Cinema

Hans Zimmer, o rei das bandas sonoras que se tornou numa estrela rock

Criou algumas das obras-primas musicais do cinema, subiu ao palco de Coachella e agora vai concretizar um sonho de criança em “Dune”.
Quem diria que iria pôr Coachella a dançar?

Entre nomes como Radiohead, Beyoncé ou Kendrick Lamar, surgia um estranho no cartaz de Coachella, um dos maiores festivais de música do mundo: Hans Zimmer. Não é que ninguém soubesse quem era o rei das bandas sonoras de Hollywood, mas o compositor alemão estava fora do seu habitat.

Foi com estranheza, portanto, que os milhares da plateia tentaram adaptar os movimentos de dança ao som da orquestra comandada por Zimmer. Primeiro estranhou-se, depois entranhou-se.

A multidão vibrou com os ritmos africanos de “O Rei Leão”, entusiasmou-se com o mistério dos temas de “A Origem” e foi finalmente ao rubro com o medley das canções criadas para “Os Piratas das Caraíbas”. Zimmer, de forma improvável, conquistou a plateia e provou que não só é um génio no estúdio, mas também uma estrela rock em cima dos palcos.

É sem surpresas que o compositor de 64 anos chega a 2021 com mais um projeto — são mais de cem os filmes para os quais criou temas e som ambiente — que é, talvez, um dos seus mais queridos. Foi este domingo, 19 de setembro, que os fãs puderam finalmente ouvir a banda sonora de “Dune”, um dos filmes mais aguardados do ano.

“Tenho que fazer o ‘Dune’. O Chris [Nolan] sabe que tenho de o fazer”, revelou o compositor antes das gravações do épico baseado no livro de Frank Herbert — obra que é uma das suas paixões desde miúdo.

A banda sonora do remake de “Dune”, agora realizado por Dennis Villeneuve, é a primeira grande revelação depois dos trailers já divulgados e antes da estreia mundial do filme marcada para 22 de outubro.

“O som de ‘Dune’ envolve-te de uma forma que nunca tinha visto e agora vão finalmente poder ouvi-lo”, explicou Zimmer antes da estreia da banda sonora que promete levar os fãs aos cenários do filme, ainda antes de poderem ver o que Villeneuve guardou para o ecrã. E esta não será a única contribuição do músico.

A inspiração foi tanta que Zimmer compôs uma segunda banda sonora para o livro sobre o making of do novo filme, que será lançado em simultâneo com a estreia a 22 de outubro.

Foi nos anos 80 que Zimmer se aventurou pela primeira vez no cinema e deu nas vistas logo em 1989 pelas músicas originais que criou para “Rain Man”, o drama de 1988 com Tom Cruise e Dustin Hoffman que conquistou quatro Óscares e valeu a Zimmer a primeira de dez nomeações em toda a carreira.

Porém, o primeiro grande êxito aconteceu com um filme de animação que o compositor apenas aceitou para impressionar a filha de seis anos e poder levá-la à estreia. Zimmer achava que era apenas “um filme com animais fofinhos”.

A música que criou ajudou a torná-lo num dos maiores sucessos da animação na história do cinema. Foi com “O Rei Leão” que repetiu a presença nos Óscares e que conquistou a primeira estatueta.

A história de Simba trazia também algo de pessoal. “É a história de um filho que perde o pai”, explicou mais tarde. “E foi a primeira vez que lidei com esse assunto.”

Nasceu em Frankfurt, no período pós-guerra, e viu o pai morrer ainda criança. Foi também por isso que se refugiou na música, algo que o ajudou a esconder a turbulenta história familiar. “De certa forma refugiei-me na música e ela tem sido, desde então, a minha melhor amiga.”

A mãe fugira da guerra em 1939, rumo a Inglaterra, e onde Zimmer voltou já na adolescência. A religião da família era um assunto tabu. Quebrou-o anos mais tarde, numa conferência em Berlim, em 1999, onde confessou o que a mãe proibira enquanto criança: “Sim, os Zimmers são judeus.”

“Honestamente? Acho que os meus pais tinham medo que eu contasse aos vizinhos. Nessa altura ainda pairava uma nuvem [dos tempos da guerra] e eu sentia-o.”

A revelação abalou Zimmer, que correu para o telefone assim que deixou o palco. Ligou à mãe para lhe contar tudo. “Disse-me que tinha muito orgulho em mim. Acho que foi a primeira vez que o disse.”

Apesar de se ter agarrado à musica, teve pouca ou nenhuma formação clássica. “O meu treino formal foram duas semanas de aulas de piano. Expulsaram-me de oito escolas”, recordou anos mais tarde.

A mãe “era muito musical” e o pai “engenheiro e inventor” e foi com os seus ensinamentos e uma curiosidade extrema que começou a alterar os seus próprios instrumentos, os pianos. “A minha mãe ficava horrorizada; o meu pai achava fantástico que eu ligasse motosserras ao piano, porque achava que era uma evolução.”

Talvez por isso se tenha apaixonado pelos teclados e sintetizadores, uma faceta que o ajudou a distinguir-se de muitos dos seus colegas. “Sou um autodidata, sempre ouvi a música na minha cabeça. E sou uma criança do século XX; os computadores deram mesmo muito jeito”, nota.

Tinha já 20 anos quando começou a aventurar-se nas bandas de eletrónica, primeiro com os Krakatoa, depois com colaborações com os Buggles — surge até no famoso vídeo “Video Killed The Radio Star”, a manobrar o teclado — e até os punk The Damned.

Foi Ennio Morricone e o seu trabalho em “Era Uma Vez no Oeste” que o inspirou a virar-se para a composição. Juntou-se a Stanley Myers para criar bandas sonoras e foi em conjunto que começaram a combinar os instrumentos tradicionais de orquestra com os sintetizadores. O pai tinha razão: era o futuro.
Apesar do sucesso de “O Rei Leão”, foi em 2000, com o trabalho em “Gladiador” que Zimmer se transformou num peso pesado da indústria — um que viria a rivalizar com os já lendários John Williams e Howard Shore.

Tornou-se num nome incontornável para os produtores quando queriam um selo de qualidade nos filmes — e anexar aos elencos e títulos a etiqueta “música por Hans Zimmer”. Daí para a frente são incontáveis os blockbusters em que participou, de “Pearl Harbor” a “O Último Samurai”, da saga “Os Piratas das Caraíbas” a “12 Anos Escravo”.

O processo nem sempre é simples. Zimmer admite que nunca vê os filmes ou lê sequer os guiões antes de começar a produzir os temas. “Honestamente, [o processo de criação] envolve muito tempo sentado sem fazer nada e a bater com a cabeça contra a parede, muito desespero”, explica.

Aos realizadores, pede apenas que lhe contem a história do filme. Tudo nasce a partir daí. “Vivo muito aquele processo do ‘Oh meu Deus, quando é que as notas me vão chegar…’, e de repente elas aparecem.”

Em 2005 cruzou-se pela primeira vez com Christopher Nolan e juntos lançaram uma estreita ligação que marcou a última década no cinema. Começaram pelos primeiros filmes da saga Batman, “Batman Begins” e “The Dark Knight”.

Voltaram a encontrar-se no set de de “A Origem”, em 2010, um trabalho pelo qual Zimmer recebeu uma nomeação para os Óscares. Falhou a estatueta, mas o filme viria a arrecadar quatro. O legado que deixou foi ainda maior.

O primeiro trailer do filme entusiasmou os fãs que mais tarde perceberam que um dos segredos para esse entusiasmo residia num efeito sonoro usado por Zimmer. Era de tal forma eficaz que, depois disso, foi batizado com o seu nome — a onomatopeia BRAAAMS — e conquistou um lugar em dezenas de trailers de outras produções.

De acordo com a “The Hollywood Reporter”, são muitos os que reclamam para si a invenção deste efeito, mas todos concordam que, embora Zimmer possa não ser o pioneiro, foi ele que a popularizou.

O compositor alemão assume-se, portanto, como “o padrinho do BRAAAMS”, o efeito que nasceu de uma descrição no guião de Nolan, que referia o som como “tons musicais baixos, estrondosos, como cornetas à distância”.

Zimmer criou o som ao colocar “um piano no meio de uma igreja”, com um “livro preso no pedal”, enquanto “tocadores de cornetas tocavam ao som da ressonância do piano”. “Depois juntei-lhe umas parvoíces eletrónicas”, confessa.

Dir-se-ia que o compositor poderia ter ficado orgulhoso da descoberta. Nem por isso. Confessou-se “horrorizado” por ter criado uma espécie de “modelo musical usado em todos os filmes de ação”.

Polémicas à parte, a colaboração com Nolan foi quase sempre um sucesso. Completou a trilogia Batman com “The Dark Knight Rises” em 2012 e voltou para mais duas obras-primas: “Interstellar” e “Dunkirk”, que renderam mais duas nomeações para os Óscares.

No épico de ficção-científica, Zimmer juntou-se aos métodos inovadores de Nolan e criou o tema principal apenas baseado nos temas gerais da história revelados pelo realizador. Criou uma peça tocada no piano, que serviu de base a todas as outras derivações que, ao invés de serem criadas após a gravação do filme, foram improvisadas na hora.

A união da dupla foi quebrada em “Tenet”, o mais recente filme de Nolan, ao qual Zimmer disse que não. Tinha um compromisso e um sonho de criança para cumprir: o seu “Dune” que, espera, seja finalmente a sua grande obra-prima.

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