Cinema

Escândalos sexuais e zangas em estúdio: Hugh Grant é o falso bom rapaz

É o próprio, acima de todos, quem o diz. A imagem de cavalheiro tem irritado o protagonista de "The Regime", que já estreou.
Não é assim tão bonzinho.

Nos Óscares de 2023, uma entrevista constrangedora de Hugh Grant tornou-se viral quando o ator respondeu de forma seca a Ashley Graham, uma das apresentadoras da pré-cerimónia. Muitos se apressaram a usar as redes sociais para criticar o comportamento da estrela de 63 anos. Outros tantos vieram defendê-lo, salientando que ele apenas tinha sido sincero e que também se poderia dever ao seu humor britânico.

A verdade é que, ao longo dos anos, construiu-se uma imagem de Hugh como um cavalheiro britânico sensível e charmoso. A culpa, claro, é dos papéis ternurentos que foi interpretando e com que se tornou conhecido. Mas, como o ator bem tentou avisar, isso não poderia estar mais longe da verdade. Em “The Regime“, que estreou neste domingo, 3 de março, na HBO Max, dá finalmente vida a alguém pelo qual não nos apaixonamos.

“Fico muito irritado quando as pessoas pensam que sou simpático ou um cordial cavalheiro inglês”, disse, numa entrevista à “Entertainment Weekly”, em 2016. “Sou uma carga de trabalhos rude e as pessoas deveriam sabê-lo.”

Aquele momento nos Óscares pode ter sido o incidente mais recente, mas houve outro num dos seus filmes mais recentes, “Dungeons & Dragons: Honra Entre Ladrões” — que estreou nos cinemas portugueses a 30 de março de 2023. Hugh Grant arrasou uma mulher que estava no set de gravações a acompanhar um dos jovens atores.

“Perdi a cabeça com uma mulher no primeiro dia de gravações”, disse o próprio numa entrevista. “Presumi que ela era uma executiva do estúdio que deveria saber melhor. Fiz uma à Christian Bale”, disse, referindo-se ao incidente de 2008 em que Bale arrasou por completo um membro da equipa nas filmagens de “Exterminador Implacável: A Salvação”, o que também provocou um escândalo.

A carreira de Hugh Grant arrancou com “Quatro Casamentos e um Funeral”, em 1994. Na altura foi o filme britânico mais bem-sucedido dos cinemas e foi nomeado para dois Óscares. Foi o trabalho que abriu as portas de Hollywood para o ator — que muitos acreditam ser de um contexto social privilegiado pela sua maneira de ser ou falar, mas que o próprio também já fez questão de corrigir em diversas entrevistas, frisando que a sua família não era rica e que o seu primeiro trabalho foi lavar latrinas num pub.

Após o sucesso deste filme, Grant rumou aos EUA para gravar “Nove Meses”, outra comédia romântica, onde contracenaria com Julianne Moore, com Robin Williams e Jeff Goldblum também no elenco. Foi com este último que Grant decidiu sair para uma noite de copos em 1995, para desanuviar de dois dias de extenuantes entrevistas de promoção do filme, cuja estreia estava marcada para daí a duas semanas.

O ator de 34 anos fechou a noite pouco depois da uma da manhã e sentou-se ao volante do seu BMW branco. Só que em vez de dirigir de volta ao hotel de Beverly Hills, onde estava alojado, partiu rumo à famosa Sunset Strip. Encostou na berma, a poucos metros de Estella Marie Thompson. A jovem de 23 anos entrou no carro e juntos dirigiram até uma zona residencial a pouca distância.

“Sempre quis dormir com uma mulher negra. É a minha fantasia”, terá alegadamente dito Grant, numa conversa revelada mais tarde pela mulher, mais conhecida pelo nome profissional, Divine Brown. Impaciente, o ator pagou apenas por sexo oral, prontamente interrompido pela polícia, que foi alertada pelo piscar insistente das luzes de stop.

Grant e Brown foram imediatamente levados para a esquadra da polícia. Em pouco tempo, os retratos de ambos circulavam por todo o mundo. O gentleman britânico tinha sido apanhado num ato sexual com uma prostituta nas ruas de Los Angeles. Era acusado de comportamento indecente e de solicitação de serviços sexuais. Pior do que enfrentar o juiz por estes crimes, era ter que lidar com os efeitos nefastos de um escândalo sexual.

Na altura, Hugh Grant era visto como o homem ideal — e formava o casal perfeito com a atriz e modelo Elizabeth Hurley, com quem estava desde 1987. Ser apanhado a trair a sua mulher com uma prostituta no momento em que se mostrava a Hollywood e promovia a sua comédia romântica revelou-se um enorme escândalo sexual.

“Em que raio estavas a pensar?”, questionou o famoso apresentador norte-americano Jay Leno, quando recebeu Hugh Grant por aqueles dias no seu talk show. E, naquele momento, o ator deu por resolvida a situação junto da opinião pública. Basta ver o vídeo da entrevista para detetar os pequenos trejeitos e tiques que o tornaram numa célebre figura cinemática. O gaguejar hesitante, os maneirismos desconfortáveis, o olhar que nunca se fixa diretamente em ninguém. Tudo fazia parte do charme do craque das comédias românticas.

A estratégia foi magistral. Desarmou-se a si próprio ao fazer pouco das teorias que desculpavam o ato — pelo caminho, suavizou a plateia ao provocar uma explosão de riso — e assumiu tudo. “Na vida, sabemos bem o que é uma coisa boa e uma coisa má. E eu fiz uma coisa má. Aí têm”, explicou, antes de ser recebido com uma salva de palmas.

Em tribunal, sob uma tempestade mediática, teve de enfrentar a possibilidade de receber uma sentença de pena de prisão de seis meses. Acabou por apenas ser obrigado a pagar uma multa de mil euros e a frequentar um curso de consciencialização sobre os perigos da SIDA. 

Em 1995, temia-se que o escândalo pudesse terminar com a carreira em ascensão do ator. “Se isto acontecesse ao Sean Penn ele safava-se. O Hugh Grant, não. Todas as mulheres na América queriam ir beber uma cerveja com ele. Agora só dizem ‘ugh’”, revelou uma produtora de cinema à “People”. Mas não foi nada disso que aconteceu. 

O ator voltou a trabalhar com Richard Curtis, o cineasta de “Quatro Casamentos e um Funeral”, em filmes como “Notting Hill” e “Love Actually” — que foram outros estrondosos sucessos e reafirmaram o nome de Grant como uma autêntica estrela das comédias românticas. Também foi Curtis quem ajudou o ator a assegurar o papel de Daniel Cleaver em “O Diário de Bridget Jones”, já que o realizador co-escreveu este filme.

“O Richard Curtis, que escreveu todas aquelas comédias românticas… Sempre lhe fez rir o facto de as pessoas acharem que eu era um cavalheiro inglês simpático, porque ele sabia que a verdade era totalmente o oposto. E é muito bom estar mais perto de casa”, disse, referindo-se ao facto de ter passado a interpretar mais papéis de vilões nos últimos anos.

Além disso, Hugh Grant tornou-se conhecido por se dar mal com as suas co-protagonistas femininas. As suas referências à “boca grande” de Julia Roberts tornaram-se famosas — tanto era em relação à dimensão física da sua boca, como ao facto de falar “demasiado”. 

“A Julianne Moore é uma atriz brilhante. Despreza-me. A Rachel Weisz é inteligente, linda. Odeia-me. A Drew Barrymore? Fi-la chorar. Tem uma cara estonteante de estrela de cinema. Detesta-me”, disse sobre algumas das suas colegas ao longo dos anos. 

Em 2009, incompatibilizou-se com o apresentador Jon Stewart, noutra entrevista que se tornou polémica. “Está a dar merdas a toda a gente durante o tempo inteiro, e foi um grande chato. E nós tivemos ditadores no programa”, disse, quando se justificou porque escolheu Hugh Grant como o seu pior convidado de sempre no “Daily Show”. 

Grant respondeu pouco depois no Twitter, dando razão a Stewart — embora tenha falhas, não podemos dizer que o ator tenha problemas em admiti-las. “Parece que o meu caranguejo interior levou a melhor de mim. Indesculpável. J Stewart foi correto.” E depois acrescentou em declarações à “Vanity Fair”: “Tive uma birra nos bastidores. Mais ou menos uma vez por ano, tenho uma mega birra, e infelizmente ele assistiu a uma”.

Seja como for, no que toca à sua carreira, Hugh Grant sabe desde o escândalo sexual dos anos 90 que pouco importa a sua imagem — desde que continue a fazer dinheiro para os grandes estúdios de cinema. “As pessoas achavam que eu era aquela personagem simpática do filme. Suponho que o contraste entre essa pessoa e este mau comportamento era um tema picante. E percebo porque é que se tornou numa história tão grande”, afirmou à “CBS” em 2016. Embora nunca tenha perdido a imagem simpática que quase todos guardam de si.

Além de confessar que toda a polémica não passou de um “soluço” na carreira, concluiu que Hollywood apenas se preocupa em fazer dinheiro. Nada mais. “O filme [‘Nove Meses’] correu bem. E, sim, é só isso que importa. Enquanto os ajudes a fazer dinheiro, eles não querem saber do que é que tu fazes.”

Há quem adore trabalhar com ele

Se certas pessoas tiveram más experiências com Hugh Grant (como a mulher que estava no set de gravações de “Dungeons & Dragons), há quem goste muito de trabalhar com o galã britânico.

Kate Winslet, por exemplo, só tem elogios a fazer ao ator com quem trabalhou em “The Regime”, a nova série da HBO Max. Esta produção sombria e cómica de seis episódios conta a história da vida dentro dos muros de um regime autoritário moderno à medida que este se começa a desmoronar.

Depois de algum tempo sem sair do palácio, a chanceler Elena Vernham (Winslet) começa a entrar em paranoia e a sentir-se instável quando recorre a um soldado volátil, Herbert Zubak (Matthias Schoenaerts), como um confidente improvável.

À medida que a influência de Zubak sobre ela continua a crescer, as tentativas de Elena de expandir o seu poder acabam por resultar na fratura do palácio e do país à sua volta. 

Aqui, Grant dá vida a um rival da protagonista. A sua personagem acaba por ser presa, despoletando inúmeros protestos na região — e provando ser um grande obstáculo ao regime de Elena.

Não é a primeira vez que contracenam. Em 1995 ambos integraram o elenco de “Sensibilidade e Bom Senso”, baseado no livro bestseller de Jane Austen. “Não o via desde aquela altura, que já foi há muito tempo: três décadas”, contou a atriz de 48 anos à “People”. A experiência foi “fantástica”.

Assim que o viu, sentiu-se entusiasmada para lhe mostrar a sua evolução — afinal, tinha apenas 20 anos quando apareceu no fenómeno dos anos 90. “Pude apresentar-lhe uma versão mais crescida de mim mesma”, brinca, acrescentando que tudo correu “da melhor maneira e foi uma ótima experiência”.

Hugh também tem coração

A 25 de dezembro, Hugh não passou o Natal apenas com a família. Naquela data, decidiu usar a sua influência para ajudar a comunidade, e esteve a servir refeições a idosos num evento especial em Londres.

A iniciativa foi organizada pelo município de Hammersmith e Fulham, que convidou todas as pessoas séniores que não tivessem famílias com as quais pudessem estar no Natal. Hugh aproveitou a ocasião para melhorar ainda mais o dia de todos os presentes.

“Obrigado a todos os que se juntaram ao nosso almoço anual, incluindo um convidado muito especial: Hugh Grant. Ele ajudou-nos a servir refeições a 500 idosos locais que, se não fosse isto, estariam sozinhos”, disse Ben Coleman, presidente da localidade.

A refeição também foi uma forma da Câmara arrecadar dinheiro para a edição do próximo ano. No total, juntou 46 mil euros. Segundo o que explicou Ben, esta medida é financiada inteiramente “pelos habitantes, pelas doações de empresas e através da Internet”.

 

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