Cinema

“A dor não se vai embora”. A vida trágica de Pierce Brosnan

O antigo Bond foi forçado a enfrentar rivais bem mais impiedosos do que os vilões da saga 007.
Não tem sido fácil

Já o vimos fazer um pouco de tudo. Vimo-lo assassinar a pista de dança em “Mamma Mia”, de engatatão intrometido em “Mrs. Doubtfire” e de implacável Bond. O que a maioria não sabe é que longe dos ecrãs, a sua vida é tão ou mais trágica do que um drama de Hollywood.

Depois de uma infância dura com uma dose quanto baste de bullying — afinal, era um irlandês em terras britânicas —, casou-se aos 27 anos com a atriz australiana Cassandra Harris. Foi com ela que teve o primeiro e único filho, Sean.

Acabaria por ver a família alargada por causa de uma tragédia. Casada com Brosnan desde 1980, Harris tinha dois filhos de um antigo casamento: Charlotte e Chris. Quando o ex-marido e pai Dermot Harris morreu, em 1986, Brosnan decidiu preencher o espaço vazio e avançar para a adoção. Seria o seu novo pai.

O papel que assumiu tornou-se ainda mais importante um ano depois. Harris participava numas gravações na Índia quando começou a sentir um cansaço extremo. Avançava com a segurança de quem tinha feito um check-up seis meses antes, com luz verde do médico. Afinal, nem tudo estava bem.

Assim que foi internada e analisada, o diagnóstico chegou: cancro nos ovários. A luta contra a doença durou cerca de quatro anos. Harris acabou por morrer em 1991, tinha 43 anos.

“Quando a tua parceira é diagnosticada com cancro, a vida muda. O teu quadro temporal, a tua referência para as rotinas do dia a dia, da vida, tudo muda. Estás a lidar com a morte”, revelou em 1997 à “Cigar Aficionado”

Brosnan com Cassandra e os dois filhos

Apesar da terrível doença, Brosnan afirma que ela permitiu que aproveitassem cada momento de forma mais especial. “Deu uma incrível paz à vida porque aproveitávamos todos os momentos”, explicou.

A morte foi uma “perda terrível” e o ator via-a sobretudo refletida nos filhos que já tratava por seus. “Como é que prossegues depois disto? Devagar. Muito, muito, muito devagar. Dói e tu tens que te sentar e aguentar. Não há nada que possas fazer porque a dor não se vai embora”.

De Cassandra Harris, Brosnan afirma ter guardado “o enorme sentido de humor” e “uma maravilhosa gargalhada” que “os filhos também herdaram. “O Christopher, a Charlotte e o Sean têm um feitio contagioso, do tipo que faz as outras pessoas sentir-se bem. É um dom.”

Tal como Harris queria, Brosnan acabou mesmo por se tornar no novo James Bond e lançou-se na fase mais fulgurante da carreira. Só que duas décadas depois, haveria de ter que enfrentar outra tragédia — diferente, mas muito familiar.

Chegava outro diagnóstico de cancro nos ovários, desta vez a Charlotte, a sua filha adotiva. Tal como a mãe, acabou por lutar contra a doença, sem sucesso. Tinha 41 anos.

Ao lado de Charlotte

O luto voltou e mais uma vez transformou o ator. “Já não vejo os copos meio cheios, acreditem em mim. O negro e melancólico cão negro irlandês senta-se ao meu lado de tempos em tempos”, revelou à “Esquire” em 2017.

Três anos antes, tinha dado a cara por um evento de angariação de fundos para a luta contra o cancro. Quando subiu ao palco, deixou uma declaração muito pessoal. “Segurei a mão bela, forte e generosa da minha primeira mulher Cassie enquanto o cancro nos ovários lhe tirou a vida demasiado cedo. E no ano passado, segurei a mão da minha maravilhosa e hilariante filha Charlotte antes de, também ela partir demasiado cedo por culpa desta terrível e hereditária doença.”

A fé, explica Brosnan, foi o que o salvou. “É tudo o que te resta quando às quatro da madrugada percebes que o teu coração é um buraco negro e tens todo o peso do mundo nos teus ombros”, contou à “Bild”.

A ligação de Brosnan ao cancro não tem sido fácil. Foi a mesma doença que causou a morte a Beau Marie St. Clair, produtora cinematográfica, colega e amiga de longa data do ator. E nem só de doenças ficou marcada a vida trágica do ator.

Em 2000, o filho Sean foi vítima de um acidente de viação com apenas 13 anos, no qual sofreu múltiplas fraturas e lesões na coluna vertebral. Seguia no lugar do passageiro, ao lado do primo de 19 anos. Outro drama familiar é o do outro filho e irmão de Charlotte, Christopher, hoje com 47 anos. Toxicodependente há várias décadas, viu o pai cortar relações em 2004.

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