Cinema

Estivemos nas filmagens do filme que vai contar a história de Salgueiro Maia

Estreia em outubro e Tomás Alves é o protagonista. Esta foi a primeira produção nacional a ser filmada depois da quarentena.
Tomás Alves é o protagonista.

Lisboa, 26 de junho. A capital portuguesa pode estar no estranho ano de 2020, mas dentro da Academia Militar da Estefânia são os anos 60 que estão a ser recriados. O motivo? As gravações de “Salgueiro Maia — O Implicado”, o filme que vai contar a história de vida do grande herói do 25 de Abril.

Ainda hoje é ali que muitos soldados treinam e estudam, apesar de toda a realidade à sua volta ser diferente — nomeadamente, não correm o risco de serem enviados para África para combaterem na trágica Guerra do Ultramar. Quando Fernando Salgueiro Maia ali entrou, em 1964, vindo de Pombal, não demoraria muito tempo até receber o destino que tantos outros jovens portugueses tinham na altura: ir para as colónias ultramarinas para lutar contra os movimentos independentistas.

Hoje, é a sua história que está a ser contada — apesar de Salgueiro Maia, com a postura humilde pela qual ficou conhecido, nunca se ter considerado um herói. “Salgueiro Maia — O Implicado” estreia a 1 de outubro nos cinemas e foi realizado por Sérgio Graciano, a partir de um guião de João Matos que adaptou a biografia do militar escrita por António de Sousa Duarte.

Está um calor abrasador nesta sexta-feira de 26 de junho quando a NiT chega à Academia Militar da Estefânia. Os soldados responsáveis pela vigilância e entrada e saída do local estão já habituados à parafernália cinematográfica que ali se instalou há largas semanas — afinal, a academia militar serviu como base a muitos dos décors desta história.

Apesar de não estarem fardados e conseguirem estar de T-shirt e calções, os elementos da produção também sofrem com o calor — sobretudo porque tudo tem de ser feito com máscaras de segurança colocadas na cara, fruto das normas de segurança por causa da Covid-19. Todos os atores e elementos do staff tiveram de ser testados ao vírus antes do início da rodagem.

Sérgio Graciano não tem dúvidas de o desafio que representa este ser o primeiro filme português gravado no pós-quarentena — mas ainda durante a pandemia, com centenas de casos diagnosticados todos os dias.

“O maior desafio de todos é fazer um filme com máscaras e álcool-gel e tudo. É horrível porque estamos muitas horas com máscaras na cara. Entretanto chegámos ao verão e é muito mesmo quente. É difícil mas é necessário, temos que fazê-lo. E tem corrido bem, estamos a acabar, ninguém adoeceu.”

Sérgio Graciano é o realizador.

A cinco dias de terminarem a rodagem, este não era o objetivo original quando o plano de produção foi feito. Faltavam apenas três dias para começarem as filmagens quando o isolamento se tornou na realidade de todos os portugueses. Ainda assim, o realizador considera que há pontos positivos a tirar das circunstâncias.

“Acho que até amadurecemos algumas ideias. Nós tínhamos estado a ensaiar cinco semanas com os atores. Entretanto foi declarada a quarentena e nós íamos arrancar as filmagens três dias depois. Parámos, deu para cimentar algumas coisas que se calhar não tínhamos tão bem pensadas. Acho que até acaba por ter sido bom, era um filme diferente. Hoje é um, teria sido outro, naturalmente, se o tivéssemos feito na altura. Mas acho que há sempre coisas positivas a tirar desta paragem, e acho que essa foi uma delas, o trabalho dos atores.”

Tomás Alves, o ator que interpreta o protagonista, concorda que gravar um filme nestas circunstâncias “é mais difícil”. “Mas também estava muito preocupado quando estava em quarentena, em casa, e soube que isto ia mesmo avançar, e que íamos recomeçar, e que íamos ser o primeiro filme português a filmar pós-quarentena. A engrenagem de uma filmagem já é muitas vezes complicada. Com estas medidas, com tudo isto a que é preciso dar atenção, ainda mais complicado se torna. Mas de facto temos que ceder de alguma maneira e não nos preocuparmos a todo o momento com isso para fazermos o melhor possível dentro destas contingências.”

Naquela tarde na Estefânia, a NiT assistiu à gravação de duas cenas ao ar livre passadas mesmo na academia militar — uma delas, quando um jovem adulto Salgueiro Maia chega pela primeira vez ao local, com os seus camaradas Estêvão e Delfim (interpretados, respetivamente, por Rodrigo Tomás e Frederico Barata). A segunda, já depois da revolução, numa conversa amigável com Delfim.

A NiT assistiu à entrada de Salgueiro Maia na academia.

Para quem nunca esteve num set de filmagens, podemos compará-lo a um grande tabuleiro de xadrez, em que todas as peças têm a sua função mas só existem e fazem sentido enquanto parte de uma equipa, que está a trabalhar para um objetivo maior — existe uma coordenação constante já que todos “jogam” ao mesmo tempo, nas respetivas posições, e dependem uns dos outros. Por isso mesmo, está sempre a haver momentos de espera e pausa para que tudo esteja a postos.

Se a utilização de máscaras é algo constante, até para os atores (que praticamente só as tiram quando vão gravar de facto as cenas) o distanciamento social já se torna demasiado difícil — é preciso haver uma constante troca de impressões entre elementos da produção, seja atrás das câmaras, no departamento de caracterização ou na direção de atores. Além disso, os atores têm que interpretar cenas em que estão próximos e em que há um contacto físico inevitável.

O ambiente é familiar e amigável, embora muito profissional e sério. Existe alguma pressa no desenvolvimento do trabalho, mas também alguma liberdade para repetir cenas, planos ou fazer ajustes enquanto se filma. Numa repetição teve de se esperar que os pássaros que habitam nas árvores da academia militar fizessem menos barulho.

A maioria das repetições de cenas deve-se a uma fala trocada por um ator, a uma expressão facial que é preciso adaptar ou a um movimento corporal que é preciso melhorar — além de o objetivo ser sempre ter várias opções para a altura da edição. Naqueles dias na academia, o trabalho começa à tarde, depois de almoço, e prolonga-se até por volta da meia-noite.

No caso específico deste filme, nota-se que há certos adereços — sejam armas, sacos ou insígnias militares que só os próprios verdadeiros soldados da academia é que podem ter e fornecem à produção, numa simbiose e colaboração permanente, sempre que são necessários para uma determinada cena. Estão misturados naqueles pátios, caminhos e edifícios, mas, pelas fardas, não é difícil identificar quem é que é um soldado a sério ou um ator com um traje militar dos anos 60.

salgueiro maia
Os militares a sério colocam as insígnias aos atores.

“A base de rodagem é muito aqui na academia militar, fizemos uma série de décors aqui. Começámos o filme com eles um bocadinho mais velhos, com mais pêlos, e fomos tirando, tirando, tirando até que chegámos a esta fase, quando eles eram mais novos, e fazia sentido que fossem mais imberbes”, explica Graciano. 

Todos reconhecem que há uma grande responsabilidade na produção deste filme — já que está a ser contada a história de vida de uma figura querida dos portugueses, célebre para todos. Ainda assim, como grande parte dessa história é desconhecida do público, acabam por ter uma certa liberdade criativa e podem dramatizar certos acontecimentos.

Quando soube que tinha conseguido o papel, Tomás Alves revela à NiT que sentiu uma enorme felicidade, claro, mas também “medo” — e os “nervos por ir fazer esta personagem”.

“Em Portugal é raro termos a oportunidade de fazermos de alguém que existiu de facto e o desafio é tentar fazer uma abordagem o mais real possível dentro daquilo que nós achamos, daquilo que nós procurámos e soubemos sobre ele. Eu acho que sabia o que a maioria das pessoas conhece sobre ele, o símbolo que ele foi, a pessoa importante que ele foi no fim da ditadura, mas tive a sorte de, por ter que explorar esta personagem, ter aprendido muito mais e acho que a mais-valia deste filme também é dar às pessoas o que foi este homem na sua vida em casa, na parte da sua doença, o pós-25 de abril, o que ele sofreu a nível militar e pessoalmente também. Foi uma maravilha e um privilégio.”

Tomás Alves diz que, além de ler a biografia de António de Sousa Duarte que deu origem ao guião, leu um livro “que tem testemunhos do próprio Salgueiro Maia sobre a guerra e várias entrevistas e testemunhos de pessoas que privaram com ele”. “Li muita coisa sobre o 25 de Abril, vi muitos vídeos, falei com algumas pessoas que o conheciam. E acho que a pesquisa, apesar de eu ter feito alguma, nunca é suficiente numa matéria destas. E por mais que haja informação sobre isto também muitas vezes é camuflada ou direcionada. Mas nós aqui temos a nossa versão, e queremos fazer a nossa homenagem, e claro que há uma certa liberdade poética para fazermos um filme de ficção baseado num caso real.”

O distanciamento social é difícil quando se grava um filme.

O ator conta que aquilo que mais o surpreendeu foi “a postura dele em relação às várias abordagens que teve de fazer a nível político”. “E a possibilidade que tinha de se ter de deixar de levar muitas vezes — ele era uma pessoa com uma coluna vertebral inquebrável e acho que essas pessoas já são muito raras de existir. E surpreendeu-me a maneira como o País o tratou depois do que ele fez.”

Sérgio Graciano diz que “Salgueiro Maia — O Implicado” será, sem dúvida, um drama. “A história dele é dramática, é a história do herói apartidário, que decide ser um militar e dedicar-se à família na medida do possível. É um filme que nos leva para o lado emocional, com o qual nos identificamos, pois todos nós temos família. É sobre a vida desta pessoa. Claro que tivemos aqui uma licença poética para contar esta história, porque não faz sentido de outra maneira, será sempre a minha leitura e a de quem escreveu o guião. Pelo menos até determinada fase, até ao 25 de Abril, estamos mais defendidos porque toda a gente sabe como foi a história. A partir do 25 de Abril e até à morte, há umas diferenças… há muitas coisas que as pessoas não sabem e é sobre essa parte que nos debruçamos muito. O filme é muito menos sobre o 25 de Abril e muito mais sobre o Salgueiro Maia, e o pós-25 de abril. É a vida dele com a mulher, a Natércia, até à morte dele com um cancro.”

Natércia Maia foi uma das pessoas que falaram com a equipa de produção para ajudar a preparar o filme. Filipa Areosa é a atriz que a interpreta — e já tinha contado à NiT como tinha tido oportunidade de a conhecer para fazer uma série de perguntas. Natércia foi ainda a um dos dias de gravação do filme, em Santarém (onde vive), e pôde assistir à rodagem da cena do seu casamento — que a deixou muito emocionada.

Além de Santarém, foram gravadas cenas em Sintra. As cenas do 25 de Abril foram filmadas mesmo no Largo do Carmo, na Rua do Arsenal e no Cais das Colunas, na Baixa lisboeta — e para recriarem as cenas de guerra em África filmaram numa zona de mato na Carregueira.

A academia foi o maior cenário de gravações do filme.

“Curiosamente, as cenas que acho mais difíceis são as que não conhecíamos ou de que não tínhamos qualquer tipo de referência”, conta Sérgio Graciano. “Eu diria que foram aquelas entre os amigos, a família, o pós-25 de Abril, porque eram cenas mais emocionais e onde se retratava uma doença de que ele acabou por morrer, o cancro. Foi difícil porque teve uma carga dramática bastante grande e todos os dias identificamo-nos mais com o Salgueiro Maia. Parece que foi custando vê-lo morrer, e essa fase foi mais a difícil de chegar.”

Tomás Alves, que entra em praticamente todas as cenas e considera este o “trabalho mais exigente” da sua carreira até agora, diz que as cenas mais desafiantes foram aquelas que se passam em África e exigiram um enorme esforço físico. A ideia era que também fossem gravadas cenas em Pombal, para onde se mudou a família do protagonista quando este tinha 16 anos, mas aquele local estava demasiado modernizado e havia uma série de limitações por causa da pandemia — inclusive a dificuldade de ter figurantes — que fizeram com que a produção optasse por recriar aquelas cenas noutros locais.

Ali, na academia militar, repleta de edifícios do Estado Novo, foram filmadas outras partes da história — como aquartelamentos na Guiné-Bissau e em Moçambique, ou gabinetes de oficiais que ficariam noutros sítios, entre outras cenas interiores cujo fundo seria completamente alterado em pós-produção.

Nos próximos meses, o filme vai estar em montagem e a ser editado — o elenco inclui ainda Catarina Wallenstein, José Condessa, Dinarte Branco, Luísa Cruz, Miguel Costa ou Gonçalo Portela, entre outros. 1 de outubro é o dia em que o público vai poder conhecer no cinema a história de Salgueiro Maia.

É o papel mais “exigente” da carreira de Tomás Alves.

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