Cinema

“Fátima”: o filme dos três pastorinhos já estreou (mas não chegou a Portugal)

Harvey Keitel, Alba Baptista, Joaquim de Almeida, Lúcia Moniz, Joana Ribeiro e Sônia Braga fazem parte do elenco.
O filme tem quase duas horas.

É um filme sobre uma história portuguesa (e também universal) que já está a fazer manchetes nos Estados Unidos da América, onde estreou a 28 de agosto. “Fátima” conta a história dos três pastorinhos e das aparições da virgem Maria na Cova da Iria, em 1917.

Foi totalmente gravado em Portugal há dois anos e realizado pelo italiano Marco Pontecorvo (que foi um dos diretores de fotografia de “A Guerra dos Tronos”). Parte da equipa técnica (e a grande maioria do elenco) é portuguesa. O guião baseia-se nas “Memórias da Irmã Lúcia”, livro publicado em 1976, e pretende contar a sua versão dos acontecimentos, a partir da sua perspetiva.

Por isso, é um filme assumidamente crente, que nunca duvida do milagre de Fátima, que mostra como três crianças viram e estiveram com Nossa Senhora em várias ocasiões — e como foram desacreditadas por grande parte da comunidade depois.

O contexto político da época e as pressões que sofreram de vários lados estão bem presentes nesta produção — mesmo que a Igreja Católica tenha reconhecido o milagre depois de dezenas de milhares de pessoas terem assistido à comunhão das crianças com a figura divina que só elas podiam ver; e que isso tenha tornado o Santuário de Fátima naquilo que é hoje, com milhões de cristãos que vêm de todo o mundo todos os anos.

O filme devia ter estreado no final de abril em Portugal, mas a pandemia obrigou a que fosse adiado. A distribuidora Cinemundo apontou a data de 13 de agosto, período do mês em que há uma grande peregrinação ao Santuário de Fátima, mas tal não aconteceu.

À NiT, a Cinemundo diz que existe a possibilidade de o filme estrear em outubro (no dia 13 assinala-se o aniversário de uma das aparições) ou em maio do próximo ano, apesar de haver uma “pressão grande” agora que a produção chegou aos cinemas americanos e canadianos.

A antestreia exclusiva em Portugal aconteceu no início de março para vários membros do clero, entre os quais o cardeal António Marto, e vários funcionários do Santuário de Fátima.

Harvey Keitel é a maior estrela internacional que faz parte do elenco. Interpreta um professor cético, que fala com Irmã Lúcia (interpretada pela brasileira Sônia Braga) nos anos 80, quando ela já é idosa e recorda a sua vida.

É ela que lhe explica como foi visitada por Nossa Senhora, que lhes disse para rezarem, que era preciso converter mais pecadores, e que lhes prometeu trazer paz ao mundo e acabar com a Primeira Guerra Mundial — onde havia milhares de soldados portugueses a lutar, incluindo o irmão de Lúcia e muitos jovens daquela região.

Já Goran Visnjic, ator croata mais conhecido por ter participado em “Serviço de Urgência”, faz de um major do governo republicano português e acaba por personificar o poder político. É uma figura culta, com quem não simpatizamos, que tenta controlar o discurso de irmã Lúcia.

Entre o elenco português estão nomes como Alba Baptista, Joaquim de Almeida, Lúcia Moniz, João Arrais, Filipa Areosa, Luísa Cruz, Iris Cayatte, Carla Chambel, Marco D’Almeida, Ana Moreira, Joana Pais de Brito, Joana Ribeiro, Isabel Ruth, Luisa Ortigoso e Laura Frederico, entre outros.

O filme, destinado ao público internacional, é totalmente falado em inglês. O tenor italiano Andrea Bocelli faz parte da banda sonora oficial do projeto.

As críticas internacionais já começaram a sair. A “CNN”, por exemplo, escreve que é um filme “belíssimamente realizado”, que no geral “funciona bem como um drama” e que lida bem com o sentimento de perda, apesar de apontar para o potencial obstáculo que “Fátima” poderá encontrar no mercado.

“A grande questão é se o filme consegue cruzar a linha entre um público religioso que suspeita de Hollywood e aqueles que poderão não estar inclinados a assistir àquilo que veem como uma fábula religiosa”, escreve a estação de televisão americana.

A revista “Variety” explica que “o tema do filme não são as revelações divinas de Maria, mas sim a força de Lúcia, com dez anos, uma católica e filha devota que cujas visões espirituais a obrigaram a erguer-se perante os que negavam o que tinha acontecido e a assumir a sua verdade: que ela e os seus dois primos mais novos receberam três segredos divinos”.

Além disso, a publicação especializada questiona a escolha de Joana Ribeiro para o papel de Maria, e a forma como a figura foi representada. “Os milagres, como a magia, nem sempre ficam bem no ecrã, porque no fundo o público sabe que está a ser manipulado. Como consumidores de todo o tipo de propaganda, temos sido condicionados a questionar o que vemos, e ter uma modelo gentil e bonita (Joana Ribeiro) como Maria é um risco. Muitos espectadores vão ver o filme com uma imagem muito diferente desta figura divina na cabeça, enquanto outros preferiam usar a sua imaginação. O coração de Maria pode ser imaculado, mas ela devia ser assim tão elegante? Tão europeia? Tão jovem?”, questiona a “Variety”.

O jornal “Los Angeles Times” diz que o filme não impressiona, que não há grandes momentos dramáticos e que as partes mais emocionais não têm altos e baixos. “Numa pandemia, alguns poderão considerar o filme como um farol de esperança; outros podem preferir a ciência em vez das rezas para a salvação. Enquanto obra de cinema, é improvável que ‘Fátima’ seja canonizado.” Em Portugal, vamos ter de continuar à espera.

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