A cena é icónica: envolve uma raquete de ping pong e as nádegas nuas do protagonista, que recusou duplo e exigiu o uso de um modelo verdadeiro quando o adereço se partiu logo à primeira “palmada“. Cerca de 40 takes depois, as marcas deixadas no corpo de Timmothé Chalamet por Kevin O’Leary eram bem visíveis. A performance impressionou o investidor, um novato na representação, que a considera digna do Óscar de Melhor Ator.
O canadiano, cujo nome de batismo é Terrence Thomas Kevin O’Leary, sempre cultivou a imagem de “Mr. Wonderful” (em português, Sr. Maravilha): duro, vaidoso e implacável, nos negócios e na televisão. Com um apurado sentido de marketing, O’Leary abraçou a alcunha, que nasceu de uma alfinetada sarcástica de Barbara Corcoran, na primeira temporada do reality show “Shark Tank”, e desenvolveu uma persona televisiva que fez dele um dos rostos mais conhecidos do programa.
Em “Marty Supreme”, — que estreou nas salas nacionais esta quinta-feira, 22 de janeiro —, a primeira longa-metragem em que participa, esse perfil agressivo e ganancioso é levado ao extremo e transformado em personagem de cinema.
O’Leary encarna Milton Rockwell, magnata dos anos 1950 que domina as finanças do protagonista, Marty Mauser, o irreverente campeão de ténis de mesa vivido por Timothée Chalamet. Embora tenha um passado ligado ao audiovisual, — começou a carreira como produtor e editor de vídeo em programas televisivos sobre desporto, — o canadiano nunca teve uma única aula de representação.
Durante a promoção do filme (que estreou nos EUA no dia de Natal), revelou que foi convidado a integrar o elenco da mesma forma como havia sido desafiado, há mais de 15 anos, para participar em “Shark Tank“: o realizador Josh Safdie ligou-lhe a dizer que estava à procura de “um verdadeiro cretino” para interpretar Rockwell, e achava que ele era a pessoa certa.
A excessiva frontalidade, os insultos levemente humorísticos aos aspirantes a empreendedores e os bordões cruéis (como “para mim, estás morto”, “és um Zé Ninguém”, “porco ganancioso” ou “barata vampira”) ajudaram-no a cimentar uma imagem televisiva de “fucking asshole“ (qualquer coisa como “filho da puta“, em português).
Porém, o milionário insiste que não se trata de uma persona desagradável que criou para dar mais cor ao reality show, mas “a sua verdadeira forma de estar“. Seja como for, 17 temporadas, cinco Emmys e dezenas de versões internacionais depois, “Shark Tank” trouxe fama mundial a O’Leary, que já foi descrito pela imprensa norte-americana como o “Simon Cowell do capitalismo”.
Apesar de ter sido convidado para “Marty Supreme”, o investidor teve de ler umas cenas para o papel (afinal, não tinha experiência) e o seu agente duvidou de que conseguisse encarnar um vilão. Ainda assim, O’Leary decidiu “sair da sua zona de conforto”, e aceitou. Ao descrever a experiência, afirmou que “não sentia que estivesse a representar“: assim que colocava a peruca, e “respirava o ar de 1952 que emanava do cenário” tornava-se imediatamente em Milton Rockwell, o empresário que manipula a carreira de Marty.
No entanto, nem tudo foi assim tão fácil como agora descreve. Acostumado a mandar, O’Leary “levou um banho de realidade” quando percebeu que, no set, a autoridade pertence ao realizador. Exigente, Josh Safdie obrigava o elenco “a repetir cenas dezenas de vezes”. Quando O’Leary considerava que algo “já estava bom“, e sugeria passar à cena seguinte, era “relembrado” que a palavra final não era dele, mas do cineasta.
Em alguns dias, as filmagens prolongaram-se “até às quatro da manhã”, noitadas que tornavam o milionário impaciente. O diretor de fotografia chegava mesmo a deixá-lo “em desespero total“. A obsessão com a luz e com o enquadramento de Darius Khondji implicava inúmeras e demoradas mudanças de posição da única câmara Aeroflex, com lentes Panavision, utilizada para rodar o filme em 35mm. Contudo, quando viu o resultado final, “com cada plano meticulosamente composto e iluminação impecável”, O’Leary deu a mão à palmatória e reconheceu o mérito da equipa. “A genialidade destes tipos é absurda”, confessou.
Embora se tenha habituado “a seguir indicações”; o empresário também tentou deixar a sua marca no argumento. A fala em que Milton se apresenta como “vampiro” e diz “ter nascido em 1601 e conhecido muitos Marty Mauser ao longo dos séculos”, nasceu do improviso de O’Leary. O realizador e o argumentista gostaram tanto dela que acabaram por colocá-la no filme.
Ainda assim, nem todas as suas sugestões foram bem recebidas. A sua proposta de final, por exemplo, foi recusada. O investidor defendia que Rachel, mulher do protagonista, devia morrer no parto. O egoísta Marty, “que deu cabo da vida a toda gente”, devia, na sua opinião, ser punido “por todo o mal que provocara aos outros”. Josh Safdie, porém, considerou este desfecho “demasiado mórbido”.
O epílogo escolhido é bem diferente: depois de trair o seu mentor no Japão, Marty surge com o filho recém‑nascido ao colo, visivelmente emocionado, deixando no ar a possibilidade de redenção. Sem papas na língua, e com a frontalidade que lhe é conhecida, O’Leary não esconde o seu desagrado com este “final feliz”.
“Aquele kumbaya da última cena é simplesmente absurdo”, tem repetido o investidor em inúmeras entrevistas. E as suas críticas ao filme vão além das divergências artísticas; O’Leary descreveu-o como “extremamente ineficiente” no que aos custos diz respeito.
A produção, afirmou, “gastou milhões em figurantes humanos quando muitos desses rostos de fundo podiam ter sido substituídos por Inteligência Artificial (IA)”. No entanto, o milionário, fervoroso adepto da IA (e investidor de capital de risco em várias empresas que estão a desenvolver novos modelos), defende que é “apenas uma ferramenta útil para cenários e multidões”.
Para O’Leary, a IA não tem — e nunca terá, — “capacidade de substituir o carisma singular de um ator”. Alguns críticos sublinham que esta nuance na apreciação da utilidade futura da IA no cinema ”não é propriamente imparcial”. É uma tentativa do multimilionário conciliar o seu interesse em lucrar com o desenvolvimento da ferramenta, continuando a investir na sua carreira em Hollywood.
E, ao que parece, a estreia ao lado de nomes como Timothée Chalamet e Gwyneth Paltrow (que faz de sua mulher em “Marty Supreme”) foi auspiciosa. O sucesso do filme nas bilheteiras e os comentários elogiosos à sua interpretação, resultaram em convites de outros realizadores.
O “cretino profissional” como se descreve, é afinal, “levado a sério como ator”. Sem entrar em pormenores sobre as tais propostas, O’Leary confessa ter sido “mordido pelo vírus da representação” e quer experimentar outros papéis.
Questionado pela “Variety” sobre qual seria o seu papel de sonho, não hesita na resposta: desde a adolescência que sonha tornar-se “um daqueles vilões magnéticos de James Bond, que fazem explodir tudo”. De preferência, “um personagem que se confunda perigosamente com a sua personalidade”.
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