Cinema

Sabia que o som de “Dune” (e não só) foi criado com um software português?

Um professor universitário de Leiria criou um programa de computador usado pelos grandes estúdios de Hollywood.
O Sound Particles foi usado no novo "Dune".

De Leiria para o mundo. Foi assim a jornada épica do Sound Particles, um software criado por Nuno Fonseca. O antigo professor universitário, especialista em engenharia informática e na área do som, desenhou um programa que agora é usado por todos os grandes estúdios de Hollywood. A última vez que foi utilizado foi no novo “Dune”, de Denis Villeneuve, que estreou nos cinemas em outubro.

Nuno Fonseca começou a dar aulas no Instituto Politécnico de Leiria em 2001. Em simultâneo, a partir de 2012, deu aulas na Escola Superior de Música de Lisboa. Apaixonado por cinema e som, há década e meia começou a desenvolver uma ideia que iria mudar a forma como se sonorizam as grandes produções.

“Há uns 15 anos, apercebi-me de que os efeitos visuais mais giros que via no cinema usavam sistemas de partículas — uma técnica usada em computação gráfica quando queremos criar milhares ou milhões de fontes para simular fogo, fumo ou tempestades de areia ou pó de fada”, explica Nuno Fonseca, de 46 anos, à NiT.

“Na altura, achei interessante fazer a mesma coisa mas com som. Imaginei poder criar milhares de pequenos sons que, depois, todos juntos, criavam sonoridades absolutamente fantásticas. Mas foi só uma ideia.”

O objetivo era criar algo equivalente à forma como se criam os efeitos visuais no cinema. De uma forma rápida e prática, mas com resultados consistentes. “Imaginando que é preciso o som de uma batalha épica, a abordagem tradicional seria agarrar num programa de áudio e começar a pôr uma explosão aqui, outra acolá, depois um tiro, uma metralhadora… E, provavelmente, passado um dia de trabalho teria 50 sons a tocar ao mesmo tempo. Com o Sound Particles consigo em 15 minutos dizer que quero 10 mil sons espalhados por um quilómetro quadrado, colocar os sons a mexer como se fossem guerreiros e pôr um microfone virtual no meio da cena a captar toda esta panóplia sonora.”

Em 2012 pôs mãos à obra e começou a desenvolver o Sound Particles, um “projeto pessoal” a que se dedicou durante 24 meses. Em 2014 já tinha um protótipo. Ia a uma conferência em Los Angeles, nos EUA, e resolveu enviar “meia dúzia de emails a pessoas que trabalhavam na área do som nos estúdios de cinema”. Explicou que o software poderia ser particularmente relevante para grandes produções de filmes e séries épicas, com batalhas, ou que requerem apenas o simples ruído de uma praça popular numa grande metrópole.

“A primeira resposta que tive foi do Skywalker Sound, que me convidou a ir ao Skywalker Ranch fazer uma apresentação para a equipa de sound design deles. É o estúdio mítico criado pelo George Lucas aquando de ‘Star Wars’ e hoje em dia é o maior estúdio de som para cinema que existe em todo o mundo.”

Nuno Fonseca é o CEO da Sound Particles.

Seis meses depois estava a dar palestras na Universal Pictures, na Warner Bros., na Sony, nos estúdios da Fox e n Paramount. Mais tarde, foi apresentar o seu software à Disney, Pixar, Apple e Google. Na altura, só tinha o protótipo. Depois da visita ao Skywalker Ranch, perguntaram-lhe quando poderiam começar a experimentar. Era preciso mais um mês ou dois de afinações. Assim que terminou esse período, enviou a versão beta para os sound designers. 

No ano seguinte, em 2015, o software foi usado pela primeira vez num filme, no mal-amado remake de “Poltergeist”. Em dezembro desse ano foi lançada a primeira versão pública do programa informático — e a partir daí começou a ser vendido a qualquer interessado. Desde então tem sido um sucesso. Em 2018, Nuno Fonseca deixou mesmo a carreira de professor para se dedicar a tempo inteiro à empresa Sound Particles, da qual é CEO. Apesar de acreditar no projeto, não pensou que fosse tão bem aceite — e de forma tão rápida — no mercado.

“Qual é a probabilidade de alguém em Leiria fazer um software para ser usado pelos estúdios de Hollywood, ainda por cima em grandes produções? Mas que há alturas em que precisamos de ser um bocado ingénuos ou convencidos e acreditar que as coisas vão acontecer. E era daquelas coisas que, mesmo que ninguém utilizasse o software, era algo que me estava a dar um gozo enorme criar. Acabei por ter a sorte de os estúdios o usarem também.”

Além do novo “Dune”, nos últimos anos o Sound Particles tornou-se um software comum em Hollywood. Foi utilizado para criar bases sonoras para “Star Wars: A Ascensão de Skywalker”, “Mulher-Maravilha”, “Ready Player One”, “Frozen II”, “Maléfica”, “Alita: Anjo de Combate”, “Aquaman”, “Liga da Justiça”, “A Guerra dos Tronos”, “Westworld”, “Carros 3”, “Guardiões da Galáxia Vol. 2” ou “The Walking Dead”, entre outras produções.

Mais recentemente, começou também a ser usado pela indústria dos videojogos, que tentam replicar os efeitos visuais e sonoros cinematográficos. A Epic Games e a Blizzard são duas das maiores empresas que trabalham com o programa português — e o Fortnite é um dos jogos que usam o programa.

“As coisas acabaram por acontecer de forma muito simples e com muita sorte à mistura [risos]”, diz Nuno Fonseca. Mas a lista de projetos em que o Sound Particles foi usado até pode ser muito mais vasta. “Na maior parte dos casos passa-nos ao lado, da mesma forma que alguém que compra o Word não diz à Microsoft que escreveu um livro com o processador de texto [risos]. Mas é sempre bom nós sabermos que o software foi usado no filme A ou B.” 

Apesar de, habitualmente, não existir grande proximidade entre os developers e os criativos que usam o programa, já foram contactados algumas vezes para fazerem um acompanhamento de certos trabalhos ou prestarem algum apoio. Em “Ready Player One”, de Steven Spielberg, ajudaram a desenvolver o som para uma cena com cerca de 200 lasers. Noutra ocasião, Nuno Fonseca estava numa visita ao Skywalker Ranch (um local que agora frequenta com regularidade) quando foi chamado por um dos sound designers.

“Estava simplesmente a atravessar o corredor e o sound designer viu-me passar e disse: se tiveres uns minutinhos, estou aqui de volta do novo filme de ‘A Múmia’, em que entra o Tom Cruise, e ando às voltas com uma cena. Se tiveres algum tempo gostava de experimentar contigo criarmos alguns sons. Estivemos lá uma hora a fazermos experiências e brincadeiras para uma cena em concreto, que inclui a destruição massiva de Londres.”

Desde que o software foi lançado, a empresa tem crescido cerca de 70 por cento todos os anos. Em 2020 houve uma quebra, porém, porque a pandemia suspendeu todas as produções na indústria do cinema e televisão. Este ano já recuperaram superaram para os números do ano passado.

Nuno Fonseca, que tem agora uma equipa própria a dedicada a 100 por cento ao programa, está constantemente a pensar em desenvolver novas funcionalidades. Além da ficção audiovisual e videojogos, agora vê-se a explorar a área da música.

“Por um lado, começámos a fazer alguns plugins em que se pode utilizar o som 3D, a posição do som no espaço de uma forma mais criativa, para músicos e produtores. E uma das coisas que queremos ter na próxima versão do Sound Particles — que vai sair daqui a alguns meses —, são algumas funcionalidades na área da música para que alguém possa criar o som de 100 bateristas ou 50 violinos a voar à volta de uma pessoa ou coisas desse género.”

Carregue na galeria para conhecer alguns dos principais filmes que vão estrear até ao final do ano — talvez alguns deles tenham utilizado o Sound Particles.

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