E se o seu primeiro trabalho de sempre fosse num mega blockbuster como “Star Wars: O Despertar da Força”, nomeado a cinco Óscares e com uma receita global superior a dois mil milhões de euros? Foi precisamente isso que aconteceu a Ricardo Alves, quando arrancou a carreira no cinema em 2013. Natural de Vila Nova de Gaia e atualmente com 31 anos, o português integrou o departamento de modelação em computação gráfica.
Entre as memórias mais marcantes está um episódio vivido durante a produção. “A Disney alugou o Science Museum, em Londres, e organizou uma celebração após a produção estar concluída. Quando me apercebi, estava a conversar e a divertir-me com o Harrison Ford, John Boyega e com o J.J Abrams”, recorda à NiT.
O percurso no cinema surgiu de forma inesperada. Depois de concluir o secundário, onde estudou Imagem Interativa no Instituto das Artes e da Imagem, candidatou-se a uma universidade no Reino Unido. Mudou-se para o país, mas rapidamente percebeu que o curso não correspondia às expectativas. “Decidi que isso não compensava e comecei à procura de emprego porque tinha contas para pagar, mas foi super complicado”, lembra.
Sem alternativas, começou a pintar nas ruas de Camden. As suas obras despertaram a atenção de várias pessoas, incluindo algumas empresas. Entre elas estava uma startup ligada à impressão 3D, ainda pouco comum na época. Foi contratado e por lá trabalhou durante seis meses, onde aprendeu técnicas e ferramentas que o ajudariam a dar o passo seguinte.
Em 2013, surgiu a oportunidade de entrar na Pinewood Studios, um dos maiores estúdios de filmagens do Reino Unido. Conseguiu o cargo e passou a trabalhar na captura digital de atores, criando modelos 3D utilizados em produções como “007” e “Star Wars”. Esses modelos eram depois enviados para estúdios como a Lucasfilm, que os integravam na fase de pós-produção.
“Estes modelos também conseguem ser animados e transformados de maneira a serem utilizados em pós-produção, para fazer uma cena que não desse para gravar no estúdio ou para substituir uma que tivesse ficado mal gravada”, explica. No início, o contacto com grandes figuras do cinema intimidava-o, mas depressa se adaptou.
Recorda, por exemplo, o momento em que Andy Serkis, intérprete de Snoke em “Os Últimos Jedi”, entrou discretamente na sala onde estava a trabalhar. “Quando dei por mim, ele estava atrás da minha cadeira a ver-me manipular as suas expressões faciais.”
Dois anos depois, passou para a área da pós-produção. O novo cargo trouxe-lhe uma vida mais estável, com base em Soho, e projetos relevantes. Trabalhou na Moving Picture Company durante dois anos e meio e colaborou no live-action de “O Rei Leão”, bem como em “Liga da Justiça” e “Submersos”. Especializou-se na criação de expressões faciais e conceptualização de personagens, função que mantém até hoje.
Fez ainda alguns trabalhos em publicidade e animação como freelancer. Foi nesse período que recebeu a proposta decisiva para integrar a WETA, estúdio fundado por Peter Jackson em 1993 para criar os efeitos de “O Senhor dos Anéis”. Em 2019, com contrato assinado, mudou-se para a Nova Zelândia.
A transição foi tranquila. “Foram super impecáveis e nunca tinha sido tratado com tanta atenção”, comenta. O entusiasmo era justificado: “Sou um grande fã do trabalho deles. Criaram o Gollum numa altura em que ninguém fazia isto. Foram pioneiros em personagens digitais como essa”.
Na WETA, colaborou com a equipa de James Cameron e com Joe Letteri, referência mundial na área dos efeitos visuais e vencedor de quatro Óscares. Durante quase dois anos, trabalhou na criação de personagens para “Avatar 2”, filme que venceria o Óscar de Melhores Efeitos Visuais. “Aprendi bastante com os meus colegas, mas depois começou a Covid e eu senti-me isolado e distante quando acabei o filme. Decidi que tinha de voltar para Portugal.”
De regresso a Lisboa, passou a trabalhar como freelancer, focado em curtas associadas a videojogos. Participou em projetos como “Battlefield” e “Far Cry 6”, lançados em 2021. “Estive uns quatro meses aqui, cinco meses ali. Foram projetos super engraçados”, descreve.
Mais tarde, com o fim das restrições no Reino Unido, voltou a Londres com o objetivo de colaborar com realizador Alberto Mielgo. Entrou em contacto direto ele e poucos meses depois, surgiu a oportunidade de integrar o episódio final da terceira temporada de “Love, Death & Robots”, da Netflix. Foi o responsável pela modelação das personagens do episódio que viria a ganhar um Emmy.
Viveu também uma experiência marcante no universo da música, com o regresso dos ABBA através do projeto “ABBA Voyage”, da Industrial Light and Magic, um estúdio da Disney. A produção envolveu a criação de hologramas digitais dos membros da banda, que voltaram a subir ao palco, rejuvenescidos.
Apesar de nunca ter conhecido os músicos pessoalmente, participou diretamente na recriação digital de Agnetha e Frida. “Recebi fotografias atuais delas e tive de lhes tirar uns anos, como se estivessem de volta aos anos 80. Foi difícil porque não tinha vídeos de qualidade para tentar criar uma boa versão.”
No final, valeu o esforço. Assistiu ao espetáculo em Londres várias vezes, acompanhado por amigos, familiares e pela namorada. “É um show de luzes incrível. Aquilo demorou três anos a ser feito”, sublinha.
Atualmente, vive em Lisboa, onde se fixou há cerca de dois anos. Continua a colaborar com estúdios internacionais, incluindo uma empresa de Los Angeles que desenvolve um novo espetáculo no estilo do “ABBA Voyage”. Este ano estreou-se também na Apple TV+ com “The Gorge” e trabalha ainda noutra série para a mesma plataforma, ainda sem título ou data de lançamento.
Ao rever o percurso, destaca o privilégio de ter trabalhado em projetos de grande escala. “Nunca senti muito a pressão de ter um prazo muito curto, porque trabalhei para produções com grandes orçamentos.” Entre os favoritos, destaca “Star Wars”, por ter sido o início de tudo, e “Avatar 2”, pela experiência de ver de perto o funcionamento da “mente brilhante” de James Cameron.

LET'S ROCK






