Cinema

“Emma.”: filme de Anya Taylor-Joy estreia em Portugal diretamente na televisão

Não é nos cinemas mas na televisão que estreia o novo filme da atriz de "Gambito de Dama". É já este sábado.
Ela está de volta.

Se tudo tivesse corrido dentro da normalidade, é bem provável que já tivéssemos tido oportunidade de ver “Emma.” (assim mesmo, com ponto final no título) numa sala de cinema há já algum tempo. Mas 2020, como bem sabemos, foi o ano em que tudo o que tínhamos como normal foi virado do avesso.

“Emma.” é a mais recente adaptação do clássico romance de Jane Austen, do mesmo nome embora sem ponto final. O filme foi lançado ainda em fevereiro nos EUA e era previsível que tivesse chegado cá entretanto. A pandemia adiou a estreia e esta acontece agora, em exclusivo, não nos cinemas mas na TVCine Top. É já este sábado, 16 de janeiro, pelas 21h30.

O filme é também mais uma oportunidade para nos encontrarmos com aquela que foi a grande atriz de 2020, Anya Taylor-Joy, muito por culpa do surpreendente sucesso na Netflix que foi a minissérie “Gambito de Dama”, onde a vimos, jogada a jogada, a dar toda uma nova dimensão no ecrã ao xadrez.

Este é um daqueles casos em que o filme começou a acertar ainda na altura do casting. Com os seus olhos grandes e expressivos, e a subtileza com que transmite com pouco diferentes expressões, Anya Taylor-Joy tem aqui um daqueles papéis que há-de ter sido um gozo para ela antes ainda de divertir os espectadores.

Emma, a protagonista, é descrita como “bonita, rica e inteligente”. Mas podemos acrescentar algo mimada e entediada, o que faz com que se entretenha a manipular e a trocar as voltas às relações românticas à sua volta. Há algo de ingénuo e intriguista a funcionar ao mesmo tempo na personagem. Vamos habituar-nos desde início a vê-la a fazer a coisa errada (ao mesmo tempo que a tentamos defender).

Numa história passada num mundo opulento, cheio e preocupações com as aparências, como é típico da Inglaterra do século XIX, Emma diverte-se pondo e dispondo de relações, montando casais como quem (perdoem-nos a referência) distribui peças de xadrez no tabuleiro. Claro que tudo isto é feito com pouco cuidado perante as consequências, que serão sempre inevitáveis.

Há humor e provocação.

“Orgulho e Preconceito”, “Sensibilidade e Bom Senso” e “Mansfeld Park” são obras que foram lançadas no espaço de poucos anos, entre 1811 e 1814, e que mais de 200 anos depois continuam a merecer novas versões no ecrã. “Emma.” foi lançado logo depois, em 1815, e é uma da últimas grandes criações desse prodígio que foi Jane Austen.

As suas histórias eram invariavelmente passadas entre romances aristocratas, gente rica com muitas preocupações com a imagem pública, a honra e fortuna. É um universo limitado, é certo, mas convém não desvalorizar o que há pouco mais de 200 anos aconteceu.

Num mundo que era então exclusivamente dominado por homens, o da literatura de renome, Jane Austen não se tornou apenas autora de nome próprio. Tornou-se figura influente, uma precursora, que se distinguiu entre os seus contemporâneos, explorando as fronteiras de então do romance britânico. Austen morreu em 1817, aos 41 anos. Suspeita-se que terá sido doença de Addison a causa. Entre os 20 e os 40 anos de idade, criou um legado nas letras que ainda hoje cativa leitores (e espectadores).

“Emma” em particular já deu lugar a peças de teatro, a um telefilme da BBC de 1948, a uma minissérie (de 2009) além de uma série de outros filmes que, de forma mais ou menos ancorada na obra original, se inspiraram na sua história.

O filme marca a estreia em longas-metragens de Autumn de Wilde, fotógrafa conhecida no mundo do rock, autora de capas de álbuns de gente como Fiona Apple, Elliot Smith, The White Stripes ou Beck, de quem também realizou vários videoclipes.

As suas influências mais visíveis aqui, no entanto, talvez não sejam tanto do universo do rock mas de uma certa pop cinematográfica. Em certo momentos parece piscar um pouco o olho a Wes Anderson. Não com o mesmo primor e toque original, claro, mas a realizadora aproveita os cenários, mansões e vestidos desta Inglaterra de outros tempos para se entreter entre cores e bom humor.

Esta é uma história de relações feitas e desfeitas, sem dúvida, mas é acima de tudo uma história de alguém a crescer e que, nesse entretanto, se diverte alimentando novelas no mundo à sua volta. É uma excêntrica subtileza que podemos admirar. E podemos contar com Anya Taylor-Joy para aquele desafio sempre difícil de aprendermos a gostar de um protagonista que, de tão egoísta, tem tudo para que não gostemos dela.

No elenco de “Emma.” estão também nomes como Gemma Whelan, Letty Thomas ou Miranda Hart. Um dos destaques, no entanto, terá de ir para Bill Nighy, que aqui interpreta o pai de Emma. É um daqueles casos em que cada vez que o vemos Bill Nighy parece cada vez mais parecido com ele próprio. E no entanto conserva sempre uma dose especial de humor.

Não é no cinema que conheceremos “Emma”, mas o momento de estreia não poderia ser mais apropriado, agora que o País começou novo período de confinamento. Nada como escapar por momentos para outro século, noutro país, para lidarmos problemas e dúvidas bem mais mundanas do que as destes tempos que vivemos.

Aproveite também para ler o artigo da NiT sobre a atriz do momento, cuja carreira explodiu em 2020.

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