Cinema

Crítica: “Tudo Pelo Vosso Bem” é um crime pior do que assaltar velhinhos

Nem a destreza de Rosamund Pike salva este thriller sem chama e comédia sem riso.
Escondam os vossos velhinhos
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Pike e Dinklage num thriller recheado de comédia negra. Uma sinopse promissora. Tinha tudo para dar certo — e os primeiros 15 minutos são um couvert apetitoso.

A sátira ao impiedoso capitalismo americano é esfregada na nossa cara pela voz de Marla Grayson (Rosamund Pike), protagonista do novo filme original da Netflix, “Tudo Pelo Vosso Bem”. ”Jogar limpo é uma piada inventada pelos ricos para nos manterem pobres”, explica a cuidadora que, descobrimos mais tarde, é apenas uma vigarista que rouba as poupanças a velhinhos.

O golpe é o seguinte: com a ajuda de médicos pagos, forja relatórios que declaram os idosos incapazes de gerirem o seu património; depois, em tribunal, torna-se a guardiã legal destes velhotes incapazes. Internados num lar onde também o diretor está sob seu controlo, Marla Grayson cria então a teia que lhe permite controlar os idosos enquanto redireciona os respetivos bens para a sua conta bancária.

De um ponto de vista maquiavélico, é genial e perfeitamente odioso — e seria um ponto de partida fantástico para esta anti-heroína. Seria, se toda esta máquina não dependesse de um juiz mais ingénuo do que os sedados idosos internados no lar de Berkshire Oaks.

A atuação muito elogiada de Pike tem razão de ser. É a única personagem que vale a pena acompanhar: pela frieza, a indecência e perigosidade. É aterradoramente competente, na escolha do outfit, no penteado, nas cores — e sobretudo no que toca a esmifrar velhinhos e despachar mafiosos russos.

Infelizmente, é neste poster que termina o apelo do filme do realizador J Blakeson. Para uma auto-intitulada comédia negra, são raros os momentos em que nos faz rir. E assim que avança para território do thriller, entra em modo de autodestruição. Entre uma banda sonora que nunca sabe quando é que se deve calar ou assaltos a lares comandados por criminosos que rivalizam na incompetência com a dupla de stupid criminals mais famosa do cinema: Harry e Marv.

O resto do elenco faz-se de uma mão cheia de criminosos incompetentes, um mafioso com muita raiva e pouca astúcia e um mar de personagens secundárias rapidamente esquecidas.

É relativamente indiferente que quase todas as personagens sejam pouco apelativas — esqueça-se de vez a ideia tão americanizada de que é necessário dar ao público uma personagem por quem possa torcer. O problema de “Tudo Pelo Vosso Bem” é, tão simplesmente, que não existe uma personagem principal digna desse nome. Salva-se Grayson que, apesar de bem desenhada, não se aguenta no meio de tantos diálogos estapafúrdios.

“Tudo Pelo Vosso Bem” tem os seus momentos: o desarme magistral de Grayson na primeira ida ao tribunal; a burocrática e assustadora captura pelo sistema da idosa Jennifer Peterson (Dianne Wiest); e as raríssimas aparições do advogado mafioso Dean Ericson (Chris Messina).

Tudo o resto é uma viagem numa montanha-russa que não sai do chão. Nem mesmo a sátira ao capitalismo resiste ao golpe final trágico e humilhante para todos os envolvidos: sobretudo para Peter Dinklage, cujo potencial humorístico da personagem de mafioso russo é magistralmente desperdiçada.

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