Cinema

De miúdo disléxico a príncipe de Inglaterra: Josh O’Connor é o ator do momento

Hesitou aceitar o papel em “The Crown”. Hoje tem no currículo dois dos melhores filmes do ano — e há mais a caminho.

Aos 30 anos, Josh O’Connor tinha no currículo uma série de entradas apresentáveis. Passara pelo elenco de “Doctor Who” e até feito uma breve aparição como personagem terciária em “Peaky Blinders”. Não era estranho ao talento, já que contracenou com Olivia Colman e outros nomes famosos em “Os Miseráveis”. Ainda assim, o seu nome não fazia parte da lista de qualquer diretor de casting.

Em 2018, o telefone tocou. Do outro lado surgia um convite tentador e um papel inolvidável: queriam que prestasse provas para a terceira temporada de “The Crown”, já então um enorme êxito na Netflix. Precisavam de dar mais um salto temporal e apresentar um príncipe Carlos já crescido. O’Connor hesitou.

“Pensei que não havia nada que pudesse acrescentar”, recordou ao “The New York Times”. Em cima da mesa estava, desde logo, a sua identidade política. “Sou um republicano, não tenho qualquer interesse na família real”, apontou o ator de 34 anos, que se identifica como um “liberal de esquerda”. Chegou inclusivamente a fazer campanha por Jeremy Corbyn, antigo líder do Partido Trabalhista.

“Devo notar que não sou um fanático, mas nunca tive interesse [na família real]. Eles existiam, estavam ali, mas nunca me preocupei muito”, contou mais tarde ao “The Guardian”. “De certa forma respeito-os pela forma como equilibram as coisas. Tendemos a esquecer-nos deles e talvez isso seja uma tática. Talvez a rainha saiba que se fizer muito barulho, ficamos todos conscientes de que existem e talvez queiramos abolir a coisa.”

A proposta era, ainda assim, altamente tentadora. Que ator desdenharia um papel principal numa das mais quentes e faladas séries do ano? “Sentia que, além do príncipe Carlos ser muito rico e muito chique, qual é que era o ângulo? Onde é que está o sumo?”, questionou. “Não queria fazer a audição, não me excitava, mas acabaram por me dar uma cena para ler.”

Nessa mesma cena, encontrou a fala que o convenceu. “E o Charles diz: ‘Estou basicamente à espera que a minha mãe morra para encontrar um significado.’ Li aquela linha e percebi que era algo que tinha que agarrar.” Aceitou. Não só aceitou, como brilhou e acabou por ser escolhido para marcar presença em 13 episódios.

O papel em “The Crown” foi a rampa de lançamento para o ator que encontrou em 2024 o seu ano de afirmação total graças a três projetos. O primeiro, “A Quimera”, é talvez o de menor perfil, embora tenha conquistado os críticos, que insistem em incluir a obra nas listas dos melhores do ano até ao momento. O filme chega esta quinta-feira, 6 de junho, aos cinemas nacionais.

O trabalho de Alice Rohrwacher é uma aventura de fantasia que acompanha Arthur (O’Connor), um arqueólogo britânico que regressa a Itália dos anos 80, após ter sido preso e cumprido pena por roubar artefactos arqueológicos. Com o seu grupo de ladrões de sepulturas, embarca num périplo pelo território e pelo seu passado.

Para trás fica aquele que é talvez o seu papel de maior relevo, ao lado do cineasta italiano Luca Guadagnino. “Challengers” mergulha num triângulo problemático entre três tenistas. Patrick Zweig (O’Connor) e Art Donaldson (Mike Faist) são amigos de infância e promissores tenistas que se cruzam com Tashi Duncan (Zendaya), também tenista. A história percorre duas décadas de relações complicadas, num exercício de estilo cinematográfico do realizador italiano. É também um dos filmes do ano e o grande showcase do britânico como ator.

Segue-se mais um papel de fundo, no elenco do terceiro filme da saga Knives Out, “Wake Up Dead Man”, com estreia programada para algures em 2025.

Um disléxico no teatro

O’Connor trabalhou com alguns dos melhores atores e atrizes do mundo, que lhe reconhecem o talento. “É um dos melhores atores com quem podes contracenar”, notou Olivia Colman, vencedora de um Óscar para Melhor Atriz. “A meu ver, é um dos grandes.”

Precisou apenas de uma visita ao palco dos Emmys para vencer uma estatueta, ainda em 2021, para Melhor Ator Principal em Série Dramática. “Foram dois dos anos mais compensadores da minha vida, estes que passei a fazer ‘The Crown’”, confessaria mais tarde, apesar de toda a hesitação.

Filho de um professor e de uma parteira, tem na família a sua dose saudável de artistas. O avô era escultor. A avó ceramista. Interessou-se vagamente pelo rugby — e não pelo ténis —, mas sempre batalhou contra si próprio e a dislexia que tornava o ato de ler num tormento. Na escola de Cheltenham, onde cresceu, acabou por ter aulas de teatro. Não foi um amor repentino.

“Era o tipo de disciplina que escolhias para não teres demasiadas coisas complicadas para estudar”, recordou ao “The Independent”. Depois, aconteceu o que acontece tantas vezes: alguém surge na nossa vida que muda o destino e a forma de encararmos a realidade.

O professor era “um tipo incrivelmente conhecedor” da área. “De repente estávamos a fazer viagens de estudo para vermos peças de autores como Samuel Beckett. Deixou de ser apenas algo a que eu achava graça para ficar totalmente fascinado.”

“Antigamente, ia a uma aula de inglês ter que ler Shakespeare e ficava furioso. Mas de repente, este rapaz disléxico era capaz de ler ‘Romeu e Julieta’ e embora sem perceber algumas palavras, era capaz de visualizar toda a magia teatral. Fiquei obcecado.”

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