Cinema

Embaixada dos Açores: o realizador açoriano que com 12 anos já fazia filmes em casa

O cineasta é o primeiro entrevistado de Luís Filipe Borges na rubrica Embaixada dos Açores.
É um dos maiores cineastas dos Açores.

Se ainda não conhecem Francisco Lacerda tenham calma. A vida é curta, mas o leitor ainda tem batimento cardíaco, portanto vai sempre a tempo. Lacerda é um jovem realizador açoriano que se destacou através das suas curtas-metragens, incluindo “Dentes e Garras!” (2014), “Freelancer” (2017), “Karaoke Night” (2019) e “Cemitério Vermelho” (2022), com trabalho exibido em festivais de renome, como o Slamdance Film Festival, IndieLisboa, Fantasia International Film Festival, Beyond Fest, MOTELX, entre outros.

É pioneiro de um subgénero único conhecido como “Azoresploitation” — movimento de cinema fantástico com foco na exploração da cultura e particularidades açorianas de uma forma que quebra ou desafia as convenções do cinema português. Tem sido explorado por outros cineastas açorianos como Diogo Lima em “Os Últimos Dias de Emanuel Raposo”, ou em “O Cordeiro de Deus”, de David Pinheiro Vicente.

Francisco Lacerda prepara três projetos diferentes dentro da área do cinema, um deles para ser rodado nos Açores: uma sequela/spin-off da curta “Dentes e Garras!”. Podem adquirir a sua última e afamada curta “Cemitério Vermelho” em Blu-ray através da Arrow Video, a qual incluiu o filme como um bónus no boxset “Savage Guns: 4 Classic Spaghetti Westerns”.

Lacerda também é um indivíduo do mais catita, capaz de oferecer à Embaixada dos Açores e a todos os navegantes do universo NiT a oportunidade de assistirem a “Cemitério Vermelho” gratuitamente (e durante 48 horas). Ficará disponível online da meia-noite de 10 de Junho até à meia-noite do dia 12.

Leia agora a entrevista de Luís Filipe Borges a Francisco Lacerda.

Um produtor de Hollywood está louco para fazer um filme sobre a tua vida, mas falta convencer o estúdio que só avança se for o Spielberg a realizar… ora sucede que dás por ti num elevador com o sôr Steven. Como venderias o teu peixe?
Além do facto de que tal cenário seria extremamente surreal para mim e eu provavelmente acabaria por simplesmente dizer: “Olá Sôr Spielberg, *aperto de mão rápido* sou grande fã, tenha um bom dia.” Mas dado que estaria com a missão de tornar este filme uma realidade, acho que o meu “Elevator pitch” seria algo como isto: “Sôr Spielberg, isto é uma história de tragédias e comédias sobre um jovem que vive num arquipélago no meio do Atlântico e após ter visto o ‘Jurassic Park’ aos cinco anos de idade decidiu ser cineasta.” Mas obviamente, se tivesse tal oportunidade, acho que não lhe faria um pitch para um filme sobre a minha vida e sim para algo mais delirante e extravagante.

O dia profissionalmente mais feliz da tua vida foi quando e porquê?
Acho que é difícil escolher um dia, houve muitos, mas tenho particular afeto pelo último dia de rodagens da curta-metragem “Cemitério Vermelho” em Santa Maria. Foi uma rodagem magnífica e uma excelente semana passada na ilha na melhor das companhias.

O que é que Portugal Continental bem poderia aprender com os Açores?
Bem poderiam aprender a fazer pasta de chouriço e pé-de-torresmo. Lembro-me de quando estava a estudar em Portugal Continental de ficar chocado por não encontrar tal delicadeza gastronómica nos super e hipermercados do continente. 

De que forma o carácter atlântico, a açorianidade, o ser-se ilhéu influencia o teu processo criativo?
Penso que influencia o meu processo criativo de uma forma inconsciente, é algo que já está embrenhado no meu ser e na minha forma pessoal de ver as coisas ou contar uma história. Acredito que a insularidade encontra-se presente em todo o meu trabalho cinematográfico de uma forma subtil, para além do óbvio uso de atores açorianos e os locais, existe sempre um desejo de me focar em histórias que de certa forma tentam quebrar a insularidade fazendo uso da mesma como veículo criativo.

O maior disparate que já ouviste sobre as ilhas é?
Muito sinceramente, acho que nunca prestei atenção suficiente para me lembrar dos quantos disparates sobre as ilhas que possa ter ouvido, mas acho que o mais comum é que a maior parte das pessoas em Portugal continental acha que se fala com o sotaque de São Miguel em todas as ilhas.

Que crime cometerias se não houvesse castigo?
Vender bootlegs de filmes em DVD e blu-ray. Haveria outros, mas prefiro ficar por aqui.

Como é que a tua família reage à tua profissão?
Tenho a sorte de a minha família acreditar em mim e na minha carreira, e ter sempre (maior parte das vezes) apoiado esse sonho desde que comecei a fazer “home movies” aos 12 anos de idade com uma câmara fotográfica (emprestada) que gravava clipes de 30 segundos sem áudio. Óbvio que nunca achavam piada quando eu respingava as paredes da casa com litros de sangue falso.

Aquele sonho por realizar é?
Muitos, mas já tive o privilégio de realizar uns quantos que nunca pensei que se realizassem. Mas para responder à questão um dos meus sonhos por realizar é a minha primeira longa-metragem.

Qual é o sentido da vida?
A pergunta número 10.

Incidente diplomático

Katy Perry tem ascendência açoriana. Pronto. Fixe. Um daqueles sites que faz muitas “notícias” transformadoras do mundo e suscetíveis de mudar o rumo do leitor na vida, encantou-se tanto por tal descoberta que desde logo aportuguesou o nome da moçoila. Mas o melhor foi o — decerto profundo — trabalho de investigação a que se dedicaram, tão denso que acabaram por encontrar as raízes da Kate (por que não Kátia?) numa ilha ainda por descobrir.

Depois da revelação da Horta como 10ª ilha, ficamos a aguardar a revelação de que Tom Hanks tem antepassados na Ilha dos Arrifes, a árvore genealógica de James Franco começa na Ilha da Agualva e que Steven Spielberg chegou a ponderar filmar no Ilhéu da Terra do Pão.

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Tem dicas sobre spots açorianos que merecem atenção? Vistas deslumbrantes e menos conhecidas? Pessoas que vale a pena conhecer? Gostava de sugerir uma história à Embaixada dos Açores ou contar um episódio hilariante sobre malta de fora que tentou apanhar o metro, achou que tinha de nadar até à próxima caixa multibanco ou estava convencida de existir um rio em São Miguel? Envia um email para embaixadadosacores@nullnit.pt.

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