Cinema

Expulso da escola, louco por sapatilhas, estrela de Hollywood: a vida de Charlie Hunnam

O ator tem um novo filme, “Crime em Hollywood”, que já está nos cinemas portugueses. A venda de um guião salvou-o da falência.
Tem 42 anos.

Chama-se “Crime em Hollywood” e é um novo filme realizado por Tim Kirkby que estreou nos cinemas portugueses esta quinta-feira, 12 de maio. A história acompanha um antigo polícia caído em desgraça que volta ao ativo quando é contratado para investigar um homicídio. Um dos protagonistas é Charlie Hunnam, ator britânico que se tornou mundialmente popular ao longo dos últimos anos.

Nascido em 1980, Charlie Hunnam cresceu numa família de classe trabalhadora em Newcastle, no norte de Inglaterra. O pai não estava muito presente, a mãe era bailarina de ballet — sendo que uma das suas avós era pintora. Hunnam tem um irmão mais velho e dois meios-irmãos mais novos, da parte da mãe.

Quando a mãe casou com outro homem após se divorciar do seu pai, a família mudou-se para Melmerby. Durante a adolescência jogava rugby e era algo problemático. Aos 15 anos, era suposto ter ido numa visita de estudo de História da Arte, mas alegadamente o professor não o quis levar.

Para retaliar, enquanto a turma estava na visita de estudo, Charlie Hunnam usou tintas que o professor o tinha proibido de utilizar. Quando regressou à escola, o docente rompeu a pintura de Hunnam — deixando o adolescente angustiado. Furioso, Hunnam atirou uma tesoura aberta em direção ao professor. Foi expulso da escola.

Contudo, prosseguiu os estudos, ingressou no Cumbria College of Art and Design para estudar artes performativas; e especializou-se em teoria e história do cinema, com o objetivo de escrever e realizar os próprios filmes. O seu primeiro papel chegou quando tinha 17 anos — e completamente por acaso.

Charlie Hunnam costumava fazer as compras de Natal na véspera, 24 de dezembro, e beber uns copos antes de entrar nas lojas. “Estava a experimentar sapatilhas para o meu irmão — estava a pensar em comprar um par para ele”, contou em entrevista à “Men’s Health”, sobre o momento em que estava na loja da JD Sports. Depois, reparou numa mulher que estava a olhar para ele. “Mandei-lhe um beijo, ela sorriu e deve ter pensado: quem é este sacana atrevido?”

A mulher abordou-o e perguntou-lhe se alguma vez considerara trabalhar como ator. Pelos vistos, era a produtora de uma série de televisão juvenil chamada “Byker Grove”, que acabou por ser o primeiro trabalho de sempre de Hunnam, em 1998.

O seu primeiro grande papel chegou logo a seguir, em 1999, quando foi contratado para ser um dos protagonistas da série “Diferentes Como Nós”, que explorava o romance homossexual na adolescência. Hunnam mudou-se de seguida para os EUA para trabalhar em Hollywood. No mesmo ano, casou-se em Las Vegas com a atriz Katharine Towne, de quem se divorciou em 2002.

Do outro lado do oceano, participou em produções como “Regressão” ou “Cold Mountain”, antes de regressar ao Reino Unido — já em 2005 — para ser um dos protagonistas de “Rebeldes do Bairro”. No mesmo ano começou a namorar com a artista Morgana McNelis, relação que mantém desde então. Depois participou em “Os Filhos do Homem”

O papel que também ajudou a consolidar a sua carreira chegou em 2008, quando se tornou um dos atores principais da série “Sons of Anarchy”, centrada num grupo de motoqueiros. Acabou por ser distinguido com vários prémios pelo seu papel de Jax Teller, que manteve até 2014.

Antes de conseguir o papel estava numa situação financeira desastrosa. Enquanto estava a gravar “Cold Mountain” na Roménia, aprendeu com os locais a história de Vlad, o Empalador. A partir daí construiu um guião que acabou por conseguir vender — apesar de ainda não se ter concretizado no cinema. Hunnam disse numa entrevista ao “Digital Spy” que não tinha um papel há 18 meses e que estava tão falido que, se não tivesse vendido aquele guião, teria sido obrigado a vender a sua casa e a mudar-se novamente para casa da mãe, em Inglaterra.

Seguir-se-iam papéis importantes em produções como “Batalha do Pacífico”, “Crimson Peak” ou “A Cidade Perdida de Z”. Pelo meio, foi também escolhido para interpretar Christian Grey na adaptação cinematográfica de “As Cinquentas Sombras de Grey”. Mas teve de abandonar o projeto, porque coincidia com as gravações de “Sons of Anarchy”, a que escolheu dar prioridade. Foi substituído por Jamie Dornan.

Charlie Hunnam fez ainda papéis em projetos como “Rei Artur: A Lenda da Espada”, “Operação Fronteira” e “The Gentlemen”. E teve outras ideias para argumentos: em 2013 revelou em entrevista à “GQ” que estava a preparar um guião baseado num artigo da revista “The Rolling Stone” sobre um traficante de droga americano chamado Edgar Valdez Villareal. No mesmo ano disse ainda que tencionava fazer um filme centrado no universo da cultura cigana no Reino Unido. 

Apesar de se ter tornado uma estrela estabelecida nos EUA, Charlie Hunnam manteve a sua cultura de classe trabalhadora britânica no seu dia a dia. Embora seja conhecido por ser atlético, algo que tem sido decisivo para vários dos papéis que tem feito, raramente trabalhou com personal trainers. Preferia ter passar esses momentos sozinho, para desanuviar enquanto ouvia música e (como revelou à “Men’s Health”) por vezes fumava um charro antes dos treinos.

Também chegou a ter uma coleção com dezenas de pares de sapatilhas Nike Air Max 90. “Isso foi um síndrome de rapaz pobre de não poder comprar as sapatilhas que queria quando todos os outros miúdos as tinham na escola. Depois, aos 25 anos: sabem que mais? Posso comprar todas as sapatilhas que quiser”, contou também à “Men’s Health”. Entretanto doou a grande maioria e ofereceu alguns pares a amigos.

A postura de durão das ruas de Inglaterra também se mantém. O ator já partilhou uma história de como certa vez teve de se proteger de um intruso que entrou em sua casa. “Pu-lo no chão e disse: Meu, desta vez não te vou lixar, mas se alguma vez apareces aqui perto outra vez, nunca vão encontrar o teu corpo, literalmente — vou desfazer-te em pequenos pedaços”, contou numa entrevista. E diz que tem um machete guardado no escritório.

Leia também o artigo da NiT sobre a violência doméstica, ódio aos judeus e alcoolismo de Mel Gibson, que contracena com Charlie Hunnam no novo “Crime em Hollywood”.

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