Cinema

Pedro Almeida Maia: “Os açorianos conseguem tirar mais sumo de cada limão”

O autor é o mais recente entrevistado da Embaixada dos Açores, a nova rubrica da NiT. Quer adaptar os seus livros ao audiovisual.
É um dos maiores talentos dos Açores. Fotografia: Luís Godinho.

Não haverá território português com mais criação artística por quilómetro quadrado do que os Açores — e a literatura não é, naturalmente, exceção. Além dos óbvios vultos, desde Natália Correia a Antero de Quental, de Vitorino Nemésio a João de Melo, há quem se destaque no rol de contemporâneos, sobretudo através da conquista de prémios nacionais, um utilíssimo empurrão para quebrar a barreira da distância e do isolamento.

O País não conhece, e é trágico, Emanuel Félix ou Roberto de Mesquita. Contudo, algo nos diz que Pedro Almeida Maia, de 45 anos, romperá as fronteiras invisíveis que o centralismo sempre levanta. Atualmente a promover “A Força das Sentenças” (Prémio Literário Manuel Teixeira), encontra-se a ultimar a versão inglesa de “A Escrava Açoriana”, enquanto o seu bestseller “Ilha-América” prossegue uma viagem gloriosa.

Em breve, poderemos contar com novo livro, sobre um criminoso açoriano que viveu nos Estados Unidos e que se juntou à Máfia nos turbulentos anos 20. Mais uma vez a dança entre pesquisa histórica e talento de narrador serão, estou certo, a marca fulgurante do estilo Pedro Almeida Maia.

Leia a entrevista de Luís Filipe Borges, da Embaixada dos Açores, a Pedro Almeida Maia.

  • Um produtor de Hollywood está louco para fazer um filme sobre a tua vida, mas falta convencer o estúdio, que só avança se for o Spielberg a realizar… ora sucede que dás por ti num elevador com o sôr Steven. Como venderias o teu peixe?

Olhe, Steven, venho do futuro e sei qual é o filme que vai realizar a seguir. Parabéns! Vai ser o que finalmente trará o Óscar de melhor argumento original, o prémio que lhe anda a fugir das mãos há décadas. É a história daquele rapaz que escreve romances. Sabia que, em criança, ele queria ser taxista? Ainda puto, andava por casa com uma câmara de filmar VHS e um gravador de cassetes a realizar os próprios efeitos especiais com o irmão. Aprendeu a tocar guitarra, cantou num grupo folclórico e andou numa banda de pop rock. Só depois se pôs a escrever canções de amor, quadras e contos. Entretanto, leu quilos de banda desenhada, histórias do Lucky Luke, aventuras de Enid Blyton, policiais do Rex Stout e ficções de Wells, Hemingway e Twain. Daí até publicar o primeiro livro foi um saltinho. Tome lá o guião, esconda-o dentro do casaco. E não diga a ninguém quem lho entregou. Adeus. 

Profissionalmente, qual foi o dia mais feliz da tua vida e porquê?
Como já assumi diferentes papéis profissionais, tive a sorte de viver alguns desses dias felizes. Identifico-os quando originam aquele pensamento: “Bem, isto vai ser totalmente diferente a partir de agora”. Claro que as felicidades profissionais não se comparam às emoções de quando somos pais, por exemplo (já o experienciei duas vezes), ou de quando entramos para a universidade, ou do primeiro beijo, mas não deixam de ser etapas fundamentais. Na música, recuaria a 1997, ano do primeiro ensaio dos Corsários, um projeto de originais onde fui guitarrista, ou em 2007, à inauguração de um estúdio de gravação na época em que fiz produção e edição discográfica. Em 2011, atendi o telefone para receber a notícia de que tinha vencido o Prémio Literário Letras em Movimento e que seria provável a publicação do meu primeiro romance, o que se materializou no ano seguinte. 2017 também foi um ano arrebatador devido ao mestrado: fiz um semestre académico em Barcelona, vivi uma incrível experiência de trabalho na Irlanda, uma formação intensa em Gandia [em Valência], regressei a Coimbra para defender a tese e fiz as malas para regressar ao Açores. Soube que a minha vida ia mudar, embora ainda não tivesse a certeza se para melhor ou para pior (risos). Nos últimos anos, os livros têm trazido imensas surpresas que se têm traduzido em dias felizes, e eu podia continuar a enumerá-los, pois têm sido bastantes. O dia em que soube que “A Escrava Açoriana” ia merecer uma tradução para inglês, por exemplo.

O que é que Portugal Continental poderia aprender com os Açores?
A produzir o melhor queijo fresco, claro está! Se bem que já provei exceções saborosíssimas, como o de Setúbal. Há outros excelentes. A fazer muito com pouco: creio que os açorianos conseguem tirar mais sumo de cada limão. A aguentar a adversidade das tempestades, dos vendavais e do isolamento, sem reclamar. A viver sob o risco de um vulcão despertar a qualquer momento. E, claro, a respeitar o mar. Mas a vastidão de Portugal Continental engloba realidades contrastantes. Há regiões litorais que têm uma relação com o mar muito semelhante à nossa, onde se pesca, onde se mergulha, onde se respira a maresia com a mesma paixão, apesar da ausência da bruma. E há zonas no interior do País onde se debatem os mesmos dilemas, os que são comuns às periferias. Portugal já é uma periferia da Europa, por isso é que os arquipélagos são ultraperiféricos.

De que forma o carácter atlântico, a açorianidade, o ser-se ilhéu, influencia o teu processo criativo?
Não há dúvida de que o Azoreon Torpor favorece a criação artística. No tempo dos irmãos Bullar, os primeiros a utilizar a expressão há quase duzentos anos, significava apatia, pasmaceira e entorpecimento, fruto do clima húmido, do isolamento e outros atrasos; hoje, com a Internet e o ritmo das cidades a impregnar-se nas vivências das freguesias, até nas mais recônditas, creio que a mesma expressão pode ser associada ao misticismo, à magia das paisagens e ao fascínio que produzem. É esse pó de perlimpimpim que trespassa a alma dos artistas, dos criadores, e que acelera a roda da imaginação, maleita da qual também sofro, por mais vontade de sair da ilha que lateje no dia a dia.

Qual foi o maior disparate que já ouviste sobre as ilhas?
Há mais de uma década, uma pessoa que eu acabara de conhecer, por intermédio de um amigo, perguntou-me qual era a autoestrada que ligava Lisboa aos Açores. Comecei por pensar que se tratava de uma brincadeira, por isso respondi que era a A0. “Mas as portagens são caríssimas!”, acrescentei. Só que a pessoa fez uma cara séria, como se procurasse mentalmente aquela via. Esclareci que ficava “para lá de Cascais”, e a pessoa disse “ah, já estou a ver”. O nosso amigo comum riu-se e logo esclareceu o lapso, mas por um momento estivemos os três em sintonia, prontos para atravessar mil e quinhentos quilómetros de alcatrão sobre o Atlântico.

Que crime cometerias se não houvesse castigo?
Assaltaria uma loja de chocolates. Mas mesmo que não houvesse castigo para esse crime, haveria redondas consequências.

Como reage a tua família à tua profissão?
Felizmente sinto-me apoiado pela família e pelas pessoas que me rodeiam, sobretudo pelas minhas filhas e ainda mais pela minha companheira. É graças a elas que consigo encontrar o equilíbrio necessário para fazer alguma coisa que se aproveite neste mundo cada vez mais louco e acelerado.

Que sonho ainda não realizaste?
Quando escrevo, vejo as imagens a passar diante de mim, por isso, um dos sonhos é ver adaptações ao audiovisual, ou mesmo escrever uma longa-metragem. Já tive a sorte de ver o meu segundo romance adaptado ao espetáculo de dança “Atlântida” e “A Escrava Açoriana” para a dança contemporânea “Açorada”; para teatro ainda se pode proporcionar. Outra realização seria publicar traduções (há duas traduções para inglês a serem feitas). Publicar um livro de contos também está na lista de desejos. E regressar à crónica, possivelmente. Enfim, tudo sonhos que dão trabalho (risos).

Qual é o sentido da vida?
Uma vez, em conversa com um amigo meu, ele simplificou o dilema dizendo-me que o sentido da vida era “os filhos”, ou a nobre missão da paternidade. Foi uma teoria que ressoou bastante na minha forma de pensar, de ser e de estar: afinal de contas, a paternidade continua a ser a missão à qual dou maior importância. Mas como há pessoas que optam por não serem pais, ou não podem ter filhos, prefiro alargar a tese a “deixar a nossa marca”.

Restaurante? 
Bom Pesqueiro, em Ponta Delgada (ilha de São Miguel), de preferência a cavala grelhada para dois.

Vista? 
Qualquer sítio de onde se aviste Sua Magnificência, a Senhora Montanha do Pico.

Banhos/zona balnear? 
Praia Formosa, ilha de Santa Maria.

Ritual/Tradição? 
Fazer trilhos pedestres e caminhar junto ao mar.

Artista referência ou que admires (nas ilhas, vivo ou morto)? 
Manuel Ferreira, escritor e jornalista, autor de “O Barco e o Sonho”.

Obrigatório de visitar (museu, associação, teatro, bar ou outro)? 
Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, ilha do Faial.

Incidente Diplomático

Como isto não pode ser também sempre a bater em órgãos de comunicação social, a Embaixada abre uma exceção para navegar pelas caixas de comentários das redes sociais, sobretudo de cada vez que há notícia de um sismo nos Açores. Sismo nos Açores ou, como dizemos lá no arquipélago, “uma segunda-feira típica”. Ora bem, se tivemos de ver o comentário seguinte, o caro leitor também terá.

Além das voltas, reviravoltas e piruetas encarpadas que Camões estará, porventura, a dar no túmulo, fiquemos apenas com uma conclusão (pela positiva): se a inteligência pagasse imposto, esta senhora seria um paraíso fiscal.

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Tem dicas sobre spots açorianos que merecem atenção? Vistas deslumbrantes e menos conhecidas? Pessoas que vale a pena conhecer? Gostava de sugerir uma história à Embaixada dos Açores ou contar um episódio hilariante sobre malta de fora que tentou apanhar o metro, achou que tinha de nadar até à próxima caixa multibanco ou estava convencida de existir um rio em São Miguel? Envia um email para embaixadadosacores@nullnit.pt.

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