Cinema

O português que ajudou a fazer êxitos como “Vingadores” e “House of the Dragon”

Pedro Andrade era engenheiro. Mudou de vida e acabou a criar os efeitos especiais que vemos nos ecrãs dos blockbusters.
Participou em dezenas de produções.

A vida de Pedro Andrade sempre ficou marcada pelos acasos. Quando acabou o curso de Ciências e Tecnologias no secundário, tirou uma licenciatura em Engenharia Mecânica no ISEL, em Lisboa. Nunca diria que, ao fim de dez anos, teria no currículo passagens por enormes produções de Hollywood como “Vingadores: Endgame”, que arrecadou 2,64 mil milhões de euros, ou mesmo o spin-off de “A Guerra dos Tronos”, “House of the Dragon”.

Hoje, aos 40 anos, e ao fim de 13 a viver em Londres, o lisboeta trabalha como especialista em efeitos visuais.”A minha carreira é fruto do acaso e de estar exposto a diferentes realidades. Isso é algo que as pessoas hoje em dia evitam fazer. Não gostam de se pôr em situações de risco, mas, ao mesmo tempo, é isso que faz com que a nossa vida tome uma trajetória diferente”, conta à NiT.

Essa não era a filosofia pela qual se regia, pelo menos nos primeiros anos. Quando acabou o secundário, acabou por optar por uma licenciatura mais tradicional, embora não fosse esse o seu desejo. Sonhava trabalhar como produtor musical. “Foi esta ambição que me levou a sair de Portugal”, confessa.

Mesmo assim, trabalhou durante vários anos na área de Engenharia Mecânica. Em 2009 decidiu pôr um ponto final na carreira. Com 26 anos e uma vida pela frente, refez todos os planos. Tinha alguns contactos profissionais e familiares que permitiram que fosse trabalhar para Angola como diretor de obra. Durante cerca de um ano, arrecadou os fundos necessários para partir para a próxima etapa da sua vida: para trás ficava a Margem Sul, numa viagem que tinha como destino o Reino Unido.

Pedro e Mónica estavam mais virados em ir para os Estados Unidos, mas as burocracias desmotivaram-nos. Em 2011, partiram definitivamente Londres e, assim que chegaram, a namorada (agora mulher) inscreveu-se numa escola de efeitos visuais. Ele, por sua vez, inscreveu-se numa escola de produção musical. 

“Ela começou por arranjar trabalho na área, mas percebeu que não era exatamente o que queria. Às vezes, quando estava a trabalhar, ia pedindo a minha opinião com os projetos.” Foi assim que começou a perceber que podia ter olho para a coisa. “Havia uma certa ligação com engenharia e com o mixing de música, que era o que eu queria fazer.” Deu, mais uma vez, uma volta de 180 graus à sua vida. Começou a estudar arduamente durante cerca de 15 horas por dia, ao longo de três meses, “sem grandes pausas ou fins de semana.”

A primeira grande oportunidade surgiu numa festa com alguns amigos da esposa, que já trabalhavam no meio. Numa das noitadas acabou por conhecer uma produtora que estava a contratar. Ao fim de dois dias, tornava-se no novo estagiário da Jellyfish Pictures, prestigiada empresa de animação. 

O primeiro projeto em que participou foi “Jonah”, uma curta que em 2013 fez parte da seleção oficial do festival de cinema Sundance. O seu trabalho passa por combinar os elementos de efeitos especiais e combiná-los com o que é real. “O que sai deste departamento é muito próximo da imagem final que vemos nos cinemas”, explica. A primeira grande produção da sua carreira surgiu cerca de quatro meses depois, ainda em 2013. Naquele ano teve a oportunidade de trabalhar em “Star Trek: Into The Darkness”.

Desde então, os projetos entusiasmantes acumularam-se. “O primeiro dos maiores” foi mesmo “Guardiões da Galáxia”, da Marvel. “Foi muito puxado porque estávamos durante meses a trabalhar num shot que no filme tem só um segundo ou até apenas meio segundo, mas o nosso trabalho é assim.” 

Pedro tem 40 anos.

Depois deste fenómeno protagonizado por Chris Pratt e que arrecadou 725 milhões de euros, mudou-se para a Milk, um passo importante no seu percurso profissional onde trabalhou em produções como “Drácula: A História Desconhecida” e “Doctor Who”. Acabaria por ser promovida supervisor em 2014, com apenas três anos de experiência. “Eu evitava dizer isto porque não queria a atenção. Normalmente só conseguimos alcançar estes cargos após 10 ou 15 anos de experiência”, revela.

Apesar de ter sido fulcral no desenrolar da sua carreira, Pedro admite que não é fã da série. “É um grande fenómeno aqui no Reino Unido, mas não é a minha cena de todo”, brinca. “Mas deu-me algo muito importante, que foi desenvolver a minha parte técnica porque os recursos eram poucos.”

Um dos trabalhos mais recentes foi “House of the Dragon”, que marcou também o seu regresso à MPC, onde assumiu o papel de chefe de departamento. “Tinha muita responsabilidade e nessa altura tinha 18 projetos a nível mundial ao mesmo tempo”, revela.

O trabalho acontece quase sempre em frente ao computador, na fase de pós-produção, o que faz com que as oportunidades para estar entre os atores seja rara. Houve, contudo, uma exceção: os BAFTA de 2016. “Havia lá muita gente famosa, mas eu não conhecia ninguém. Não tinha essa noção. Provavelmente estive com alguém famoso e nem me apercebi”, brinca.

Desde 2023 que está longe da indústria e agora foca-se num trabalho mais pessoal com a ajuda de Mónica: a Comp Lair. Criado durante a pandemia, em 2020, é um programa que pretende ajudar membros do departamento de compositing a alcançarem posições de liderança. “Funciona numa lógica de modelo híbrido entre conteúdo pré-gravado e apoio em direto. Os profissionais são expostos a uma jornada em que passam por quatro pilares do conhecimento para que consigam fazer um melhoramento de forma holística: técnica, scripting [ou programação], management e soft skills e strategy”, explica. “Damos-lhes insights úteis que podem pôr em ação tendo em conta onde estão e onde querem chegar nos seus percursos profissionais.”

Pedro não põe de parte voltar aos filmes e séries, mas esse não é o foco atual. A indústria tem “muitos problemas que muitas vezes são autoinfligidos por causa da falta de organização que existe em geral na produção”, nota. 

“Esta não é uma vida fácil”, diz sobre a profissão, bastante dada “às depressões e burnouts”. “Quem está de fora pensa que é muito glamoroso porque estamos a falar de Hollywood. Não é necessariamente mentira, mas também não é exatamente verdade.”

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