Cinema

“Este filme foi uma reação aos primeiros meses do confinamento”

“Diários de Otsoga”, que é como quem diz “agosto” ao contrário, já está nos cinemas. A NiT falou com Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro.
"Diários de Otsoga" foi gravado em agosto de 2020.

Um ano depois das gravações, e após ter estreado mundialmente no festival de Cannes, chega esta quinta-feira, 19 de agosto, aos cinemas. Falamos de “Diários de Otsoga”, o novo filme realizado e escrito por Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro, casal de cineastas que se inspirou no confinamento para partir para este exercício criativo.

Uma pequena equipa, testada à Covid-19, fechou-se numa casa em Sintra em agosto de 2020. O objetivo? Criarem um filme — cronologicamente ao contrário —, com cenas totalmente ficcionadas mas também baseadas em acontecimentos reais que decorreram naquelas semanas.

Tal como noutros filmes de Miguel Gomes, há uma vertente de improvisação — e a própria equipa técnica acaba por aparecer à frente das câmaras. Os únicos atores foram Carloto Cotta, Crista Alfaiate e João Nunes Monteiro, que interpretaram personagens com os próprios nomes — talvez versões diferentes deles mesmos. A NiT entrevistou a dupla de cineastas sobre o novo projeto.

“Diários de Otsoga” foi gravado há um ano, em pandemia, convosco e uma equipa mais ou menos reduzida que se fechou numa casa em Sintra. Em que momento e como é que começaram a pensar que queriam fazer este projeto?
Maureen Fazendeiro: Eu acho que este filme foi uma reação aos meses do primeiro confinamento. Quando acabou o primeiro confinamento fomos visitar a Crista Alfaiate, atriz do filme, e foi nesse dia que conversámos com ela sobre a ideia de fazermos algo juntos. Houve muito pouco tempo entre a ideia e o momento das filmagens. Era uma resposta àquilo que atravessámos, aos meses que passámos sozinhos em casa, e nós sentimos a necessidade de reencontrar os outros, de reunir uma equipa e de fazermos algo juntos. O filme nasce desse tempo que passámos juntos na casa.

Miguel Gomes: Pensámos em fazer um diário de confinamento com todos os ingredientes que o nosso confinamento não teve. Ou seja, o confinamento era cada um isolado em sua casa, e nós queríamos fazer uma coisa em grupo. Queríamos não filmar com o telemóvel na sala, mas filmar em película com uma equipa, com atores, em exteriores. E portanto decidimos ir para uma casa, fazer testes PCR. Foi uma coisa muito rápida, não tínhamos argumento, e tínhamos que descobrir o filme dentro daquela casa — e não podíamos sair.

E foi o que aconteceu?
MG: Com algumas exceções [risos]. Porque este filme é muito permeável à vida, ou seja, aconteceram coisas nas nossas vidas que obrigaram alguns de nós a sair. Algo disso está no filme, outra parte não, pertence à nossa vida privada, porque não temos de mostrar tudo, não é o “Big Brother”. Mas a ideia era ficarmos fechados para que houvesse um risco mínimo de contaminação. Naquela altura o que se falava em todo o lado era que era impossível voltar a fazer cinema como se fazia antes da pandemia. Ou seja, cenas de intimidade entre atores estavam completamente postas de parte. Cenas de beijo, a coisa mais simples do cinema estava posta de parte, era uma coisa muito difícil. E nós decidimos: bom, então neste caso temos de fazer um filme que começa com um beijo. E temos que inventar uma maneira de filmar essa cena sem grande risco para os atores. E conseguimos.

O filme tem uma forte vertente de aparente improvisação, e é um registo que está presente noutros filmes do Miguel. O processo tem a ver com captar muitos momentos espontâneos e encontrar o filme na edição? Ou não é assim que gostam de descrever o processo?
MF: Não é bem assim porque, apesar de não haver argumento, o filme foi escrito à medida que ele foi feito na casa. Então não foi inventar o filme na montagem: o filme já lá estava, o diário foi o que aconteceu na casa dia após dia. Mas, por exemplo, já sabíamos que o filme ia ser montado ao contrário, que o tempo ia andar para trás. Já tínhamos o movimento do filme e, depois, a improvisação foi trabalhada com os atores — houve momentos de improviso que foram repetidos. E depois a cada dia incorporámos o que acontecia dentro da casa.

MG: Se um ator tinha dor de dentes, nós não sabíamos o que iria acontecer passados dois dias. Podia ter que arrancar um dente, podia ser amputado, não sabíamos ao que aquele acontecimento poderia levar. E a ideia seria incorporar desde início e depois logo se via no que é que aquilo dava. E há uma cena, por exemplo, em que um dos atores tem uma dor de dentes e nós colocámo-lo com uma coisa à volta da cabeça, porque não sabíamos o que é que ia acontecer, se aquilo iria ter uma sequência. E, portanto, quando fazemos um filme que é muito permeável à nossa própria vida, temos que arranjar uma maneira de, sem perder o controlo da estrutura do filme, da ideia que temos para aquilo que se vai desenrolar, de poder ter espaço para incorporar as coisas porque elas podem ter uma relevância muito grande no filme. Mas nós não conseguimos prever isso porque temos de seguir o curso do tempo e da vida. 

Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro dirigiram o filme.

Nunca houve receio do vosso lado que faltem esses acontecimentos relevantes que não conseguem prever?
MG: Não, porque, repara, alguns acontecimentos foram importantes e tiveram peso na nossa vida, durante aquele momento em que estávamos a filmar. Nomeadamente a Maureen, que estava grávida, teve um stress com a gravidez e teve que mudar completamente de regime, a maneira como ela estava a viver aquela rodagem teve de se alterar — e isso está no filme e tem peso e importância na nossa vida — mas também quando falamos de acontecimentos do filme pode ser um dos atores, como o Carloto, que dizia “hoje está-me a apetecer dar banho ao cão. Querem filmar?” E nós ou dizíamos que sim ou que não. Por acaso, nesse dia dissemos que sim, por isso vê-se o Carloto a dar banho ao cão. O dar banho ao cão não é propriamente um acontecimento cósmico na vida do Carloto, nem do cão, acho eu [risos], mas tinha de haver espaço no filme para o quotidiano. Nós vínhamos de um momento em que os nossos quotidianos ficaram suspensos. E soube-nos muito bem voltar a juntar-nos e filmar coisas mais extraordinárias ou completamente banais — mas mesmo essa banalidade era qualquer coisa que tinha ficado um bocado desaparecida com aquela fase do primeiro confinamento. Tinha que haver espaço no filme para estas coisas todas.

Os atores têm os mesmos nomes que as personagens. Também é aí que está o interesse em haver um cruzamento entre realidade e ficção, e não se saber onde começa uma coisa e acaba a outra, é isso?
MF: Sim, nós nem sabemos se eles chegam a ser personagens, ou se chega a haver uma ficção no sentido mais convencional.

MG: Eu acho que eles são sempre personagens.

MF: Sim, sim, ou seja, não sabemos se chega a haver uma ficção no sentido convencional, mas quer os atores, quer a equipa técnica, somos todos sempre personagens. O filme é uma ficção pura, não é um documentário sobre uma rodagem. Tem cenas completamente inventadas, outras inspiradas no que aconteceu realmente, mas é uma ficção.

MG: Quando se liga a câmara, um ator profissional, imediatamente, mesmo que não tenha indicações nenhumas, começa a fazer uma personagem. Se tem de fazer dele próprio, começa a fazer uma versão dele próprio que ele acha que serve aquele filme. E isso é uma coisa fascinante para nós de assistir, era ver aqueles três atores a fazerem deles próprios de uma maneira muito distante de como eles são quando a câmara estava desligada. 

Ter o filme em estreia no festival de Cannes é algo muito importante e valioso, ou também sobrevalorizado?
MF: Acho que é importante, o festival de Cannes é importante [risos]. E foi importante voltar ao cinema, não havia restrições no festival, houve uma sala cheia, foi importante mostrar o filme e sentir a receção de uma sala cheia a rir muito. Não tínhamos visto um filme em sala com tanta gente a rir há muito tempo.

MG: Claro, é o maior festival do mundo. Desta vez foi um bocadinho menor, porque havia uma série de restrições, com uma série de pessoas de outros continentes. Havia poucos asiáticos, poucos sul-americanos, e sentiu-se isso, que o número de pessoas era menor. Apesar de tudo chegava para encher uma sala e esteve exposto a um olhar de muita gente, de vários sítios, e claro que é uma coisa importante.

O vosso plano, neste momento, é continuarem a fazer filmes juntos?
MF: Não, acho que este momento foi um momento particular, quer nas nossas vidas, quer na vida de toda a gente. E a nossa resposta a isso foi fazer este filme juntos, e quase em coletivo com a equipa. Mas nós temos outros projetos que ficaram parados durante a pandemia, cada um tem os seus. Eu sou argumentista com o Miguel em projetos dele. E agora vamos retomar aquilo que parou há um ano e meio.

MG: Enfim, nós já partilhamos a nossa vida, e portanto já é trabalheira o suficiente para termos que acrescentar mais coisas em cima disso [risos]. Mas este filme de facto foi uma reação a esse momento de isolamento e acho que é muito sobre essa reinvenção da distância social. Ou seja, era e é obviamente necessária, mas tentámos inventar uma maneira de poder pelo menos relativizar essa distância e tínhamos uma vontade grande de estar com outros. A vida com outros, viver juntos, trabalhar juntos: o filme é sobre isso. E nós tínhamos que dar o exemplo e começar por partilhar a realização e ter uma colaboração, uma parceria que tem de negociar o que se filma e o que não se filma.

Portanto, a ideia é prosseguir com outros projetos que já estavam pensados antes da pandemia.
MG: Quer a Maureen quer eu tínhamos outros projetos que ficaram suspensos com a pandemia e nesse momento nós pensámos: qual é que é o filme possível de fazer neste contexto? Um filme que nos pareça interessante, que tenha a ver com este tempo, que possa ser um retrato deste tempo ou um retrato nosso neste tempo. Mas que tenha características que, até quase se oponham a este tempo, ou que funcione como um antídoto. Foi esse o desafio, pensámos que tínhamos que fazer qualquer coisa. Era um momento muito delicado, para as pessoas que trabalham em cinema e nas artes em geral: o teatro. Estava toda a gente paralisada, não havia a possibilidade de fazer espetáculos, de fazer filmes, o ministério da Cultura assobiou para o lado e disse que os apoios eram com a Segurança Social, sendo que a Segurança Social tem com este setor uma relação muito complicada, porque é uma profissão muito particular, com um contexto muito particular. Portanto, a maior parte das pessoas ou não recebia nada ou não tinha apoios nenhuns ou tinha apoios muito, muito pequenos. Obviamente não podíamos salvar, não somos o ministério, mas podíamos fazer um filme, é esse o nosso trabalho. E portanto pensámos: qual é o filme que podemos fazer em que possamos incluir outras pessoas? E apareceram os “Diários de Otsoga”

Um dos projetos que o Miguel tinha estado a preparar chamava-se “Selvajaria”, não é?
MG: É um projeto que se passa no Brasil, um filme de guerra, uma adaptação de um livro do Euclides da Cunha e é um filme que aborda uma guerra civil no final do século XIX. E que é muito complicado, com muita gente, com muitos cavalos, com muitos tiros de canhão, e é completamente impossível de fazer no contexto atual. A Covid-19 no Brasil é particularmente dramática. Esse filme está financiado e aguarda um contexto mais favorável para poder ser feito, porque agora é completamente impossível.

Sendo assim, no que é que vai trabalhar agora?
MG: Tenho um filme que se passa na Ásia, e é uma Ásia real, que nós já filmámos em vários países, mas também em estúdio. Também não é fácil de fazer neste momento, mas é menos complicado do que um filme de guerra no Brasil. Vamos primeiro tentar fazer esse filme e é sobre homens e mulheres [risos], a relação entre homens e mulheres. Talvez seja um filme de amor, talvez não, mas primeiro tenho que o fazer e depois logo vemos. Chama-se “Grand Tour”.

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