Cinema

A dura história de um refugiado afegão gay inspirou o filme sensação dos Óscares

"Flee — A Fuga" está nomeado para três estatuetas e é um exemplo de resiliência de um adolescente de 16 anos.
Amin preferiu manter o anonimato

Foi a uma pequena aldeia rural com pouco mais de 500 habitantes que Amin Nawabi chegou, era ainda um adolescente de 16 anos. Refugiado afegão, foi acolhido no país europeu, onde ficou a cargo de uma família de acolhimento.

A caminho da escola, cruzava-se quase sempre com outro jovem de 15 anos, Jonas Poher Rasmussen. “Começámos a encontrar-nos todas as manhãs na paragem do autocarro. Tornámo-nos amigos”, revela à “Indiewire” o cineasta dinamarquês.

“Sempre tive curiosidade em saber como é que ele chegou até ali, mas ele nunca queria falar sobre isso e eu, claro, respeitava-o.” Mesmo assim, os rumores espalhavam-se rapidamente no meio pequeno. Dizia-se que o jovem vira morrer toda a sua família e que teria feito todo o percurso até à Dinamarca a pé.

A amizade manteve-se até hoje e, eventualmente, Amin — um pseudónimo criado para manter o anonimato — acabaria por revelar todo o seu passado. Não só a Rasmussen, mas a todo o mundo.

A história, transformada em filme de animação, foi um sucesso de tal forma que acabaria por encontrar o seu caminho até ao lote de nomeados para o Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira. Mais: conseguiram atrair financiamento de Riz Ahmed e de Nikolaj Coster-Waldau, que entraram no projeto como produtores executivos.

“Flee — A Fuga” é um resumo de uma vida dramática, de um jovem homossexual que resistiu ao preconceito, à violência talibã, à perigosa viagem ilegal rumo à Europa e às dificuldades de crescer e se formar num país estranho com uma língua estranha. Hoje, Amin é um académico reconhecido, tem um parceiro e está feliz. E também por isso decidiu contar a sua história, apesar de preferir manter secreta a sua identidade.

“Há 15 anos perguntei-lhe se fazia um documentário para a rádio com a sua história. Disse-me que não. Mas disse-me também que sabia que eventualmente teria de o fazer — e quando a altura ideal chegasse, que me avisaria”, conta o realizador e argumentista.

Esse dia eventualmente chegou e a colaboração deu origem a “Flee — A Fuga”, uma espécie de híbrido: é um filme, é de animação e é igualmente um documentário. Essa faceta ajudou-o a fazer história, ao ser nomeado para cada uma das três categorias, Melhor Filme de Língua Estrangeira, Melhor Documentário e Melhor Filme de Animação.

A consagração chega poucos meses depois da estreia mundial no Festival de Cinema de Sundance, onde conquistou o Grande Prémio do Júri para filmes estrangeiros, na categoria de documentários. Repetiu o êxito (e os elogios) nos diversos festivais por onde passou.

Rasmussen conseguiu finalmente que Amin consentisse contar a história da sua vida. “Ele acabou por dizer que sim graças à animação, que lhe permitia manter-se anónimo”, conta. “Toca em experiências traumáticas que não são fáceis de abordar, por isso ele não queria fazer um filme normal. Depois teria que se cruzar com pessoas na rua que conheciam os seus mais íntimos traumas e segredos.”

Amin vivia com a sua família no Afeganistão, onde enfrentaram as dificuldades da invasão soviética e posterior tomada do poder pelos talibã. Acabariam por decidir escapar do país com a ajuda de traficantes de pessoas. Destino? Rússia, o único país que emitia visas para viajantes afegãos.

Tinha apenas 11 anos e a Rússia era um local pouco acolhedor. “Era um sítio estranho, foi logo após a queda do muro [de Berlim] e havia muita corrupção. A polícia russa pressionava-os e pedia-lhes dinheiro, tiravam partido da sua situação”, conta Rasmussen sobre a passagem de Amin pela Rússia, de onde raramente saíam do apartamento. Eram regularmente insultados e mal tratados pelas autoridades e mesmo pela população.

O objetivo passava por chegar à Suécia, onde tinham alguma família que os ajudava financeiramente. Tentaram por várias vezes cruzar a fronteira, sem sucesso. Amin acabaria por viajar sozinho para a Dinamarca, aos 16 anos, com a ajuda de traficantes, que o aconselharam a mentir assim que chegasse ao país: deveria dizer que toda a sua família foi morta. Essa não era a verdade: alguns familiares ficaram na Rússia e viajaram posteriormente para os Estados Unidos. Menos o pai, que foi capturado pelos guerrilheiros talibã ainda em Cabul, e nunca mais foi visto.

“Quando os refugiados chegam cá, hoje, é lhes dito que podem ficar, mas assim que surge uma hipótese, são enviados de volta. Isso não permite que construas uma vida”, explica Rasmussen. “Acabam por ficar durante anos numa espécie de limbo, sem saberem o que vai ser do seu futuro. Acho que o filme, para mim, é isso, uma história sobre confiança e de como confiarmos em nós e nos outros cria valor.”

O filme assenta numa recriação de todas as cenas detalhadas por Amin. O som, as vozes, são todas de Amin e de Rasmussen, gravadas em várias entrevistas gravadas na sua casa. A primeira foi a mais intensa: o cineasta pediu ao amigo que se deitasse, fechasse os olhos e imaginasse o seu percurso.

“Pedi-lhe que me desse todos os detalhes, que me descrevesse os locais, para termos o máximo de pormenores possíveis. Quando ele me descrevia a casa, perguntava-lhe: ‘Como era o jardim? Que plantas tinha? De que cores eram as paredes?’. Tudo”, recorda. “isso deu imenso material para que os animadores pudessem criar [os cenários]. Ele via tudo à frente dos seus olhos e as memórias começavam a regressar. E acabava por reviver os momentos, mais do que apenas contá-los.”

A técnica usada por Rasmussen é uma velha técnica radialista, ele que trabalhou ligado à rádio durante vários anos. “Quando fazes rádio, não tens imagens, por isso precisas que o sujeito pinte o cenário por ti”, explica à “Indiewire”. A anonimidade era uma cláusula inegociável do projeto. Apenas Rasmussen sabem quem é Amin na realidade. “Adorava que ele pudesse estar aqui, mas é impossível. Claro que falámos sobre o que eu diria ou não diria [nas entrevistas]. Ele é muito aberto e diz que desde que não revele quem é ou onde vive, tenho liberdade total para falar sobre tudo.”

De Amin sabe-se apenas que mora ainda na Dinamarca com o marido e que se livrou dos medos da vida de refugiado. Conseguiu também reencontrar-se com a mãe antes da sua morte — ela que não o acompanhou na viagem até à Suécia e Dinamarca. A família muçulmana acabaria também por aceitar a sua sexualidade.

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