Cinema

“Dekalog”: a série mais elogiada de sempre — e que você nunca viu

Trinta anos, a produção polaca continua a ser uma obra de culto e de veneração entre os principais críticos.

“Fico sempre relutante no momento de distinguir uma obra particular de um cineasta, porque tende a simplificar e reduzir o seu trabalho. Mas Kieslowski e Piesiewicz têm uma habilidade rara de dramatizar as suas ideias, ao invés de apenas falarem sobre elas. E fazem-no com uma destreza tão brilhante que nunca somos capazes de as ver a chegar. Só mais tarde percebemos a forma profunda através da qual chegam ao nosso coração.” O enorme elogio chega de um dos nomes incontornáveis do cinema, Stanley Kubrick. Mas que obra é que colocaria quase de joelhos uma lenda?

O louvor é dirigido à produção que ainda hoje apaixona cineastas e críticos — e que provavelmente nunca viu. “Dekalog” não é só uma obra-prima, assim qualificada pelos especialistas, mas algo que transcende rótulos. É uma série? Ou é um filme? A discussão continua.

A verdade é que a produção polaca dos anos 80 foi feita em formato de filme, com a duração total de quase dez horas, divididas em dez partes, cada uma com o seu tema. “Dekalog” apoia-se no Decálogo, isto é, os dez mandamento bíblicos.

Trinta anos depois da chegada aos cinemas, continua mais atual do que nunca. Na era da Internet, o medidor dos agregadores parece ser unânime: 97 por cento no Rotten Tomatoes; 8.9 no IMDb; e um redondo 100 no Metacritic. Num mundo onde é raro existir unanimidade, “Dekalog” parece ser um dos poucos que se aproxima dessa meta quase irreal.

Se é um um filme em dez partes ou uma série, isso pouco importa. Na mente do realizador Krzysztof Kieslowski, provavelmente tratar-se-ia apenas de um filme com muito para contar. De tal forma que dois dos seus capítulos foram transformados em longas metragens — uma forma de as transportar mais facilmente para os cinemas internacionais.

Em 2016, “Dekalog” regressou às estantes: a Criterion restaurou os dez capítulos e elevou-os à qualidade de 4K, para lançar uma versão Blu-Ray e tornar acessível às novas gerações a maior obra do mestre do cinema polaco. Mas antes de se sentar no sofá para devorar os episódios, há algumas coisas que tem mesmo que saber.

Quem era Krzysztof Kieslowski?

Nascido na Polónia sob domínio alemão, em plena Segunda Guerra mundial, teve, como muitos polacos, uma educação cristã. Estabeleceu-se em Varsóvia e lançou a carreira na Escola de Cinema de Lodz. Curiosamente, o mesmo local onde se formaram dois grandes nomes do cinema polaco e mundial: Andrzej Wajda e Roman Polanski.

Para continuar a fazer o que mais gostava, aventurou-se numa dieta rigorosa com o objetivo de ficar tão frágil que seria prontamente recusado pelo exército chegada a altura de cumprir o serviço militar. A estratégia arriscada funcionou.

Começou por gravar documentários sobre o dia a dia do país, da cidade e do povo. A ficção chegou apenas em 1975 com “Personnel”, mas sempre com o estilo muito próprio ganho nos anos em que se dedicou ao documentarismo.

Kieslowski morreu em 1996. Tinha 54 anos

Entre as obras mais conhecidas — “Camera Buff” (1979), “The Double Life of Veronique” (1991) e “Three Colors” (1993), curiosamente dividido em três longos capítulos — destaca-se claramente “Dekalog”. Foi nele que usou toda a experiência anterior, a retratar as vidas reais dos polacos.

Acabaria por morrer sem assistir à ascensão de “Dekalog” a obra de culto. Em 1996, sofreu um ataque cardíaco e morreu na mesa de operações. Pelo caminho deixou um trabalho inacabado com o homem que o acompanhou em “Dekalog”, Krzysztof Piesiewicz. A trilogia “Céu, Inferno e Purgatório” foi adaptada e concluída após a sua morte, pela mão de três realizadores.

Hoje, a sua obra premiada é estudada nas melhores escolas de cinema. Algo em que Kieslowski talvez tivesse dificuldade em acreditar, ele que se assumia como homem de pouca esperança. “Tenho uma boa característica: sou um pessimista. Imagino sempre o pior. Para mim, o futuro é um buraco negro”, confessou um ano antes da morte.

Qual é a história?

Naturalmente, a inspiração nos 10 Mandamentos levou Kieslowski a fazer a divisão óbvia: um por cada episódio, embora esse conceito se perca à medida que ela avança. Se nuns a escolha é óbvia, noutros ela é quase imperceptível.

Toda a ação acontece no mesmo complexo de apartamentos, numa Varsóvia destruída que é um retrato fiel do país na era soviética e mergulhado numa crise económica. Triste, sombrio, pesado e sujo.

Até os atores vão cruzando as histórias, com aparições fugazes em diversos dos episódios. É o caso de Artur Barcis, cuja personagem surge em oito dos capítulos.

O cenário é uma Polónia em ruínas, durante a era soviética

Num elenco com centenas de nomes, muitos não eram sequer atores profissionais. Uma escolha deliberada para reforçar o realismo, sempre uma prioridade para o realizador polaco.

Apesar da divisão em mandamentos, alguns são mais diretos do que outros. É o caso do quinto episódio, “Não Matarás”, que aborda a história assente na eterna ética questão da pena de morte.

Ao longo de mais de 500 minutos de histórias recheadas de sexo, morte, amor, ódio e arrependimento, o objetivo de Kieslowski mantém-se quase sempre o mesmo: colocar o espetador a ponderar sobre as questões que os protagonistas enfrentam, sem fazer juízos de valor.

No primeiro episódio, “Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas”, é revelada a relação entre um pai ateu e um filho com problemas existenciais, com este último a ponderar as maravilhas das novas tecnologias e os dilemas religiosos.

Visualmente, “Dekalog” segue o mesmo tom, o favorito de Kieslowski: cenários sombrios, acinzentados, depressivos. À imagem de um país à beira do colapso.

Criada para ser desenvolvida por dez realizadores, Kieslowski decidiu à última hora ser ele próprio a comandar toda a produção. Para evitar a monotonia, escolheu dez diretores de fotografia distintos para colaborarem em cada capítulo.

Porque é que nunca ouvi falar disto?

Lançado dez anos antes do início da nova era dourada da televisão, a forma híbrida de “Dekalog” não foi amiga da popularidade. Demasiado longo para passar nos cinemas, pouco apelativo para a transmissão televisiva, a obra fortaleceu-se nos circuitos profissionais.

Kieslowski chegou mesmo a voltar à sala de edição para criar versões mais longas de dois dos capítulos. O quinto episódio alongou-se até aos 85 minutos e ganhou o título de “A Short Film About Killing”. O seguinte também foi alargado e intitulado “A Short Film About Love”.

O primeiro beneficiou deste novo formato e chegou mesmo a conquistar o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes em 1988 — isto dois anos antes de “Dekalog” estrear oficialmente.

Era demasiado longo para ser mostrado nos cinemas

A versão tradicional nunca chegou aos cinemas norte-americanos, até porque seria difícil pedir aos espectadores que aguentassem perto de dez horas sentados numa cadeira.

Durante mais de duas décadas, continuou a passar nos circuitos mais restritos, até ganhar fôlego com o surgimento da Internet e dos filmes e séries pirateadas. Em 2016, teve finalmente direito a uma versão restaurada em alta-definição. Mas fora as caixas especiais de DVD, ainda falta um longo caminho para que possa chegar a todos.

Porque é que os críticos e cineastas são absolutamente loucos por “Dekalog”?

Não são apenas as críticas de centenas de apaixonados pela obra de Kieslowski que colocam “Dekalog” no topo dos rankings de quase todos os agregadores de críticas e sites de cinema e televisão. Durante anos, críticos e cineastas derreteram-se perante o trabalho do polaco.

“Os prazeres profundos que [Kieslowski e Piesiewicz] nos oferecem têm origem no hábil humor metafísico mas também no seu génio para a narrativa”, nota Stephen Holden, crítico do “The New York Times”.

“Ao longo da história do cinema, foi surgindo um grupo de filmes que se destacaram — filmes que, por razões técnicas ou artísticas, deixaram uma indelével marca nos espectadores. [“Dekalog”], como uma exploração de dez horas sobre a experiência humana, merece um lugar nesse grupo de filmes únicos”, diz o crítico James Berardinelli.

“Dekalog” não venceu só em Cannes. Conquistou prémios nos festivais de Veneza, São Paulo e San Sebastián, bem como distinções atribuídas pelos pares de Kieslowski, como o Sindicato Nacional Italiano de Jornalistas de Cultura, o Sindicato Francês de Críticos de Cinema ou a Associação de Críticos de Chicago.

Estudiosa do trabalho de Kieslowski, Annette Insdorf do “The New York Times” é quem resume melhor a obra-prima do cineasta polaco: “O fresco ambicioso do Sr. Kieslowski oferece uma visão profunda da falibilidade humana”

Onde posso ver?

É complicado. Apesar da fama, “Dekalog” ainda não conquistou um lugar nas diversas plataformas de streaming.

A única forma (legal) de ver a obra será através de Blu-Ray ou DVD, sendo que as mais acessíveis têm apenas legendas em inglês. Se conseguir, pode tentar encomendar a versão DVD brasileira, que terá pelo menos legendas em português.

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