Cinema

Gal Gadot vai ser Cleópatra: isso irritou os africanos, os brancos e os judeus

A questão da diversidade lançou o caos entre os atores e os estúdios de Hollywood. Todas as etnias dizem que são vítimas de racismo.
Gal Gadot alvo de críticas.

Há filmes assim: ainda nem começaram as filmagens e já estão provocar polémica. É o caso de uma nova versão de história de Cleópatra que vai chegar ao cinema, com Gal Gadot, a Mulher-Maravilha, no papel da rainha do Egito.

A Cleópatra que todos conhecemos do cinema é na verdade Cleópatra VII, rainha do Nilo que era a mulher mais famosa do mundo no seu tempo. Estamos habituados a vê-la representada com um lado sedutor mas na realidade sabe-se muito pouco sobre ela. Aliás, as suas origens são um dos temas de maior debate entre os historiadores.

A escolha de Gal Gadot relançou uma discussão recorrente em Hollywood nos tempos que correm: a representação de minorias em diferentes papéis. Em alguns casos, a discussão tem a ver com o destaque dado à comunidade LGBT — em 2018, por exemplo, Scarlett Johansson desistiu de um papel transgénero. Noutros casos, o debate é provocado por questões étnicas.

Este ano, a Academia já anunciou futuras regras pela inclusão, com quotas que devem ser cumpridas por quem pretende entrar na corrida aos Óscares. O tema, no entanto, é mais complexo quando falamos de história, em particular de tempos longínquos em que não existem certezas sobre nada.

Hanna Flint, cronista do jornal inglês “The Guardian”, considerou que a escolha de Gal Gadot foi “um passo atrás em Hollywood”, no que à representação diz respeito. Queixa-se ainda do histórico dos grandes estúdios em excluírem atores norte-africanos de potenciais papéis, desde “Os Dez Mandamentos” aos filmes do franchise “A Múmia”. Em oposição, cita como bom exemplo a recente versão da história de Charles Dickens de David Copperfield, em que Dev Patel a interpretou a personagem durante a Londres do século XIX.

A autora norte-americana Morgan Jerkins também se queixou da escolha, sem desprimor para Gal Gadot. “De certeza que vai fazer um excelente trabalho”. Ainda assim, preferia alguém “mais escuro do que um saco de papel castanho”.

Por outro lado, também existem quem defenda a escolha. Segundo a opinião de Seth J. Frantzman, do “The Jerusalem Post”, jornal de Israel (de onde a atriz é natural): “O porquê dos protestos sobre Gal Gadot interpretar a rainha egípcia? Porque o que quer que seja considerado inaceitável em qualquer década é aquilo que os judeus disserem”.

O autor escreve ainda que “os judeus agora não podem ser escolhidos para a maioria dos papéis, ou serão acusados de estarem a tirar o lugar a outros”. Algo que lamenta, até porque as raízes da atriz são do Médio Oriente.

À “BBC”, a historiadora britânica Mary Beard realça que o que se sabe de Cleópatra VII é que é filha de Ptolomeu XII, que teria origem macedónica-grega. Sabe-se que a rainha já nasceu no Antigo Egipto mas nunca foram confirmadas as origens étnicas do lado da mãe. Há, por isso, ainda muitas dúvidas sobre a sua etnia, que poderá ter sido egípcia ou não.

A mesma historiadora explica ainda que, se queremos um relato histórico mais fidedigno, há outros elementos para os quais faltam certezas. “As representações dela ao longo dos tempos baseia-se numa série de deduções frágeis, a partir de partes de provas ou mesmo sem provas concretas”.

Elizabeth Taylor no histórico papel, em 1963.

É de Elizabeth Taylor a mais célebre versão de Hollywood da rainha. Monica Bellucci e Sophia Loren estão entre as dezenas de nomes que já nos deram diferentes dimensões da rainha. E a verdade é que o papel costuma recair sobre mulheres brancas ocidentais. Nos últimos anos, a possibilidade de Angelina Jolie interpretar a rainha já tinha sido também alvo de polémica. O projeto, no entanto, nunca chegou a avançar.

Natural de Israel, Gal Gadot não deverá estar investida neste projeto apenas como atriz, mas também como co-produtora. A realização ficará a cargo de Patty Jenkins, que liderou os dois filmes de Gal Gadot no papel de Mulher-Maravilha. É provável que o debate sobre a etnia prossiga. Ainda assim, a próxima versão de Cleópatra que deveremos já deverá contar com algo que lhe tem faltado no cinema: uma perspetiva feminina.

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