Cinema

Depois de chorarmos com “O Pai” de Anthony Hopkins, vem aí a emotiva sequela, “O Filho”

A trilogia do autor francês Florian Zeller vai ter direito ao segundo capítulo que promete deixar-nos em lágrimas.
Hugh Jackman e Laura Dern são os protagonistas

A peça estreou em setembro de 2012 no teatro Hébertot, em Paris. Precisaria de dois longos anos para chegar ter direito a uma tradução inglesa e chegar aos palcos dos teatros britânicos. Em 2014, a peça assinada pelo francês Florian Zeller explodia e era elogiada pela maioria dos críticos como “a peça do ano”.

Do West End londrino até Nova Iorque, foi um pequeno passo, intercalado com uma adaptação televisiva e depois uma produção cinematográfica francesa. Fora do circuito, poucos reconheciam o nome de Zeller ou até o da peça, “Le Père”, “O Pai”.

Em 2020, Hollywood fez aquilo que sempre faz: agarrou no poderoso drama familiar e deu-lhe o seu twist. Zeller não foi esquecido e teve direito a fazer a sua estreia como realizador. A seu cargo ficou um elenco de luxo com Anthony Hopkins e Olivia Colman. O resto desta história conta-se numa só frase: um tremendo sucesso de bilheteira, de crítica e dois Óscares no bolso, um para Melhor Ator Principal e outro para Melhor Argumento Adaptado.

Zeller, um prolífico autor e, pelos vistos, realizador, não se ficaria por aí. No bolso tinha “The Son”, “O Filho”, a peça que estreou em França dois anos antes da chegada ao cinema de “O Pai” — e que é a peça final de uma trilogia que fica assim completa com “A Mãe”, lançada em 2010 e que permanece, até hoje, a única que não teve direito a adaptação.

Se para o seu primeiro filme, o francês conseguiu concretizar o sonho de contratar aquele que é, para si, “o melhor ator vivo”, o novo elenco não desiludiu. A nova produção, que deverá chegar aos cinemas algures em novembro, conta com Hugh Jackman e Laura Dern nos papéis principais, com o papel do filho entregue ao jovem ator Zen McGrath, o australiano de 20 anos que tem encantado a crítica — e que Zeller só conheceu pessoalmente três dias antes do arranque das filmagens.

McGrath é Nicholas, um jovem de 17 anos cuja saúde mental se deteriora lentamente, à medida que a doença impacta também a família. O divórcio dos pais (Dern e Jackman) e a nova relação deste último com uma nova mulher (Vanessa Kirby) servem de argumentos ao jovem, que os exibe como causas para os seus problemas.

O drama, à imagem do que acontece em “O Pai”, aborda temas como o trauma e a doença mental. Não hesita em tocar nas feridas e em exibir representações de um dia a dia traumático para todos os envolvidos, com o toque habitual de Zeller. “O Filho” está desde já nomeado para o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza, que decorre até 10 de setembro.

Curiosamente, ou talvez não, quem está de regresso é Anthony Hopkins, que tem direito a um pequeno papel no novo filme de Zeller. “Ele até foi a primeira pessoa a ler o argumento. Assim que o terminámos, enviei-lho, porque respeito a sua sensibilidade. Claro que ele reparou que o nome da sua personagem era Anthony. É giro porque é o completo oposto do papel que ele faz em ‘O Pai’”, conta o autor e realizador francês em entrevista à “The Hollywood Reporter”.

Se “O Pai” teve origem na sua experiência pessoal com a demência do avô, Zeller confessa que também em “O Filho”, as emoções pessoais estão muito presentes, embora não contenha quaisquer traços autobiográficos. “Não é a minha história em termos de personagens ou de situações, mas tem mais a ver com as minhas emoções. Não é porque queira contar a minha história, mas mais porque senti que há muita gente ligada a este tipo de problemas e julguei que seria importante partilhar estas emoções.”

“É sobre o que significa ser um pai, uma mãe. Aceitar que, por vezes, somos impotentes. Isso faz parte da experiência de ser pai. Por vezes, o amor não é suficiente e isso é algo realmente complicado de aceitar”, nota. “Não poderia fazer outro filme senão este.”

O tema central é, também, a depressão que afeta a personagem principal. Zeller toma outra abordagem e procura não focar-se nas causas, mas naquilo que ela representa. “Acho que o problema da saúde mental é esse. É um mistério. Não se consegue saber exatamente porque é que acontece. Pode parecer uma injustiça, mas por vezes não há explicações e não é realmente culpa de ninguém.”

Se “O Pai” usou a demência como engenho para nos transportar para o filme e a sua história dramática, “O Filho” aposta mais na “linearidade” da sua história. “A maioria das minhas peças são construídas como se fossem um labirinto, mas a única que não o é, é precisamente esta. É uma peça muito direta, muito linear.”

Ainda sem data de estreia nos cinemas, o filme terá, por estes dias, a primeira exibição em Veneza. E enquanto os críticos preparam o bloco de notas, seria de esperar que Zeller estivesse já também ele a preparar o último capítulo da trilogia. “Não, ainda não estou. Ainda estou no capítulo do filho, para ser honesto”, confessa, antes de deixar a derradeira pista. “Já me passou pela cabeça.”

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT