Cinema

“Cruella”: “A única regra para o filme é que não podíamos matar os cães”

A NiT falou com Craig Gillespie, que realiza o novo blockbuster da Disney. Estreia esta semana nos cinemas e no streaming.
Emma Stone é a protagonista.

É um dos primeiros blockbusters do ano a chegarem às salas de cinema. “Cruella” estreou em Portugal a 27 de maio e tem Emma Stone no papel da famosa (e icónica) vilã de “101 Dálmatas”, numa história que mergulha nas suas origens para explicar tudo aquilo que a marcou e moldou para a vida.

O filme foi realizado por Craig Gillespie — o cineasta que dirigiu “Eu, Tonya”, por exemplo. O elenco inclui ainda nomes como Emma Thompson, Paul Walter Hauser, Mark Strong, Kirby Howell-Baptiste e Joel Fry. A narrativa passa-se na época punk de Londres, numa altura marcada por rasgos de criatividade e rebeldia, e mostra que a protagonista teve uma infância e adolescência particularmente difíceis.

A maioria do enredo acontece já na sua idade adulta e foca-se num grande confronto no mundo da moda: entre uma estilista consagrada (e que tem uma ligação ao seu passado traumático), a Baronesa; e Cruella, uma espécie de alter-ego daquela jovem mulher, que na realidade se chama Estella, que é a nova estilista do momento, inovadora e disruptiva.

Trata-se de uma enorme produção, com um orçamento que deverá ter rondado os 160 milhões de euros, e que envolveu centenas de profissionais. A NiT revela-lhe alguns números que servem para dar uma ideia da magnitude desta produção — que tem sido muito elogiada pelo trabalho de guarda-roupa, caracterização e cenários.

Além de estrear nos cinemas a 27 de maio, pode ver o filme em casa. Tem de ter uma conta ativa na Disney+ e pagar um custo extra de 21,99€. Mais tarde, acabará por ficar disponível para todos os subscritores da plataforma de streaming. A NiT esteve numa conferência de imprensa onde falou com o realizador Craig Gillespie. Leia a entrevista.

O que é que o atraiu para realizar este filme?
Recebi uma chamada do Sean Bailey, responsável pela divisão criativa da Disney, e já tinha trabalhado num ou dois filmes deles no passado, antes do “Eu, Tonya”. E ele ligou-me do nada e disse: o que achas da Emma Stone a interpretar a Cruella na Londres punk dos anos 70? E eu: isso é muito intrigante [risos]. E eu já adorava a ideia de trabalhar com a Emma Stone. Quando recebi o guião, achei que havia muita coisa para perceber como íamos fazer e isso foi intimidante. E depois veio o Tony McNamara, que tinha escrito “A Favorita”, eu estava a trabalhar com ele noutra coisa e foi aí que se tornou realmente entusiasmante.

Quando um vilão recebe uma história de origem como esta, a questão da simpatia pela personagem é sempre relevante. Neste caso, sabemos que é uma pessoa que vai tentar matar cachorros a dado ponto da sua vida. Como foi transformar uma personagem maléfica, quase de forma caricatural, numa heroína complexa?
Os vilões são sempre mais divertidos de fazer. E neste caso temos duas vilãs. Eu não estava a tentar que houvesse simpatia, mas que houvesse alguma empatia para com ela. Desde que conseguíssemos mostrar as escolhas que ela está a fazer… Podemos não concordar com elas, mas que conseguíssemos perceber de onde vêm, de onde é que vem aquela raiva, a sua marginalização, a supressão de quem ela é enquanto pessoa, de como tudo se manifesta desta forma… Eu espero que as pessoas não queiram fazer as coisas que ela faz, a maioria é ilegal [risos], mas acho que podes torcer por ela. E é interessante porque ela está a enfrentar a Baronesa, outra vilã no filme, e quanto mais maléfica a tornávamos melhor conseguíamos perceber porque é que a Cruella é assim. E foi uma grande dinâmica para termos durante o filme.

Foi necessário afastar-se de alguns aspetos mais maléficos daquilo que ela vai fazer no futuro, como ser uma assassina de cães? Apesar de já haver referências a isso neste filme.
Acho que a única regra que tínhamos neste filme é que não podíamos matar os cães [risos]. Mas não foi um tema em discussão, estávamos focados nestas duas mulheres fortes a enfrentarem-se e a tentarem derrubar a outra dentro da sua carreira. E depois foi: como é que prestamos homenagem [aos filmes de animação]? Toda a gente está à espera disso. E acho que houve esta ideia brilhante de… às vezes é melhor seres aquilo que as pessoas esperam que sejas. Para que possas usar isso como vantagem.

Para que público é que fez este filme?
Provavelmente não é a resposta certa, mas fiz este filme a pensar em mim. Cheguei a uma altura em que quero fazer coisas que eu realmente queira ver. E que fique entusiasmado para ir ver num sábado à noite numa sala de cinema. E por isso estava constantemente à procura de maneiras que fizesse com que isto fosse divertido e surpreendente. E foi aproveitar as interpretações destas duas mulheres fortes. Mesmo no próprio dia estávamos a improvisar e a acrescentar coisas e a tentar arriscar um pouco mais. Obviamente, isto está debaixo da casa da Disney, temos que considerar a classificação de idades. Mas acho que, enquanto pudermos fazer algo realmente divertido e que entretenha, vai encontrar o seu público.

Houve alguma discussão com a Disney tendo em conta o tom do filme?
Não, eles foram sempre grandes apoiantes. Obviamente, há uma situação muito trágica que acontece no primeiro ato — mas a partir do momento em que isso acontece, acaba por abrir os horizontes para o resto.

Como é que foi pensar na banda sonora, que tem tantas canções?
Muitas delas escolhi a partir do meu próprio telemóvel [risos]. Eu junto 1400 canções e oiço e oiço, seja qual for a década, que criem qualquer ligação emocional comigo, e assim que começo a gravar vou editando… E no próprio dia em que gravo as cenas estou a meter músicas por cima para experimentar. E há uma cena em que propus à Emma, quando ela vinha a beber e a sair do elevador… Vamos pôr a “These Boots Are Made For Walking” da Nancy Sinatra, com ela a cantar. E fizemos um take e está no filme. Foi tentar manter as coisas espontâneas e frescas.

Como é que foi combinar os géneros de comédia, terror, ação enquanto ao mesmo tempo se adaptava para a vida real uma personagem da Disney?
Sei que parece algo louco, mas é o sítio em que estou mais confortável: convencer os outros de que vai resultar. Foi muito um trabalho de encontrar atores que pudessem fazer este tom, mas também foi mérito da escrita das cenas. Há uma cena em que ela está a falar da morte da mãe e a Baronesa está a ser… no texto, é algo duro de ler e perceber como é que isso vai ser entendido, emocionalmente. Mas os atores foram mesmo bons a definir o tom. 

Obviamente, esta é uma enorme produção. Qual diria que foi o aspeto mais desafiante?
Eu sou muito ganancioso no que toca a conseguirmos o máximo possível, seja do que for. Independentemente do tamanho, nunca é suficiente. E neste caso tivemos 65 dias e o meu assistente disse-me no final da produção: fizemos perto de 270 cenários. Isso significa que fizemos e iluminámos um cenário a cada 25 minutos. Os atores são incríveis, eu sabia que eles conseguiam e estavam sempre muito bem preparados, mas o ritmo com que fizemos este filme foi um bocado louco…

Há certos temas que podemos encontrar tanto em “Cruella” como em “Eu, Tonya”. Há um estilo visual em comum, um ritmo, e até o Paul Walter Hauser participa em ambos. São duas mulheres que são levadas até à margem da sociedade. Houve um grande diálogo com “Eu, Tonya” ao fazer este filme, na sua mente?
Depois de me convidarem, após eu ter feito o “Eu, Tonya”, pensei que eles sabiam o que esperar. Trouxe o meu diretor de fotografia comigo e abordei “Cruella” como se estivéssemos a fazer um filme independente. Com a mesma energia. Não me queria afastar disso. E quando me ligaram referenciaram o “Eu, Tonya,”, com a questão da música, de usarmos muito Clash. E pensei no filme todo logo com música. Tem para aí umas 50 músicas. E é algo que tens de preparar, porque os movimentos da câmara têm de funcionar à volta disso. Basicamente, aprendi com o que fiz em “Eu, Tonya” e apliquei numa versão para 13 anos [risos]. 

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