Cinema

A história da casa de “Parasitas” — que foi construída de propósito para o filme

A produção sul-coreana realizada por Bong Joon Ho venceu quatro Óscares e é uma das grandes surpresas do ano.

“Parasitas” é um dos filmes do ano. A produção sul-coreana realizada por Bong Joon Ho venceu inúmeros prémios nos últimos meses, culminando com uma vitória surpreendente nos Óscares, a 9 de fevereiro. O projeto conquistou as importantes estatuetas douradas de Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Argumento Original e Melhor Filme Internacional.

O próximo passo será uma adaptação televisiva que irá estrear na HBO — apesar de também estar a ser preparada uma versão a preto e branco da história que vai chegar a vários cinemas de todo o mundo. Por enquanto, pode ver o filme nalgumas salas nacionais.

“Parasitas” é uma sátira sobre as desigualdades sociais — neste caso, na sociedade da Coreia do Sul. No centro do enredo estão duas famílias, uma pobre, os Kims; e uma rica, os Parks. A pouco e pouco, os Kims são contratados para trabalhar na casa dos Parks. 

Contudo, todos os membros da família Kim fingem que não se conhecem, para que isso não seja levado a mal pelos seus patrões. Ainda assim, o jogo de poder vai mudar ao longo do filme. A história tem elementos de comédia, drama e thriller misturados de forma quase perfeita.

A maior parte da narrativa passa-se, portanto, na casa dos Parks, que no enredo foi construída por um arquiteto famoso (e fictício) chamado Namgoong Hyunja. Foi ali que ele próprio viveu até vender a moradia aos riquíssimos Parks.

A produção é inspirada numa história real, até porque Bong Joon Ho, que cresceu numa família pobre, tornou-se explicador de matemática do filho de uma família rica — e foi recomendado pela namorada da altura, agora a sua mulher (há mais de 20 anos), que dava explicações de inglês ao mesmo rapaz.

A casa de “Parasitas” durante as gravações.

Inicialmente, Bong Joon-ho tinha pensado que esta ideia de uma família pobre se infiltrar numa casa rica — baseada na sua vida real — poderia dar uma história para o teatro. Seria fácil de adaptar, porque praticamente só haveria dois cenários: as casas de cada família. Depois, pensou que ganharia em qualidade se fosse apresentada num formato cinematográfico.

Assim que terminou “Snowpiercer”, escreveu um guião inicial de 15 páginas para a história e passou o projeto ao seu assistente de produção, Han Jin Won, enquanto se dedicava a “Okja”. A ideia era que Han Ji Won fizesse pesquisa para enriquecer o argumento.

O assistente de produção passou meses a conhecer e a entrevistar empregadas, motoristas e pessoas que davam explicações em casas de famílias ricas. Compilou imensa informação, que foi discutindo com o realizador. O resultado final foi o guião de “Parasitas”, que está assinado por ambos.

A casa é onde se desenrola grande parte da ação e o mais curioso é que ela não existe. Foi construída de propósito para o filme. Portanto, não é uma casa — é um cenário que imita aquela enorme, luxuosa e moderna habitação. Apesar de não ser um filme de Hollywood, tão pouco foi um pequeno projeto independente. Foi uma produção sul-coreana com um orçamento de mais de dez milhões de euros.

A casa não foi desenhada por um arquiteto, mas sim por um designer de produção, Lee Ha Jun, que tem colaborado frequentemente com Bong Joon Ho e que foi também nomeado para um Óscar pelo seu trabalho. O set foi construído em Jeonju, no sudoeste do país asiático.

O set foi construído de propósito para o filme.

As árvores e plantas à volta da casa tiveram de ser constantemente trabalhadas por um jardineiro. O jardim da casa e todos os exteriores também foram construídos de propósito. Este desafio foi ainda maior porque em 2018, durante as gravações, houve uma enorme onda de calor recorde na Coreia do Sul.

“Usámos o tipo de sistemas de água que usam nos campos de futebol e dávamos injeções às plantas. Havia pessoas a morrer, por isso como é que as plantas conseguiam aguentar?”, disse Lee Ha Jun ao “Screen Daily”.

Mais tarde, houve um tufão que passou pela região. A equipa de produção teve de retirar uma série de objetos para não arriscar a sua destruição, e foram feitos buracos no set da casa para que o vento a conseguisse atravessar. A equipa chegou mesmo a dormir lá naquela noite.

“Disse à minha equipa: ‘Vamos dormir aqui esta noite’. Usei a desculpa de termos um jantar de grupo. Não consegues dominar a natureza, mas nós estávamos fervorosos. Cobrimos as janelas por causa do vento, cozinhámos, e ficámos acordados até tarde a ver filmes num computador portátil e a ouvir música. As pessoas estavam espalhadas por todo o lado. Adormecemos e quando acordámos, o tufão tinha passado. Nada tinha ficado danificado.”

No interior, foram usados produtos de luxo, embora o objetivo fosse não ter marcas que pudessem ser reconhecíveis. A mesa de jantar onde a senhora Park conhece Kevin custou mais de 20 mil euros. Cada cadeira custava quase dois mil. E havia um candeeiro que valia mais de 12 mil euros. Até o caixote do lixo da cozinha custava mais de dois mil euros. Além disso, havia várias peças de arte preciosas nas paredes.

Os exteriores da casa também foram criados para “Parasitas”.

Muitas peças foram construídas para o filme, como a mesa da sala de estar por baixo da qual se esconde a família Kim a certo momento da história (que custa mais de 18 mil euros). Tudo tem um design sofisticado e elitista. A enorme parede de vidro com vista para o jardim, quase como se fosse a televisão da casa, é um desses elementos.

Toda a habitação foi construída não para ser funcional — ou seja, não para ser útil para as pessoas que lá vivessem — mas para ter os ângulos certos de filmagem e os locais exatos para as câmaras conseguirem fazer certos planos que Bong Joon Ho tinha exigido. Portanto, o realizador teve muito a dizer na forma como a casa foi construída. 

A cave e o segundo piso foram construídos num estúdio de som. No total foram usados quatro sets que apenas foram misturados na montagem e pós-produção. 

Também a casa pobre dos Kim foi feita para o filme.

O cenário da casa pobre dos Kim

Como se vê em “Parasitas”, a família pobre Kim vive numa semi cave (um formato comum no país) numa zona pobre da Coreia do Sul. Toda aquela zona — com cerca de 40 edifícios — também foi construída pela equipa. Nada daquilo é real. Para criar um cenário realista, pintaram à mão várias partes da casa. “Também fizemos churrascos de barriga de porco, para o sítio ficar com gordura.”

Todo aquele quarteirão foi construído no noroeste de Seoul, a capital da Coreia do Sul, num enorme tanque de água — para depois gravar a desafiante cena das cheias, que foi das mais difíceis de concretizar de todo o filme. A equipa de Lee Ha Jun usou portas, janelas ou portões de casas decadentes e abandonadas para construir aquele set. 

Até foram colocados sacos com comida real nalgumas esquinas, para atrair moscas e sujidade e dar um aspeto mais autêntico a tudo — além de ser bom para emergir os espectadores naquele universo, também ajudou a que os atores interpretassem mais facilmente os respetivos papéis.

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