Cinema

“Eu seria incapaz de fazer um filme sobre o Rui Pedro. Este é só imaginação minha”

A NiT entrevistou o ator Gonçalo Waddington, que se estreia como realizador de uma longa-metragem com “Patrick”.
Foto de Bernardo Coelho

Depois de realizar duas curtas-metragens, “Nenhum Nome” (2010) e “Imaculado” (2013), o ator Gonçalo Waddington estreia-se como realizador de uma longa-metragem. Chama-se “Patrick” e estreou a 23 de julho.

O filme conta a história de um rapto de um miúdo de oito anos — mas foca-se sobretudo na crise de identidade que a vítima atravessa quando já é adulto. Patrick (Hugo Fernandes) é um jovem a viver em Paris, França, com o namorado, e acaba detido numa festa por gerir um site de pornografia adolescente.

As autoridades descobrem a sua verdadeira identidade e Patrick é, afinal, Mário — português que tinha sido raptado da família em Portugal em 1999.

O rapto é a história de fundo para este grande conflito interno sobre a sua identidade. Quem é Patrick, ou Mário, entre a sua vida em Paris, a família que reencontrou em Portugal, e a sua grande ligação ao homem pedófilo que o raptou?

“É-lhe dada a opção de voltar para a sua família e colaborar na investigação do desmantelamento de uma rede de pedofilia. Ao regressar a Portugal, Mário tenta adaptar-se a uma nova realidade, mas é recebido com desconfiança. A mãe tem dificuldade em reconhecer o filho e em comunicar com ele e as suas duas identidades entram em conflito: a vida de festas, drogas e promiscuidade em Paris; e a sua nova vida rural, no seio de uma família destruída”, pode ler-se na sinopse do projeto.

O elenco inclui ainda Teresa Sobral, Alba Baptista, Carla Maciel, Adriano Carvalho, João Pedro Bénardad, Raphael Tschudi e Miguel Herz-Kestranek, entre outros. A banda sonora original foi composta pelo músico Bruno Pernadas.

Esta produção da O Som e Fúria, que é uma coprodução francesa e alemã, teve um orçamento de cerca de dois milhões de euros. “Patrick” estreou no ano passado no prestigiado Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, em Espanha, e esteve noutros eventos do género. Agora chega aos cinemas portugueses. Leia a entrevista da NiT com Gonçalo Waddington.

Fez a sua primeira curta-metragem em 2010, três anos depois estreou a segunda. Fazer uma longa-metragem era algo que já estava nos seus planos há muito tempo?
Sim, para aí há uns 12 anos, quando surgiu a primeira ideia concreta — com princípio, meio e fim — para esta história. E depois, um bocadinho mais tarde, surgiu o primeiro plano escrito. E algures entre 2008 e 2010, havia a primeira versão do guião. E antes de rodar, em 2018, tive mais três versões do guião. Mas, sim, era uma coisa que já vinha de há muito tempo.

Mesmo que não tivesse a ver com esta história, enquanto ator sempre quis explorar o caminho da realização?
Sim, na verdade quando fui para a Escola Profissional de Teatro de Cascais, em 1995, na altura tive de fazer uma audição, conversar com os professores para eles me ficarem a conhecer. E na altura lembro-me de ter dito que queria ser encenador. Portanto, a ideia de dirigir peças, as histórias, fosse no palco ou no plateau, era o que mais me interessava. Claro que depois descobri que estar em palco ou em plateau era uma coisa que me agradava mesmo muito. Mas mesmo na escola quando havia espetáculos livres em que criávamos peças ou uma cena, eu sempre tive muito gosto e prazer em criar. Fosse a escrevê-las, a encená-las ou a interpretá-las.

Ou seja, não foi algo de que se apercebeu a meio do seu percurso, foi um interesse que sempre esteve presente.
Sim, eu conheço mesmo muitos casos de atores que se tornam encenadores e dramaturgos — e também realizadores, mas se calhar não tantos. Porque, mesmo assim, produzem-se mais peças do que filmes. E eu trabalho mais em teatro do que em cinema. Também porque tem que ver com questões de financiamento, tempo, etc., mas também os filmes interessantes que aparecem não estão sempre a aparecer. E mesmo quando aparecem, não são sempre para ti, para tu entrares como ator. 

E como é que teve a ideia para a história de “Patrick”?
Algures em 1995 ou 1996, eu devia estar no curso ou foi um bocadinho a seguir, li uma notícia sobre uma rapariga que foi encontrada numa estrada no norte de Espanha, a meio da noite. Ela estava descalça, já com os pés bastante maltratados. E veio a descobrir-se que ela tinha fugido de uma casa de alterne, por uma janela alta e muito pequenina. Ela estava lá contra a sua vontade. Então a imagem de alguém a fugir de uma situação de terror, de aprisionamento, ficou-me na cabeça. Mas obviamente aquilo era só uma imagem. Faltava-me maturidade para escrever o que é que chegou antes de chegarmos àquele ponto, ou eventualmente depois. Curiosamente, essa imagem apareceu num filme francês muito bem feito, “Mártires”, em que começa precisamente com esse plano, de uma miúda completamente aterrorizada a fugir. E depois aconteceu a tragédia do Rui Pedro. Já vi bastantes histórias de filmes que lidam com o rapto do ponto de vista dos pais que perderam os filhos. Inclusive o “Alice”, em que eu entrei. E ficou-me sempre na cabeça, ponho-me a pensar o que será de uma criança… Os retrocessos físicos e mentais que ela terá passado. Foi isso que me ficou na cabeça e às tantas foi isso que quis escrever. Ou seja, um jovem adulto que terá passado por uma situação de sequestro, por um processo de mutação de identidade, em que ele próprio participa, porque faz por esquecer coisas do passado mesmo que essas coisas sejam boas. Memórias tão simples como o cheiro da casa ou da mãe, o toque do pai, a voz, coisas boas. E por ele estar encarcerado, desaparecido, ele próprio não consegue lidar com memórias boas, já que se tornam dolorosas. Então faz por as apagar e por adaptar-se a essa nova identidade. Portanto quando ele é descoberto, como é que ele próprio lida com essa informação? Que tu és aquele, e não este que dizes ser? Como é que lidas com isso e como é que vais lidar com as pessoas que antes faziam parte da tua vida? Foi esse o grande gatilho para eu querer escrever a história.

As várias versões do guião ao longo dos anos resultaram do processo de construção da personagem e do seu contexto?
Sim, ao longo de seis ou sete anos, sempre que voltava ao guião era uma questão de melhoramento, de maturação. A primeira grande vitória foi quando eu pus o filme na produtora O Som e A Fúria. Em 2016 o “Cartas da Guerra” estava no European Film Market e lá há uma secção para novos cineastas onde podes apresentar o teu pitch a produtores e distribuidores para veres se eles se interessam. Claro que nos encontrámos com muitas pessoas interessadas, e logo a seguir fui fazer o primeiro workshop do Sundance Film Festival na Europa, na Grécia, com a produtora do Yorgos Lanthimos e a Athina Rachel Tsangari, que foi a grande mentora deste projeto. Aí eu dei um grande salto no guião porque conversei com a Tsangari, foi bastante produtivo para eu encarar o guião com maior distância e as pouquinhas alterações que fiz deram-lhe um boost muito grande.

O filme tem uma história totalmente fictícia, mas que acabou por ser inspirada por vários casos reais que foi conhecendo ao longo dos anos.
Não… a única coisa que podemos dizer é que é inegável que histórias como as do Rui Pedro ou da Maddie fazem-nos pensar como é que os pais sofreram, o que é que eles devem estar a passar, o que é que a criança estará a passar. A partir daí não há mais nada, é tudo completamente fictício. Até porque ninguém sabe o que se terá passado com as crianças — e quem diz aqui diz no mundo inteiro, porque infelizmente há casos destes no mundo inteiro — e estar a especular sobre o que terá acontecido… Eu seria incapaz de fazer um filme sobre o Rui Pedro. É só imaginação minha. Nem há coisas que tenha apanhado de outras histórias. Nunca li uma história sobre alguém que tenha voltado. Não li nem estaria interessado, foi tentar que a minha imaginação, aquilo que sei, aquilo que li, a minha sensibilidade, que faça algum sentido. Curiosamente, falei com um psicólogo e com alguns inspetores da Polícia Judiciária só para, no fundo, perceber se faz sentido aquilo que estou a contar. Não é que tenha acontecido, porque não aconteceu. Preciso que as pessoas acreditem minimamente, mas, depois, que sejam levadas pela fantasia e pela história.

E apesar de ser um tema global, acredita que, por haver esses casos conhecidos em Portugal, é um tema particularmente relevante aqui? Faz mais parte do nosso imaginário do que os de outros países?
Não faço a mínima ideia, a única coisa que consigo dizer é que precisamente por haver esse buraco negro — que é não saber o que se terá passado com os casos, não sabemos de todo o que lhes aconteceu —, a partir daí é só imaginação. Se se dá mais atenção ou não, se faz parte do folclore nacional ou não, não faço ideia nem sei qual é o nível de interesse. E nem estava a pensar nisso, estava só a pensar no mistério em si — e acho que as pessoas o vão achar interessante. 

Na rodagem, qual foi o maior desafio em gravar o filme?
Na rodagem, as primeiras duas semanas e meia foram na Alemanha, e depois foram três dias em França. O lado internacional da coisa, digamos, foi mais exigente: primeiro, porque são as primeiras semanas, estamos mais tensos, a equipa não está oleada; e depois tinha de falar em inglês e em francês com alguns atores, e em português com alguns membros da equipa, e aí torna-se mais cansativo, queimava bastante os fusíveis. E depois há o stress das primeiras semanas, e há outras lógicas de produção. São equipas muito maiores na Alemanha. Quando voltámos a Portugal, tivemos uns dias para preparar a rodagem na Sertã — tirando um ou outro décor que fizemos noutros sítios — e foram sete semanas de rodagem bastante mais calmas.

Houve alguma razão específica para escolher a Sertã?
Sim, por duas razões. A primeira porque algo me dizia que nesta história o protagonista tinha de ser de uma aldeia do interior. Alguém com acesso a informação, à educação, mas que não vivesse no meio de uma metrópole, uma capital. O isolamento interessava-me. Não só o isolamento deles quando terão vivido juntos e ele era pequenino, mas também o isolamento da mãe no tempo que viveu sem ele, e o isolamento dele e da mãe depois de ele voltar. Porque o isolamento tanto pode ajudar a que os fantasmas vençam como pode ajudar a que as boas ideias e o bom senso vença. Há ali uma batalha, é uma arena interessante. A segunda razão é que tenho muita família na Sertã, passei lá toda a minha infância e tenho ligações fortes àqueles décors. Conheço aquelas árvores, aqueles telhados, aquele pôr do sol, aquele rio, aquele cheiro. É uma das coisas boas do cinema. Às vezes estamos a ver um plano… No cinema diz-se que não há cheiro, não é? Sim, não há cheiro, mas se calhar uma imagem se for bem filmada e o ambiente estiver certo se calhar imaginamos o cheiro. 

E foi fácil escolher o ator protagonista, o Hugo Fernandes?
Eu pensava que ia ser muito difícil e acabou por ser fácil. E aquilo que eu achei que ia ser fácil, que era encontrar a casa, porque há muitas casas daquelas na Sertã, foi o mais difícil. O [produtor] Luís Urbano sabia, e bem, que a primeira coisa a atacar neste filme era o protagonista, porque era quem ia levar o filme às costas. Então a ideia era encontrarmos um miúdo luso-francês, filho ou neto de emigrantes, alguém que já nasceu lá ou que foi para lá quando era muito pequenino, e que fale muito bem francês, e que tenha algum contacto e que perceba o português, mas que o fale mal. Então abriu-se um casting internacional para um miúdo que aparentasse ter entre 18 e 20 anos, podia ou não ter formação, porque naquela idade a formação seria sempre pouca. E depois chegou-se a um número de oito atores que vimos em Paris — eu e o Emídio, o assistente de realização —, entre eles estava o Hugo. E desses oito chamámos dois, o Hugo e outro rapaz muito talentoso sem experiência nenhuma para virem a Portugal fazerem cinco cenas. Depois houve alguns miúdos que vimos em Portugal, mas faltava-me ali qualquer coisa na fragilidade do português e se calhar também na fragilidade do olhar. Mas quando veio cá o Hugo e o outro rapaz, os dois fizeram um casting muito bom mas o Hugo foi realmente… E em Paris, quando acabou aquele dia de castings, deu-me a sensação de que tínhamos encontrado o rapaz. Achámos que se calhar seria muito, “não pode ser assim tão fácil”. Mas também é normal. Às vezes para percebermos que gostamos muito de um vinho maduro tinto do Douro temos de ir beber um verde. É normal. Queríamos pensar bem pensado e já íamos ver outras pessoas a seguir e isso só serviu para confirmar. As cinco cenas dele foram fora de série. Ele já tinha feito alguns filmes mas ele só faz se estiver mesmo interessado no papel, porque ele está numa faculdade de belas-artes, nem sabe bem se quer ser ator, mas vai fazendo. Na verdade, ele é um artista. Aquilo foi mesmo arrepiante e eu tinha quase a certeza de que era ele. E falei com o Luís Urbano, para ter a certeza de que não me estava a precipitar. E o Luís ligou-me e disse que era mesmo aquilo que tínhamos imaginado. O guião foi escrito para um ator que não existe, e de repente era como se tivesse sido escrito já a pensar no Hugo Fernandes.

Hugo Fernandes interpreta o protagonista.

E a casa, porque foi tão difícil?
A casa que eu imaginei é muito parecida com a dos meus avós, mas mora lá a minha tia e nunca imaginei, mesmo que tivesse vazia, filmar lá. Não era algo que me agradasse muito. Havia muitas casas assim, mas muitas delas nem se sabe de quem são, foi uma dificuldade. “Isso deve ter muitos herdeiros, o último que eu soube é o sobrinho de não sei quem que vive nos Estados Unidos há 30 anos”. Outras estavam fechadas, mas descobríamos o contacto das pessoas, alguém da produção ligava e percebíamos que aquilo era um berbicacho porque são três irmãos e três primos que não se falam e vivem todos no mesmo prédio em Lisboa e ninguém se fala. Eram muitas coisas assim, casas que são grandes, que as pessoas não se entendem para fazerem obras naquilo, e às tantas já não podes entrar lá dentro porque aquilo já está em risco de cair… Outras que estão intactas e lindas, mas ninguém se entende, por isso ninguém vai para lá porque estão em tribunal por causa das heranças. E de repente aquilo que me parecia mais fácil demorou muito tempo. E houve um dia em que o Emídio disse para ficarmos em Lisboa e que ele ia sozinho à Sertã percorrer estradas a que ainda não tínhamos ido e ele às tantas manda-me fotografias, tinha descoberto esta casa onde filmámos, meteu-se lá para uma rua onde nunca tinha ido… Porque ele via através do Google satélite uns telhados, percebia que havia ali qualquer coisa e eu: esta casa é incrível. 

Estava habitada?
Sim, é de uma família que vive em Lisboa mas que vai lá todos os fins de semana, estabeleceu-se o contacto, fomos visitá-la e a casa era mesmo incrível.

Como é estrear este filme, que está a ser pensado há tanto tempo, nesta altura de pandemia, em que as pessoas não estão a ir tanto às salas e em é que uma altura frágil para o cinema?
Não me atrevo sequer a pensar se é frágil ou não para o filme porque é uma coisa que ninguém no mundo sabia o que fazer com isto. Isto ia estrear em maio ou em junho, e em circunstâncias normais nunca estrearia nesta altura, em julho. Porque nesta altura há as Pixars e as Marvels. Seria uma competição muito desleal. Era como eu jogar rugby com os All Blacks, entrava no jogo, corria um bocadinho, eles riam-se, encostavam-me um bocadinho o ombro e, pronto, lá ia eu pelas bancadas adentro e acabava-se o jogo. Mas dentro deste contexto estranho e triste que estamos a viver, facto é que nesta altura… ainda agora o “Tenet” foi adiado mais uma vez e não há nova data, os grandes blockbusters estão-se a retrair, então o filme pode beneficiar por ter menos oferta dessa, que normalmente esmaga completamente o resto. A única coisa que peço é que queiram ver o filme, que gostem e que se forem que respeitem todas as normas da DGS. É a única coisa que peço [risos].

Já tem ideias para um próximo filme?
Estou neste momento a escrever um guião e, pronto, continuo como ator nos filmes e peças dos outros, e a escrever e a encenar as minhas peças. Consoante as produções, os financiamentos, tem tudo que ver com uma jigajoga entre escrever, interpretar, gravar, dirigir. Vou-me organizando. Não é nada de mais, muita gente o faz, é só uma questão de organização e de alguma sorte. Esotericamente falando, que todos os astros se alinhem para eu o conseguir. 

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