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Da Bahia para Hollywood: o percurso de Wagner Moura até ao Globo de Ouro

Aos 49 anos, fez história como o primeiro brasileiro a vencer o prémio para Melhor Ator, pelo desempenho em “O Agente Secreto”.

Aos 49 anos, Wagner Moura é um dos melhores atores da sua geração. Muitos portugueses só ficaram a conhecê-lo com o desempenho como capitão Roberto Nascimento, no filme “Tropa de Elite”, de José Padilha. A sua narração em off, especialmente o monólogo inicial, numa voz rouca, profunda e torturada, é uma das imagens de marca do filme, premiado com o Urso de Ouro, no Festival de Berlim, em 2008.

Contudo, inicialmente, Moura tinha um papel diferente no elenco da obra baseada no livro “Elite da Tropa”, de André Batista, Luiz Eduardo Soares e Rodrigo Pimentel. Na primeira versão do filme, fiel ao argumento, André Mathias (personagem de André Ramiro) era o protagonista e narrador. Porém, durante o processo de edição, concluíram que “a interpretação de Moura roubava todas as cenas”, por isso, alteraram a estrutura do filme para fazer do Capitão Nascimento o personagem principal. 

Durante a preparação para o papel, Moura perdeu 12 quilos e treinou com o verdadeiro Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), e esteve “sob tensão psicológica durante as filmagens” para que as suas reações fossem mais genuínas. 

Sempre à procura da autenticidade, o peso do ator voltou a flutuar quando ganhou 18 quilos para encarnar Pablo Escobar, em “Narcos”, da Netflix, e aprendeu a falar espanhol em quatro meses. O traficante valeu a Moura a primeira nomeação para um Globo de Ouro, como Melhor Ator de Série Dramática, em 2016, que foi vencido por Jon Hamm, pelo seu papel em “Mad Men”, na última temporada da série.

Agora, à segunda nomeação, fez história: Moura foi distinguido com o Globo de Ouro de Melhor Ator pelo desempenho em “O Agente Secreto”, filme de Kléber Filho, que foi também distinguido como Melhor Filme em Língua Não Inglesa. O brasileiro foi o primeiro homem a conquistar o prémio, após a vitória de Fernanda Torres, que levou a estatueta para casa na edição do ano passado, por “Ainda Estou Aqui”. 

 
 
 
 
 
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E, ao que parece, a antecessora funcionou mesmo como um “amuleto” para Moura e outros membros do elenco, que desfilaram pelo tapete vermelho exibindo uma imagem de “Santa Nanda da Sorte”, uma espécie de “santinha” com a reprodução da imagem da atriz com o Globo na mão. Durante a cerimónia, o ator contou com a companhia da mulher, Sandra Delgado, fotógrafa, realizadora de documentários e artista plástica, com quem casou em 2001. Os dois têm três filhos: Bem, de 18 anos; Salvador, de 15; e José, de 13.

Wagner Moura tem-se destacado por papéis fortes, muitas vezes figuras de autoridade, que vivem atormentadas, entre a necessidade de cumprir o seu dever e a moralidade, ou a falta dela, por trás de algumas ações que fazem parte do seu dever. 

A imagem de “Santa Nanda da Sorte”.

Natural de Salvador, na Bahia, Wagner Moura descobriu o teatro na adolescência, e integrou o grupo Pasmem no Colégio Mendel, em 1996. Nesta época, estabeleceu amizade com Vladimir Brichta e Lázaro Ramos (hoje atores conhecidos sobretudo pelas suas participações em novelas da Globo). Sem deixar a interpretação, seguiu para a  da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde estudou jornalismo na Faculdade de Comunicação (Facom). Moura descreveu os tempos que passou na Facom, em meados da década de 1990, e o ambiente que o rodeava como determinantes para a sua carreira no cinema.

A experiência universitária incluiu muitos momentos de “atividades extracurriculares” na Cantina de Vovô, espaço onde se reuniam os estudantes da Facom, nos quais o ator participava e onde dava nas vistas. Um desses momentos está documentado em vídeo e pode ser encontrado no YouTube, onde é possível ver o ator a cantar o êxito de Gloria Gaynor, “I will survive”.

Após concluído o curso ainda chegou a trabalhar como repórter e entrevistou figuras como a cantora Maria Bethânia, antes de se dedicar integralmente à carreira de ator. Começou no teatro com encenações experimentais em Salvador, e, mais tarde, em 2000, estreou-se no cinema com “Sabor da Paixão”, onde contracenou com Penélope Cruz, Murilo Benício e Lázaro Ramos, entre outros.

Com mais 40 filmes, várias séries icónicas, peças de teatro e curtas no currículo, Wagner Moura tem-se destacado pela versatilidade em dramas intensos, vilões carismáticos e papéis políticos. Além do sucesso da saga “Tropa de Elite”, — o segundo filme, em 2010, bateu recordes de bilheteira no Brasil, — em Hollywood participou em “Elysium” (2013, com Matt Damon), estreou-se como realizador em “Marighella” (2021) e deu voz à personagem Morte em “Gato de Botas 2” (2022), que lhe valeu uma nomeação nos Annie Awards (considerados os Óscares da Animação).

Já no thriller político “Civil War“ (2024), de Alex Garland, onde contracenou com Kirsten Dunst, teve oportunidade de reviver a sua formação, ao encarnar Joel, um jornalista da Reuters. Em “Dope Thief”, minissérie criada por Peter Craig, que estreou a 15 de março na Apple TV+, Moura regressa ao mundo da droga. O brasileiro encarna Manny Carvalho, um dos dois amigos e ladrões de droga, a par com Ray Driscoll, interpretado por Brian Tyree Henry.

Além dos seus papéis atrás das câmaras, Moura tem também uma produtora, a O2 Filmes, que está por trás de sucessos como “Cidade de Deus” (2003), de Fernando Meirelles e Kátia Lund. O filme fez história em 2004, com quatro nomeações (Melhor Realizador, Argumento Adaptado, Fotografia e Montagem), após ter sido relançado nos EUA, um ano depois da estreia no Brasil e da polémica por não ter sido indicado como candidato a Melhor Filme Internacional em 2003.

Agora, resta saber se a dupla vitória de “O Agente Secreto” nos Globos de Ouro terá repercussões nos nomeados aos Óscares, — que serão divulgados a 21 de janeiro, e entregues a 15 de março. A 7 de janeiro, a revista norte-americana “Variety”, especializada em cinema, previa que as duas nomeações do filme brasileiro se traduziriam em prémios nos Globos.

Contudo, a publicação removeu o nome de Wagner Moura da sua previsão mais recente para a categoria Melhor Ator nos Óscares, divulgada a 10 de janeiro, decisão influenciada pela ausência do nome do ator brasileiro na long list dos eventuais nomeados aos prémios britânicos BAFTA. Não obstante, vale a pena recordar, que “O Agente Secreto” conseguiu um resultado histórico em França, na última edição Festival de Cannes em maio de 2025, “O Agente Secreto” teve um resultado histórico, tendo conquistado duas Palmas de Ouro: Kleber Mendonça Filho venceu o prémio de Melhor Realizador, e Wagner Moura recebeu de Melhor Ator.

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