Cinema

“Curral de Moinas” está de volta: “Cada vez achamos menos que isto é trabalho”

A NiT falou com João Paulo Rodrigues e Pedro Alves, que dão vida a Quim Roscas e Zeca Estacionâncio. O novo filme já estreou.
Quim Roscas e Zeca Estacionâncio estão de volta.

A aldeia fictícia de Curral de Moinas, algures no norte de Portugal (provavelmente na região de Trás-os-Montes), nasceu entre 2003 e 2004 como parte de uma rubrica de humor da “Praça da Alegria”. Em 2008 a localidade passou a ter um programa autónomo, “Telerural”, que foi um tremendo sucesso. Quim Roscas e Zeca Estacionâncio tornaram-se figuras icónicas.

Em 2013, o universo cómico de Curral de Moinas chegou ao cinema com o filme “7 Pecados Rurais”, realizado por Nicolau Breyner. Foi o segundo filme português mais visto de sempre nas salas nacionais — uma posição impressionante.

A sequela chegou a 11 de agosto. Falamos de “Curral de Moinas: Os Banqueiros do Povo”, dirigido por Miguel Cadilhe. Grande parte da narrativa passa-se em Lisboa, para onde Quim Roscas e Zeca Estacionâncio se mudam depois de o primeiro herdar uma fortuna. É esta a premissa de um enredo que promete ser tão divertido quanto tresloucado. A NiT falou com os atores protagonistas, João Paulo Rodrigues e Pedro Alves. Leia a entrevista.

O que podem revelar sobre o enredo deste filme?
João Paulo Rodrigues (JPR): Absolutamente tudo. O filme é todo passado neste universo de “Curral de Moinas”. Na verdade, passa-se mais em Lisboa do que propriamente em Curral de Moinas, mas nós trazemos Curral de Moinas para Lisboa. Basicamente, a história começa com uma notícia: o Quim fica a saber que é podre de rico. Recebe uma herança, porque o pai, coitadinho, faleceu. E, por acaso, era dono de um banco. Por isso, vem para Lisboa tomar posse como o dono disto tudo e o que vai acontecer a partir daí. Consegues imaginar que vai ser uma coisa um bocadinho estúpida.

Portanto, é um choque de realidades entre Curral de Moinas e a capital, é isso?
Pedro Alves (PA): É isso tudo. É um choque de realidades, estupidez à barda de dois gajos que pensam que sabem coisas sobre bancos, é contacto com uma vida fácil, tudo. E depois a mensagem no fim do filme, que também é importante, diz que o dinheiro não compra amizades. A amizade é das coisas mais transversais a toda a história.

Na sinopse também está subentendido que o Quim vai ser, de alguma forma, corrompido pelo  luxo e pelo dinheiro…
PA: Não vai ser de alguma forma, vai ser mesmo corrompido. Há coisas lá pelo meio que as pessoas vão ter de tentar perceber, porque fazem parte: uma pessoa quando fica rica de repente consegue fazer tudo.

JPR: O Quim não é propriamente aquele novo-rico que a malta conhece. É muito pior [risos]. Ele chega até a tirar um curso de piloto através da Internet. De maneiras que é uma história gira. De facto, o dinheiro corrompe. Mas, lá está, tem os amigos ali, prontos para não o deixarem cair, e a história é um bocado sobre isso também. Sobre a amizade, sobre aquilo que de verdade importa na vida. É uma mistura de estupidez tão grande que o pessoal não acredita.

PA: Acho que há cenas que o pessoal vai ter que ver três vezes para reparar e perceber os pormenores todos.

JPR: Sabes que no primeiro filme houve pessoal que foi ver três vezes porque houve piadas que não apanhou da primeira vez. Por isso é que continuamos no top 5 dos filmes mais vistos em Portugal [risos].

PA: E neste vai acontecer a mesma coisa. Tivemos que assumir várias vezes que nos rimos na cena porque não havia hipótese, de todas as maneiras possíveis e imagináveis, de a fazermos sem nos rirmos. É um filme completamente descomprometido, para o pessoal se divertir, é uma comédia de um universo que muita gente já conhece e quem ainda não conhece vai ficar a conhecer. Acho que o universo de “Curral de Moinas” já faz parte da cultura popular intelectual portuguesa.

O argumento é assinado pelo Henrique Dias e o Frederico Pombares. Participaram do processo de escrita, deram sugestões para a história?
PA: Damos enquanto estamos a rodar [risos].

JPR: “Curral de Moinas” surgiu de uma forma muito espontânea da nossa interação com o Henrique Dias. As personagens surgem em 2003 ou 2004 quando o conhecemos e começamos a fazer televisão com ele. Ele quis criar duas personagens que fossem dois moços que falassem assim [imita sotaque nortenho], que fossem de uma aldeia qualquer lá de cima do norte, de Trás-os-Montes. E dessa relação entre os três surgiu “Curral de Moinas”, juntou-se o Frederico Pombares imediatamente a seguir, e as coisas foram acontecendo. Quando começámos a fazer o “Telerural”, que foi também uma ideia dos quatro, que saiu assim de forma inusitada. Ninguém estava à espera e fomos criando e dando corpo àquelas personagens e púnhamos as nossas falas.

Com muito improviso também?
JPR: Muito improviso também. E fomos criando todo este universo.

PA: Empatia profissional. Acho que o Fred e o Henrique quando escrevem para nós já sabem para onde é que aquilo nos vai levar e a coisa já fica ali subentendida nos guiões. Depois, há ali a nossa dinâmica de há muitos anos e é assim que vai continuar: eles a escreverem, nós a fazer com que as coisas aconteçam. Faz parte do processo.

A ideia de fazer este filme já existia há bastante tempo? Ou a vontade de regressar a estas personagens surgiu recentemente?
JPR: Este filme foi pensado logo em 2015, 2016. Aliás, nós juntámo-nos logo os quatro para começarmos a pensar no filme. Em 2016 definiu-se a ideia, uma sinopse, só que entretanto, por coisas da vida, trabalho, uma pandemia que se meteu pelo meio…

PA: Aliás, nós íamos começar a filmar em abril de 2020. 

JPR: Mas o guião está a ser escrito desde 2017, para aí. 

PA: Ficou a marinar, foi-se acertando umas coisas, uns ajustes e tal, até que chegámos a esta versão.

Com a vossa experiência profissional, não só no geral mas também neste universo, sentem que é cada vez mais fácil e natural interpretarem o Quim Roscas e o Zeca Estacionâncio? Ou também existe algum desafio extra, por alguma razão?
JPR: Acho que estamos mais descontraídos e relaxados na interpretação… Somos mais estúpidos.

PA: Acho que até iria responder de uma maneira que poderia ser mal interpretada. É assim: hoje em dia, quando fazemos algo os dois, é sinónimo de diversão. E foi o que aconteceu neste filme. Enquanto as coisas forem assim, está-se bem. Ia dizer que isto para nós nem chega a ser trabalho. Cada vez achamos menos que isto é trabalho.

JPR: Desculpem a estupidez, mas habituem-se.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT