Cinema

O filme português que está nas lista dos melhores do ano (e que Spike Lee adora)

Por cá, estreou ainda em 2019, mas lá fora não está a ser esquecido entre os melhores de 2020. E se calhar ainda concorre aos Óscares.
Filme de Pedro Costa em destaque.

É “o filme mais resiliente do ano”, para K. Austin Collins, “Vanity Fair”. É “uma obra-prima” para Eric Kohn, da “IndieWire”. É “cinema essencial” para Glenn Kenny, do “New York Times”. E até mesmo “O melhor filme do ano”, na perspetiva de Jonathan Rosenbaum, da revista “Sight and Sound”.

Eis a curiosidade: trata-se de “Vitalina Varela”, filme do cineasta Pedro Costa que por cá estreou ainda em 2019 mas que entre festivais e estreias internacionais têm encantado durante o ano de 2020.

O final do ano está a chegar e mesmo num ano de pandemia, que pareceu ser o mais longo das nossas vidas, o filme de Pedro Costa não foi esquecido. Na verdade, “Vitalina Varela” já está entre as listas de melhores do ano para publicações tão diversificadas como a “Esquire” ou o “LA Times”. O site “Rotten Tomatoes”, agregador de críticas, contabiliza um aprovação de 98 por cento ao filme por parte da crítica. É o único filme português que neste momento está no top 50 do ano na plataforma.

O filme esteve entre os finalistas da Academia Portuguesa de Cinema para ser o candidato português aos Óscares, A escolha acabou por recair sobre “Listen”, a primeira longa-metragem de Ana Rocha de Sousa e protagonizado por Lúcia Moniz (com quem a NiT falou a propósito do filme). Entretanto, por não ter falas suficientes em português, “Listen” foi rejeitado. Este domingo, 20 de dezembro, terminam as votações que decidem o novo candidato.

Ainda assim, e mesmo que não seja o escolhido, “Vitalina Varela” não deixou de ter atenção na corrida aos Óscares. O filme foi bem recebido entre cinéfilos e a comunidade afro-americana, ao ponto de contar com Spike Lee a torcer para que fosse a escolha portuguesa. Não será acaso. Premiado com o Leopardo de Ouro, em Locarno, “Vitalina Varela” conta a história de Vitalina, mulher que há mais de 25 anos espera pelo seu bilhete de avião. Três dias depois do funeral do seu marido, esta mulher cabo-verdiana chega a Portugal. É uma heroína discreta, sa´indo das margens.

Esta é mais uma proeza do cineasta português cujo cinema denso continua a ser de culto por cá mas que mostra que é um fenómeno bem internacional. “Juventude em Marcha” (2006) já tinha figurado entre os melhores filmes da primeira década do século XXI para o crítico veterano Richard Brody, da “New Yorker”. Curiosamente, para Pedro Costa, em entrevista ao “Ipsilon”,Vitalina era “a metade feminina” do trabalho que levara a cabo com “Juventude em Marcha”.

Não é ficção nem documentário. É cinema.

O bairro de Pedro Costa

Estas ligações são parte integrante do labirinto de Pedro Costa. As personagens reais que se cruzam no seu cinema voltam a revisitar-nos. “Juventude em Marcha” focava a sua atenção em Ventura. No mesmo filme conhecíamos Vanda, figura central noutra obra de Pedro Costa, “No Quarto da Vanda” (2000). Em 2015, com “Cavalo Dinheiro”, Pedro Costa voltava a colocar-nos em contacto com Ventura mas também com a mesma Vitalina Varela cuja história conhecemos agora no filme a que dá nome.

Com atores que não o são e histórias bem ancoradas na vida real, filmadas com um olhar muito próprio, Pedro Costa é um nome de exceção no cinema nacional. E nos últimos 15 anos tem concentrado boa parte das suas filmagens na periferia de Lisboa, mais concretamente no bairro das Fontainhas e na Cova da Moura. É dali que emanam histórias de gente de carne e osso que, entre a pobreza e a imigração, têm cativado espectadores em salas de cinema pelo mundo fora.

A crítica internacional reconhece o cinema exigente de Pedro Costa mas destaca também o rigor e beleza dos planos do cineasta português. “‘Vitalina Varela não é uma obra que se queira fácil de ver mas é muito compensadora para quem quer mergulhar nos seus espaços e emoções” pode ler-se no site “Roger Ebert”.

Longe de ser sucesso de bilheteira entre nós, Pedro Costa tem continuado a provar uma e outra vez que há um espaço para o seu cinema brilhar, por vezes mesmo para lá da sala de cinema. Em 2009, o cineasta atualmente com 61 anos teve inclusive direito a uma retrospetiva no Tate Modern, em Londres, mostrando como os seus filmes encontram atenção no seio da arte moderna.

Curiosamente, o realizador em tempos fascinado pelo mundo punk enveredou quase que por acaso na sétima arte, como o próprio já admitiu em entrevistas. Por entre o cuidado estético, há um lado de do it yourself curioso.

Em Locarno, quando venceu o prémio maior do festival, afirmou em declarações divulgadas pela organização do festival que a distinção com o Leopardo de Ouro mostrava que “tudo é possível, mesmo para um tipo velho (…) que fez um filme pequeno sem dinheiro”. Esse filme sem dinheiro é também um “testemunho do amor” com que foi feito. Palavra de Vitalina Varela, a atriz e mulher que o mundo do cinema tem andado a descobrir durante este estranho ano de pandemia.

“Vitalina Varela” está disponível para ver em plataformas de cinema independente como a Filmin ou a Grasshoper Film.

 

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