Cinema

Em protesto contra a lei, várias estrelas de Hollywood revelam que fizeram abortos

A chocante decisão do Supremo Tribunal levou a que dezenas de atrizes contassem, pela primeira vez, as suas histórias pessoais.
Ashley Judd foi uma das que deu o seu testemunho

“Foi a decisão mais difícil da minha vida”, revelou Uma Thurman num artigo de opinião publicado no “The Washington Post” em 2021, a propósito das mais recentes leis restritivas da interrupção voluntária da gravidez no Texas. Na peça, a atriz falava sobre a sua experiência pessoal traumática. Nove meses depois, o país fica em choque com a decisão do Supremo Tribunal, ao reverter a deliberação de 1973 que estabeleceu que o direito a abortar estaria protegido pela Constituição.

Ora a decisão estabeleceu-se como jurisprudência, pelo menos até 24 de junho, data em que a maioria conservadora dos juízes do Supremo reverteram a decisão, ao deliberarem que não será um direito constitucionalmente protegido. Abriu-se então a via para que os estados pudessem aprovar leis mais restritivas — o que aconteceu imediatamente e, hoje, pelo menos nove estados proíbem o recurso à interrupção da gravidez em quase todos os casos.

A decisão provocou ondas de indignação (e de celebração) num país já totalmente polarizado. De Hollywood, começaram a chegar inúmeras histórias pessoas de vivências dramáticas e de abortos que marcaram as personalidades e as suas vidas.

“Fiquei extremamente angustiada e ainda hoje me entristece, mas foi o caminho que percorri para chegar a uma vida cheia de amor e alegria”, relata Thurman, que decidiu interromper uma gravidez ainda durante a adolescência, depois de ter engravidado numa relação sexual com um homem muito mais velho.

“Escolher não continuar com essa gravidez precoce permitiu-me crescer e tornar-me na mãe que queria e que precisava de ser”, referiu a atriz, hoje mãe de três. “A todas vocês, mulheres e raparigas do Texas, com medo de ficarem traumatizadas e caçadas pelos predadores; a todas as mulheres enraivecidas por verem os direitos do nosso corpo capturados pelo Estado; a todas vocês que se sentem vulneráveis, que se sentem envergonhadas por terem um útero, digo-vos: estou convosco. Tenham coragem.”

Outra atriz e apresentadora que decidiu recontar a sua história foi Whoopi Goldberg, que decidiu terminar uma gravidez quando tinha apenas 14 anos. No seu programa “The View”, já depois da mais recente decisão do Supremo Tribunal, a atriz recordou o trauma.

“Descobri que estava grávida quando tinha 14 anos. Não me veio a menstruação e eu entrei em pânico”, revelou. “Fiz banhos quentes, bebi umas mistelas estranhas que me recomendaram, whisky com produtos de limpeza, álcool e bicarbonato de sódio. Misturei tudo e fiquei extremamente doente. Nesse momento, tinha mais medo de contar a alguém o que se passava do que ir para o parque com um cabide, que foi o que fiz.”

“É uma decisão difícil, terrível. E se as pessoas não têm o discernimento de começar a conversa com um ‘eu sei que isto é difícil para ti’, mas antes começam por me dizer que [se abortar] vou arder no fogo do inferno, então não estão a olhar para mim como um ser humano, seja eu religiosa ou não, e nada disso é correto.”

Sobre a decisão de 1973, Goldberg assinala que teve como objetivo “possibilitar que as pessoas pudessem abortar em sítios seguros e limpos”. “As mulheres, quando decidem que algo não deve acontecer, vão tomar o assunto pelas suas próprias mãos”, disse. “Já me cansei de encontrar mulheres em casas de banho públicas a tentarem fazer abortos porque não havia nenhum sítio seguro ao qual recorrer.”

Também Ashley Judd revelou ter sofrido com a decisão. Isto depois de uma das três violações de que foi alvo ter resultado numa gravidez. “Estou muito agradecida por ter tido acesso seguro e legal a um aborto”, revelou em 2019. “O violador era do Kentucky, como eu, e eu morava no Tennesse. [Segundo a lei], ele teria direitos de paternidade, portanto teria que criar a criança com o meu violador.”

“Ter tido acesso a um aborto seguro foi importantíssimo e é na nossa pele que a democracia começa. Não é normal que digam o que devemos fazer com o nosso corpo.”

Na onda de indignação que se seguiu à decisão do Supremo, surgiram também novas revelações, como a de Laura Prepon, atriz de “That 70’s Show” e “Orange is the New Black”. A gravidez interrompida aconteceu durante as gravações da série da Netflix e, diz, foi “um dos dias mais difíceis” da sua vida.

“A verdade é que descobri que o feto não sobreviveria à gravidez e que a minha vida também estava em risco. E nessa altura, eu podia escolher”, contou. “Cada mulher tem a sua história e justificação para procurar o aborto.”

Mais dramático foi o caso relatado por Ireland Baldwin, filha de Alec Baldwin e Kim Basinger. Segundo a atriz, teve que recorrer à interrupção da gravidez em duas ocasiões, uma delas depois de uma violação.

“Fui violada quando ainda era uma adolescente. Estava completamente inconsciente quando isso aconteceu e isso mudou toda a minha vida”, contou sobre o segredo que manteve até dois dias depois da polémica decisão do Supremo. Nunca tinha falado sobre isso com os pais.

“Mantive o segredo comigo durante anos e, por causa disso, sofri muito, causei muita dor a mim e às pessoas à minha volta”, revelou. “Ver tantas mulheres corajosas a partilharem as suas histórias fez-me pensar no que poderia ter sido a minha vida se tivesse levado a gravidez avante, se tivesse que ter criado um bebé durante toda aquela fase difícil. E eu tenho dinheiro, apoio e recursos médicos que a maioria das mulheres não tem.”

O segundo aborto aconteceu durante uma relação atribulada. “Decidi abortar porque sei perfeitamente o que é nascer no meio de um casal que se odeia”, explicou. “Escolhi-me a mim própria e voltaria a fazê-lo. É a nossa vida, é a nossa escolha.”

Já Milla Jovovich, atriz de “O Quinto Elemento” e “Resident Evil”, recordou o dia em que, em 2017, foi obrigada a fazer um aborto de emergência. “Entrei em trabalho de parto muito tempo antes do recomendado. Tive que ficar acordada durante todo o procedimento e foi uma das experiências mais horríveis da minha vida”, recordou.

“Ainda hoje tenho pesadelos sobre isso. Estava sozinha e desesperada. Quando penso que há mulheres que têm que fazer abortos em condições ainda piores do que as minhas por causa de novas leis, fico enojada“, explicou. Após a interrupção, Jovovich entrou “numa das piores depressões” da sua vida.

“Tive que fazer uma pausa na carreira, isolar-me durante meses e criar uma fachada forte para poder criar os meus dois filhos”, contou. “No melhor dos cenários, o aborto continua a ser um pesadelo. Nenhuma mulher quer passar por isso, mas temos que lutar para garantir os nossos direitos de podermos fazer um aborto seguro, se assim precisarmos. Nunca quis falar sobre esta experiência, mas não posso permanecer em silêncio quando há tanto em jogo.”

Outro dos relatos mais pesados vem de Hannah Gadsby, a comediante australiana que fez furor com o seu stand-up “Nanette”, na Netflix, onde colocou a nu toda a sua traumática vida e descoberta da sua orientação sexual.

Em 2019, a comediante assumiu também ela ter feito um aborto, a propósito de novas leis restritivas introduzidas no Alabama. “Se eu vivesse nesse estado, com essas leis, sob as ordens desses políticos, nessa fase da minha vida, eu teria morrido. É tão simples quanto isso”, notou.

“Fui sexualmente agredida, fui violada e estava muitíssimo vulnerável. Como é que eu iria conseguir criar uma criança? Como é que isso é ser pró-vida? Não podem dizer às mulheres que não podem abortar e, ao mesmo tempo, não criar quaisquer infraestruturas de apoio.”

Madeline Brewer é uma das protagonistas de “The Handmaid’s Tale”, a adaptação à televisão da obra de Margaret Atwood, que retrata uns Estados Unidos dominados pela doutrina religiosa, onde as mulheres perdem praticamente todos os direitos que tinham até então. Também ela partilhou a sua história, depois da decisão que, estranhamente, aproxima o país à imagem desse mundo distópico da série.

“Fiz um aborto quando tinha 20 anos. Odiei-me a mim própria, ao meu corpo, castiguei-me durante anos, mas nunca, por um segundo, me arrependi do que fiz. Hoje, a vida é minha e mal posso esperar por ser mãe, mas nos meus próprios termos.”

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