Cinema

Kika foi atrás do sonho para Hollywood. O primeiro grande filme chega agora a Portugal

"A Rapariga no Banco de Trás" é produzido e interpretado pela portuguesa de 39 anos e fala sobre tráfico humano.
Kika teve mais do que um papel.

Kika Magalhães lembra-se bem dos tempos de criança e de acompanhar o pai na criação e curadoria da sua vasta coleção de vestidos e de carros vintage. João Magalhães, antigo industrial numa fábrica de confeção, era apaixonado por arte, um fascínio que acabou por passar à filha. E a portuguesa acabou por seguir esta paixão e é hoje, aos 39 anos, atriz e produtora em Hollywood — e prepara-se para ver estrear em Portugal o seu novo filme, “A Rapariga no Banco de Trás”. Chegou aos cinemas esta quinta-feira, 16 de maio.

O pai foi um dos seus maiores apoios. Numa fase em que ninguém parecia querer apostar no filme, chegou-se à frente e ajudou Kika com o financiamento necessário. “Não seria possível sem a ajuda dele”, conta à NiT. Infelizmente, João Magalhães morreu em 2023, antes de conseguir ver o resultado final do seu esforço e do da filha. A longa-metragem é, assim, uma espécie de homenagem.

“Arrastada involuntariamente da vida humilde em Los Angeles para uma existência de terror, a imigrante portuguesa Sofia (Kika Magalhães) descobre que o seu destino mudou para sempre. Ryan (Chris Marrone), o seu implacável captor, é uma figura temível que executa a sua sombria missão com determinação e frieza. O objetivo é levar Sofia até à misteriosa cabecilha de uma rede de tráfico de seres humanos”, lê-se na sinopse sobre o filme que aborda o tema do tráfico humano.

O tema surgiu de forma inesperada e agarrou-o. Depois, dedicou-se à pesquisa para compor o argumento.. “Vi vários documentários e vídeos no YouTube, falei com vítimas de tráfico humano e com polícias mais ligados a esses casos.” Um desses casos encontrou-o bem perto de si, uma amiga que tinha sido vítima do crime.

“Disse-lhe que queria fazer isto e ela ficou emocionada. Confessou-me que tinha sido traficada em Los Angeles. Esse foi o sinal para fazer o filme. Não é só sobre uma pessoa, mas sim sobre várias histórias que ouvi”, confessa.

A personagem principal, Sofia, conhece o Ryan num bar. Quando acorda, percebe que está no carro. A longa-metragem é como “uma roadtrip desde o momento inicial em que o conhece até chegar ao destino onde vai ser vendida”. Apesar do crime, os dois começam a criar uma espécie de relação.

O criminoso é interpretado por Chris Marone, que além de ser o parceiro de cena, de Kika é o seu “parceiro emocional” e produtor da obra. “Tem um talento incrível. Foi ele que escreveu o guião e ajudou-me a fazer o filme.”

Sem o apoio de grandes estúdios, teve que ser o casal que comprou o guarda-roupa, fez os castings e encontrou as localizações. Depois veio o árduo trabalho de vender o filme.

No elenco encontram-se outros atores como Jasmine Akakpo (“Star Trek: Picard”) e Travis Quentin (“Missão Greyhound” e “Tulsa King”). Também há alguns nomes portugueses, como Ana Lopes.

Independentemente das nacionalidades, todos se tornaram muito próximos. “Apesar de o filme ter sido muito difícil de criar, fiz amigos maravilhosos pelo caminho. Chegava ao set de filmagens e estava contente porque sabia que ia estar com pessoas que gosto”, reflete.

O filme que estreou em 2023 nos EUA conta com uma avaliação de 97 por cento por parte do público no agregador de críticas Rotten Tomatoes. Por lá também pode ser visto numa plataforma chamada Tubi e na Prime Video.

O caminho trilhado por Kika até à estreia da obra foi marcado pelas decisões por vezes impulsivas. Licenciou-se em Ciências da Comunicação em 2007. Não sabia o que queria fazer da vida e, por isso, começou a viajar.

Quando saiu de Lisboa mudou-se para Londres e, de seguida, para Madrid, Barcelona e Ibiza. Nesta última cidade trabalhou como dançarina e foi nessa altura que percebeu que “pertencia ao palco”. “Não havia Netflix nem nada disso. Decidi que o melhor que podia fazer era ir para os Estados Unidos.”

Em 2011, já em Nova Iorque, tirou um curso de representação. Cerca de dois meses depois conseguiu o seu primeiro trabalho num filme independente chamado “City of Gold”. “Foi uma experiência espetacular e uma grande vitória porque tinha acabado de sair do curso.” A obra nunca chegou a estrear, o que foi “uma grande desilusão”.

Seguiram-se outros pequenos papéis, principalmente em videoclipes. Finalmente teve a sua grande oportunidade em 2016, num filme de terror psicológico chamado “Os Olhos da Minha Mãe”. O papel chegou até si graças à boa relação que formou com Nicolas Pesce, realizador com quem tinha trabalho na incursão pela música. “Ele disse-me que ia escrever um papel principal a pensar em mim. Não liguei muito porque toda a gente diz coisas assim e ninguém cumpre. Passado uns meses, ligou-me com a proposta”, recorda.

A estreia aconteceu no icónico Sundance, um dos maiores festivais de cinema dos EUA. Foi este projeto que lhe permitiu receber o ambicionado green card, o documento que permite a estrangeiros viverem e permanecerem de forma definitiva no país. Fez as malas e mudou-se para Los Angeles.

Depois da estreia da obra conseguiu arranjar uma manager e achou que a sua vida ia mudar por completo. Percebeu que estava enganada quando os meses se passaram e os papéis não chegaram. “Foi muito difícil. Não conhecia ninguém, não tinha amigos e propostas de trabalho com as quais me identificasse. Foi um período de muitas dificuldades, apesar de ter tido um filme no Sundance.”

Foi durante esta altura parada que percebeu que se as oportunidades não surgiam, tinha de ser ela a criá-las. Começou a produzir projetos e a sua primeira ideia foi precisamente “A Rapariga no Banco de Trás”. “Só agora está a sair. As coisas demoram muito tempo”, confessa.

Durante este tempo, foi fazendo outros trabalhos como curtas-metragens. Uma que destaca é “Stop Whining and Start Winning” onde, além de produzir, atuou ao lado de Emma Raimi, a filha de Sam Raimi, o realizador da primeira trilogia do “Homem-Aranha” e de outros fenómenos como “A Noite dos Mortos-Vivos”. “Vai sair em breve nos festivais, por volta de setembro.”

Kika espera que a sua primeira longa-metragem seja bem-sucedida em Portugal. “Quero que as pessoas gostem e que consigam aprender um bocado sobre tráfico humano, porque é um tema muito importante e pouco falado.”

A cineasta já está a pensar nos seus próximos projetos, mas pouco revela sobre eles. Nos seus planos também está voltar para o País e trabalhar por cá. “Gostava que isso aconteça em breve e vou fazer para que isso aconteça”, conclui.

Carregue na galeria e conheça algumas das séries e temporadas que estreiam em maio nas plataformas de streaming e canais de televisão.

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