Cinema

Dwayne Johnson: de criminoso a estrela do maior filme de sempre da Netflix

“Aviso Vermelho” tornou o ator numa das estrelas mais valiosas do show business. Mas a sua vida sem sempre foi fácil.
Aos 17 anos já tinha sido detido nove vezes

Ao contrário da maioria dos adolescentes de 14 anos, Dwayne Johnson não tinha a compleição física de um cabide a fervilhar de hormonas. Era um rapaz corpulento, já perto dos atuais 1,96 metros de altura, 90 quilos de força. Era, ainda assim, um miúdo que se deparou com um aviso de despejo, afixado na porta da sua casa de infância no Havai.

“Vivíamos com o dinheiro contado, apenas com 100€ por semana”, recorda. “Cheguei a casa, a porta estava trancada com um cadeado e tinham afixado um aviso de despejo. A minha mãe começou a chorar. ‘Onde é que vamos viver? O que é que vamos fazer?’”

Era o culminar de uma série de acontecimentos que atiraram a família para o desespero, depois de o carro ter sido confiscado e Johnson ser detido pela polícia, por se ter envolvido numa série de assaltos.

“Esse foi o momento de viragem, em que pensei no que poderia fazer com as minhas duas mãos. E a única coisa que podia fazer era treinar e trabalhar o meu corpo. Todos os homens de sucesso que conhecia, Stallone, Arnold, Bruce Willis, também o faziam.”

Mais de 30 anos depois, cumpriu a promessa. Hoje, Dwayne Johnson — ou The Rock — não só é o ator mais bem pago do mundo, pelo segundo ano consecutivo, como é a estrela do mais caro filme de sempre da Netflix. “Aviso Vermelho” é a nova grande aposta da plataforma, um filme de ação que pretende rivalizar com os maiores blockbusters dos velhos estúdios.

Para o fazer, a plataforma de streaming terá gasto perto de 200 milhões de euros na produção que conta com não um, não dois, mas três dos atores mais bem pagos de 2020 — muito graças ao cheque endereçado a The Rock pelo trabalho em “Aviso Vermelho”. Além de Johnson, o elenco conta com Ryan Reynolds — o segundo mais bem pago do ano — e Gal Gadot, terceira no ranking feminino.

Jonhson é também o produtor do filme que acompanha John Hartley (a sua personagem), um profiler do FBI. O agente acaba por se ver envolvido num roubo auspicioso e junta forças com o maior ladrão de arte do mundo Nolan Booth (Reynolds), na tentativa de apanhar outra ladra, The Bishop (Gadot). “Aviso Vermelho” chegou à plataforma a 12 de novembro.

A estreia é (mais uma coroação) de Johnson como ator e artista, um cenário que aos 14 anos parecia improvável, embora tivesse sonhado brevemente com a sua formatura como agente, não do FBI, mas da CIA.

Filho de um wrestler, viveu grande parte da infância em viagem, entre o Havai e a Nova Zelândia. Acabaria por se fixar em Honolulu, onde o pai teve uma carreira relativamente bem-sucedida. Porém, o dinheiro não abundava.

Jonhson não se resignou e tentou encontrar solução para as dificuldades. Fê-lo da pior forma. O ator recorda que foi detido nove vezes durante a adolescência, depois de se envolver com um gangue que ganhava a vida a roubar turistas.

“Em Waikiki há uma série de quarteirões ricos com lojas da Prada, Chanel, Gucci, Armani. Muitos turistas que passam por lá e há muito dinheiro. Fazia parte de um grupo que tinha esses tipos como alvos. Para além de dinheiro também roubávamos roupas e jóias — que depois tentávamos vender”, recorda o ator. Umas vezes o golpe era bem-sucedido, outras acabava com Johnson algemado e na prisão.

Nem sempre os crimes eram tão graves. Todos os dias, a caminho do ginásio, The Rock passava por uma pequena loja onde, religiosamente, roubava um Snickers. “Juro por Deus, todos os dias, pegava numa barra gigante de Snickers, para me dar energia”, conta. Nunca ninguém deu conta.

“Não era propriamente um modelo sofisticado de roubo”, brinca. Anos depois, durante uma gravação no Havai, regressou ao local do crime com a filha com o objetivo de comprar um Snickers e, de caminho, oferecer 500€ aos donos da loja. Deparou-se com um cenário de pobreza, com toxicodependentes a injetarem-se à luz do dia. “Acabamos por dar meia volta e vir embora.”

Enquanto procurava sair da pobreza na adolescência, era no ginásio que encontrava refúgio. Quando não estava a assaltar turistas, tentava cumprir a promessa de “trabalhar o corpo” para, com ele, abrir caminho para o sucesso.

Quando The Rock era apenas um miúdo de 15 anos.

“Comecei a treinar aos 14 anos. Arranjava sempre tempo ao fim da tarde para o fazer ”, recorda. O exercício era também uma forma de se livrar da tristeza e da depressão. “Nunca fui medicado, limitava-me a tirar o rabo do sofá, a ser ativo e a treinar. Libertar sangue, suor e respeito, era essa a minha medicação.”

Na escola, dedicou-se ao futebol e foi no desporto que encontrou a primeira grande esperança de escapar à pobreza. Brilhou nos escalões mais jovens e chegou mesmo à faculdade, onde sonhava formar-se para ser, imagine-se, um agente secreto da CIA. Inscreveu-se no curso de criminologia, onde completou o bacharelato. “O meu professor de justiça criminal convenceu-me que para o ser, deveria tirar um curso de Direito. Pensei que era uma grande ideia, até perceber que nenhuma faculdade de Direito me aceitaria com a merda de notas que tinha — fim da história”, recorda.

A aposta no futebol parecia ser mais segura e já no Canadá — ele que também tem cidadania canadiana — juntou-se à equipa profissional dos Calgary Stampeders. Foi dispensado dois meses após o arranque da época.

“Os sonhos que tinha foram destruídos. Acabara-se o futebol. Foi a pior fase da minha vida”, conta Johnson, que se viu obrigado a viajar para Miami e recorrer à ajuda do pai. “Durante a viagem abri a carteira, tinha uma nota de cinco dólares, outra de um e uns trocos. Lembro-me de pensar: tudo o que tenho são estes sete dólares.”

Esse valor acabaria por ter um enorme significado na vida de Johnson, de tal forma que, quando pôde criar a sua própria empresa de produção de filmes, chamou-lhe precisamente Seven Bucks Production.

Encontrou um novo caminho profissional no wrestling, a profissão da família — o pai foi lutador e também p avô, um famoso lutador da Samoa Americana. Rocky Johnson, o progenitor, era conhecido como Soul Man e foi ele que começou a treinar o filho, em 1991.

Dwayne Johnson no ringue com outra estrela da WWE, ‘Stone Cold’ (Steve Austin).

Johnson estreou-se na WWE, a maior organização de wrestling do mundo, cinco anos depois, em 1996. Era normal ver o pai a saltar para o ringue e ajudar o filho nos combates, que subia ao ringue com a alcunha dos seus antepassados, Rocky Maivia.

Durante a década seguinte, Johnson tornou-se uma super-estrela da modalidade. Sob o nome de The Rock, conquistou todos os títulos — mas o sucesso levou-o a traçar outro plano (ainda) mais ambicioso.

Saltar dos ringues para o cinema era algo relativamente comum. Rowdy Roddy Piper fê-lo, André, o Gigante também, até Hulk Hogan. Johnson desenhou uma estratégia curiosa. “Comecei a retirar-me discretamente do wrestling profissional aos 29 anos”, recorda.

Durante esse tempo, Johnson continuou a fazer o que prometeu — a trabalhar o corpo —, mas juntou-lhe a arte do entretenimento, da interpretação. “Comecei a estudar a arte, a trabalhar com professores de teatro, criei um plano a 10, 12 anos. Queria ser o líder de bilheteira em Hollywood, o número um.”

O treino começou muito antes, precisamente nos ringues da WWE, onde mais do que ser um atleta de excelência, Johnson procurou ser o maior entertainer do negócio. Era o primeiro passo para uma carreira diferenciada de todos os outros wrestlers no mundo do cinema.

“Quando era miúdo, o meu ator favorito era o Harrison Ford. Era tão cool. Era duro. Metia-se com as raparigas. Queria ser aquele tipo”, conta. “Bem, também queria ser como o Elvis Presley e como o Chuck Norris também. Peguem em todos esses homens e juntem-nos num só — era isso que imagina ser, na minha cabeça.”

O primeiro papel de The Rock no filme “O Regresso da Múmia”.

Depois de uma breve aparição como Scorpion King em “O Regresso da Múmia”, surgiu a oportunidade de ser protagonista no mesmo papel, num filme dedicado inteiramente à personagem. “Estava super nervoso”, recorda. Eventualmente, fez uma escolha: “Tomei a mais dura e importante decisão de todas: decidi que deixaria de ser aquilo que queriam que eu fosse, não me conformaria ao que esperavam de mim. Decidi ser eu próprio e seria Hollywood que teria que se adaptar a quem eu era.”

A resolução revelou-se nos papéis que se seguiram. Descomplexou-se, abriu o leque de personagens e deixou para trás a rígida figura do durão. Encarnou uma personagem homossexual em “Be Cool” e não teve medo de fazer filmes pensados a toda a família.

Eventualmente, o físico imponente de Johnson acabou por se tornar uma grande mais-valia e o ator brilhou em dezenas de blockbusters, na sua maioria filmes de ação. O corpo e as suas duas mãos, afinal, foram determinantes, tal como havia prometido 30 anos antes.

“Hoje estou muito longe de ser despejado de casa, mas é algo que vou lembrar para sempre. Não vou esquecer essa sensação”, garante.

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