Cinema

A dura história verídica que inspirou “Nomadland”, o grande vencedor dos Óscares

“Nomadland” mostra a vida dura dos americanos que encontraram na estrada a forma de sobreviver à crise económica.
Há Óscares à vista para "Nomadland"

Aos 64 anos, Linda May fazia do seu jipe em segunda-mão uma casa, onde dormia e sonhava com o dia em que poderia criar uma casa sustentável. Bob Wells percorria os Estados Unidos, também a viver no seu carro, de onde alimentava um canal de YouTube sobre a vida moderna dos nómadas. Ambos fazem parte do grupo que inspirou a história de “Nomadland”, a produção que venceu o Óscar de Melhor Filme.

May e Wells não se limitaram a prestar o seu relato à jornalista Jessica Bruder que, em 2017, editou um livro sobre a vida destes nómadas, atirados para a incerteza e para uma nova vida pela crise económica da última década. Os dois norte-americanos fazem parte do elenco e cruzam-se no caminho de Fern, a personagem principal (e ficcional) interpretada por Frances McDormand.

Realizado por Chloé Zhao, “Nomadland” acaba de limpar os BAFTA, onde conquistou quatro prémios, entre eles o de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Atriz — isto depois de lançar a forte candidatura aos Óscares com a conquista de dois Globos de Ouro. É, desta forma, a grande aposta para os maiores prémios do cinema, onde está nomeado em seis categorias.

O cenário e a história que Bruder escreveu em 2017 e que foi alvo de numerosos elogios — o livro chama-se “Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century”, Vida de Nómada: Sobreviver na América no século XXI, em tradução livre — começou a desenhar-se nos primeiro anos do século, por altura da disseminação das hipotecas de alto risco. Geringonças económicas à parte, o colapso da bolha imobiliária que havia sido criada provocou uma crise sem precedentes.

Como um dominó, o caos financeiro atirou para a falência dezenas de instituições financeiras, uma queda que se fez sentir por todo o mundo. Haveriam de chamar-lhe a Grande Recessão. Quase uma década depois, Bruder deixou de olhar para a big picture e focou-se no mundo real.

Bruder viveu como workamper durante três anos

A crise económica, para lá dos efeitos mais evidentes, provocou também outro grave problema, sobretudo na dura economia americana: mais e mais séniores viam-se obrigados a abdicar da reforma. Em dificuldades financeiras, eram obrigados a manter-se no mercado de trabalho e, quando isso não era suficiente, tinham que repensar toda a sua forma de viver.

“Muitas das pessoas com quem falei sentiam que tinham passado demasiado tempo a perder, enquanto jogavam um jogo viciado. E portanto encontraram uma forma de enganar o sistema. Deixaram para trás as suas casas tradicionais de tijolo, libertaram-se dos grilhões das rendas e das hipotecas e mudaram-se para carrinhas, autocaravanas e atrelados, a viajar de um lado para o outro, à procura de bom tempo e manter os depósitos cheios através de trabalhos sazonais”, revelou a autora em 2018 ao “Street Roots”

Bruder preparou a sua própria carrinha e durante três anos percorreu mais de 20 mil quilómetros ao lado destes workampers — nome dado aos trabalhadores que percorrem as estradas e o país à procura de trabalho —, a registar os seus dramas e os seus sonhos. Muitas das histórias de vida encontram o seu ponto de inflexão na crise, ocasionalmente com outros problemas à mistura.

De relatos de executivos que perderam todas as poupanças na crise de 2008 a mulheres demasiado velhas para serem aceites pelo mercado de trabalho, de doentes crónicos a vítimas de maus investimentos, encontra-se um pouco de tudo.

“Sentia-me como se estivesse a vaguear num campo de refugiados da pós-recessão. Noutros, sentia que estava a falar com reclusos”, descreveu a jornalista em 2017 ao “The New York Times”

Muitos dos relatos são de americanos já na idade da reforma, para os quais esse período dourado (e de descanso) se tornou numa miragem. As dificuldades financeiras forçaram-nos a descartar o estilo de vida tradicional, a largar as dispendiosas casas e a procurar trabalho onde quer que ele exista. Acabam, muitas vezes, a aceitar trabalhos duros e mal pagos, sobretudo em indústrias sazonais.

Um dos maiores empregadores destes workampers, descobriu Bruder, é a Amazon, a gigantesca multinacional do comércio eletrónico. Isso tem uma justificação: a contratação de funcionários mais velhos traz consigo incentivos fiscais.

Sem grandes hipóteses de escolha, veem-se forçados a aceitar trabalhos mal pagos e que por vezes os obrigam a trabalhar mais de 10 horas por dia. Também por isso, descreve Bruder, os carros e as autocaravanas destes trabalhadores tornaram-se em “farmácias ambulantes” recheadas de analgésicos que.

Nas imediações destes armazéns da Amazon, Bruder encontrou “um microcosmos de uma catástrofe nacional.” “Os parques de autocaravanas estavam a abarrotar de trabalhadores muito, muito longe dos confortos de classe média que pensaram que nunca perderiam. São os porta-estandartes de cada uma das desventuras económicas que afligem os americanos nas décadas recentes.”

Linda May tornou-se numa das figuras centrais do livro, então com 64 anos. Trabalhara como empregada de bar, camionista e vendedora de seguros. Acabou a viver na estrada, num pequeno atrelado. Bob Wells, youtuber famoso, Charlene Swankie, juntaram-se a ela no set de gravações.

Habituada a trabalhar com amadores, Chloé Zhao optou por incluí-los no filme. “O desafio não foi tanto o de trabalhar com não-atores, mas antes como integrar Frances McDormand no meio deles. Lembro-me da Chloe brincar com a situação a imaginar que teria de dizer, ‘Linda, muito bem’ e ‘Frances, menos interpretação’”, recorda Bruder.

Linda May é uma das workampers que entra no filme

No filme, McDormand assume o papel de uma personagem que poderia muito bem ser um workamper com quem Bruder se cruzou algures nos parques mais remotos dos Estados Unidos. Aos 61 anos, Fern perdeu o emprego depois da fábrica onde trabalhava ter encerrado.

Viúva e sem trabalho, decide vender a casa, pegar nas malas e fazer-se à estrada à procura de uma nova forma de ganhar dinheiro — e sobreviver. É no deserto do Arizona que encontra um dos locais inspirados num sítio real: um ponto de encontro onde estes workampers se apoiam mutuamente, se organizam em comunidade.

Durante as gravações, McDormand admite que ouviu mais do que falou, isto porque “ouvir é parte da vida do ator”. “Aprendi a fazê-lo neste filme porque assentava mais em ouvir as histórias destas pessoas, dos meus colegas, e não propriamente contar a minha”.

Apesar de ser uma atriz de sucesso, nasceu numa família de classe operária. “Contar histórias é um maravilhoso jogo de ‘E se…?’. E se eu nunca tivesse tido a possibilidade de ir para a universidade? De terminar a escolaridade? E se nunca tivesse encontrado um parceiro que acreditasse no meu potencial e me ajudasse a concretizar os meus sonhos?”, questiona

Mais de uma década depois da crise, a realidade que “Nomadland” mostra ainda é aquela que se vive nas estradas e parques por toda a América — e quer provar que ao contrário do que muitos pensam, o Sonho Americano não está morto, mas tornou-se um pesadelo.

“Visto de fora, as pessoas sobre quem escrevi parece que tomaram uma escolha radical, livrarem-se das crescentes despesas das casas tradicionais, em troca de uma autocaravana. Para quem vive salário a salário, nada nesse estilo de vida é fácil”, conclui Bruder.

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