiu-se pela capacidade de abrir portas a outros colegas afrodescendentes.

Foi também um exemplo de longevidade, ele que já há duas décadas adotava uma estrita e saudável dieta. De tal forma curiosa que foi alvo de interesse por parte da imprensa.

“Jurou deixar de comer álcool, carne vermelha, leite e açúcar — e refere-se à ocasional bola de gelado como ‘ter uma recaída'”, escrevia em 2000 o “The New York Times” sobre a sua dieta “que se tornou lendária em Beverly Hills”. E davam um exemplo de um pequeno-almoço: uma omelete só com claras, um prato de brócolos, granola com mirtilos e, e não bebia leite, apenas água. “É um entusiasta da comida saudável e do exercício há pelo menos 40 anos”, notam.

Foi, porém, no papel de homem numa encruzilhada entre negros e brancos que se destacou — fora do ecrã, está claro. Essa linha tinha uma representação bem real no terreno: chamavam-lhe a Mason-Dixon Line, a linha fronteiriça que separava o Norte do Sul, o resultado da sangrenta Guerra Civil, provocada pelo fim da escravatura.

Era abaixo dessa linha que se mantinham os piores costumes raciais dos terríveis 50 e 60, onde a segregação racial não só era comummente aceite como incentivada. Os filmes com Poitier como protagonista eram sempre fracassos nos estados sulistas. Não é que Poitier tivesse sequer grande preocupação com isso.

Ele próprio fazia questão de impor uma única condição nos filmes em que participava: recusava-se gravar qualquer cena abaixo dessa linha.

Assim o recorda Norman Jewison, realizador canadiano que em 1966 realizou “No Calor da Noite”, que deveria ser um filme de orçamento curto, mas que se tornou num sucesso gigante com Poitier no papel de detetive que investiga um homicídio numa cidade sulista (e racista). Acabaria por ganhar cinco Óscares.

Poitier ficou feliz quando soube da possibilidade de ser protagonista, mas havia um problema. Jewison queria filmar num local o mais realista possível e, para isso, teriam que cruzar a tal linha, rumo ao Mississippi. Poitier havia jurado não o fazer. “Disse-o com tanto ênfase, que percebi logo que era algo muito importante para ele”, conta Jewison ao “The Hollywood Reporter”.

Poitier esclareceu: “Tive uma má experiência com o Harry Belafonte na Geórgia, o nosso carro foi perseguido, fomos ameaçados, não quero voltar.” O realizador prometeu tentar encontrar uma solução. Foi impossível.

Jewison tentou tudo e fez uma última proposta: só precisaria de Poitier no local para gravar duas cenas que demorariam apenas um par de dias a finalizar. “Lembro-me de implorar ao Sidney e ele só dizia ‘eu percebo, eu percebo’. Compreendeu que não tínhamos alternativa.”

Acabariam por viajar até Dyersburg, no Tennessee, na companhia de uma equipa de “homens grandes e leais” que ajudariam a evitar problemas e potenciais protestos. Ainda assim, tiveram que cumprir todas as leis racistas.

“Fomos forçados a ir para o Holiday Inn porque era o único sítio que aceitava afroamericanos. O principal hotel de Dyersburg era um hotel sulista, apenas para brancos”, conta Jewison. “É preciso relembrar que estávamos a gravar em 1966, as coisas estavam tensas. O Martin Luther King Jr. tinha acabado de marchar em Selma. O país estava no meio de uma revolução racial.”

A gravação decorreu sem problemas, mas Poitier tinha tido várias más experiências no sul. Dois anos antes, numa visita ao Mississippi, Poitier fora perseguido e ameaçado por membros do Klu Klux Klan.

Os anos seguintes foram duros para Poitier, que na sombra lutava por mais oportunidades para atores negros nas suas produções. Chegou a participar em marchas pelos direitos civis, embora fosse um ativista discreto e pouco dado a manifestações exaltadas e violentas. O caráter pacato valeu-lhe um coro de críticas e de acusações: afinal, era o negro de que “todos os brancos gostavam”.

Manteve-se firme na sua própria luta. Sonhava quebrar outra barreira e ser protagonista de um filme romântico. Consegui-o com “A Warm December”, depois de perceber que os habituais papéis estavam a cansar as audiências e a não dar o retorno esperado. Mas também esse filme foi um fracasso de bilheteira.

“[No início dos anos 70] passava por um período em que era persona non grata entre alguns elementos militantes, sobretudo em Nova Iorque”, escreveu no livro de 1998 “Playing to the Camera”. “Isso começou depois dos meus mais bem-sucedidos filmes. Nenhum ator negro tinha o meu nível de sucesso e a comunidade de atores negros começava a mostrar ressentimento.”

“Era o alvo perfeito, mas não havia nada que pudesse fazer. Podia terminar a minha carreira, mas o que conseguiria com isso? Certamente que isso não garantiria que eles fossem contratados”, escreveu. “Falar-lhes sobre as inúmeras vezes que confrontei as pessoas dos estúdios para prometerem que fariam algo sobre contratar mais atores negros? Isso traria pouco conforto, até porque nunca deu resultados tangíveis.”

Foi então que a crónica de Mason aterrou nas páginas do “The New York Times” e arrasou o ator. “Foi a mais devastadora e injusta peça de jornalismo que alguma vez li (…) Disse para mim próprio que era sinal de um novo mau período na minha vida”, recorda Poitier. “No artigo, Clifford Mason destruiu tudo o que eu havia feito (…) todos os meus filmes e depois foi mais longe e atirou ainda mais para baixo a minha carreira — dedicou-se a esfolar-me vivo, de forma retroativa. Era um ‘pai Tomás’, ‘um lacaio’, ‘um preto doméstico’ — termos habitualmente colados a negros com alguma visibilidade que, na sua opinião, não faziam o que podiam para merecer os aplausos dos seus companheiros de raça.”

De amado a odiado, por vezes em simultâneo, a crítica de Mason levou a que Poitier se recolhesse e, gradualmente, deixasse os papéis de protagonista. Refugiou-se nas suas Bahamas e acabaria por abraçar papéis secundários, antes de se tornar num também bem-sucedido realizador, apesar de ter poucos trabalhos no currículo.

Com o passar os anos, o clima político acalmou e Poitier passou finalmente a ser reconhecido por quase todos. Em 2002, Denzel Washington subia ao palco para replicar a vitória histórica de 1964 na categoria de Melhor Ator dos Óscares e deixar a devida homenagem ao homem que tornou tudo possível. “Há quarenta anos que te persigo Sidney… Estarei sempre atrás de ti, Sidney. Seguirei sempre as tuas passadas.”

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