Cinema

A história real de freiras lésbicas que inspirou o filme que chocou muitos católicos

“Benedetta” estreou no festival de Cannes e chega agora aos cinemas portugueses. É um projeto do realizador Paul Verhoeven.
Virginie Efira interpreta a protagonista.

Cinco anos após ter realizado “Ela”, que valeu a Isabelle Huppert a nomeação para o Óscar de Melhor Atriz, o veterano realizador holandês Paul Verhoeven está de volta com um novo filme. “Benedetta” estreou em julho no festival de Cannes e é descrito como um thriller erótico de freiras.

Esta quinta-feira, 25 de novembro, chega aos cinemas portugueses. A narrativa passa-se num convento italiano, no século XV, na região da Toscânia. Uma personagem interpretada por Charlotte Rampling, chamada Felecita, tenta desvendar um mistério que envolve uma freira peculiar (e que vai abalar todo o grupo).

Benedetta Carlini (Virginie Efira) é uma jovem freira que se junta ao convento e traz um segredo. Cedo desenvolveu a capacidade para fazer milagres, embora o seu impacto na sua nova família religiosa tenha uma carga sexual: é atormentada por visões eróticas que a vão levar a envolver-se com outra freira. Benedetta sabe que é errado, e até se castiga por isso, mas ao mesmo tempo acredita ser a noiva de Jesus Cristo. Bartolomea (Daphne Patakia) é a freira com quem se envolve romanticamente.

A história pode parecer mirabolante e surreal, mas tem uma base histórica verdadeira. O guião baseia-se no livro “Immodest Acts”, escrito pelo historiador Judith C. Brown e publicado em 1986. Nascida em 1591, Benedetta Carlini tinha apenas nove anos quando entrou no convento.

Na altura do Renascimento, era comum que famílias de classe média enviassem algumas das suas raparigas para se tornarem freiras. Era uma atividade respeitável e, ao mesmo tempo, barata — quando comparada com os enormes dotes que por vezes se tinham de pagar aquando dos casamentos.

Benedetta alegava ter visões, algumas delas sexuais, e acreditava de facto ser a noiva de Cristo. As outras freiras consideravam o seu comportamento perturbador e reportaram o caso ao Vaticano. Depois, foram ordenadas a confinar Benedetta no seu quarto. Bartolomea ficou responsável pela supervisão — e as duas acabaram por se envolver romanticamente. O título de freira acabou por lhe ser retirado pelas autoridades papais. Benedetta permaneceu na prisão do convento durante 35 anos e morreu em 1661. 

Em geral, o filme tem sido bem recebido pela crítica. No festival de Cannes, “Benedetta” teve direito a uma ovação de cinco minutos no final. Contudo, e como já era esperado pelo próprio realizador, também houve críticas em relação à natureza da produção, sobretudo por parte de setores religiosos e conservadores.

Quando estreou no New York Film Festival, em setembro, um grupo de católicos americanos protestou à porta do evento por causa do filme. A American Society for the Defense of Tradition, Family and Property tinha cartazes que diziam coisas como “ protestamos veementemente contra o filme lésbico ‘Benedetta’, que insulta a santidade das freiras católicas”. As críticas multiplicaram-se nas redes sociais.

Paul Verhoeven já estava à espera deste tipo de reações, sobretudo nos Estados Unidos, embora não esperasse críticas no geral. “Não acho que o filme vá ser escandaloso — pelo menos não na Europa ocidental. Mas talvez os americanos o vejam de forma diferente. Há mais puritanismo nos EUA — vi isso com o ‘Instinto Fatal’ e ainda mais com o ‘Show Girls’”, declarou o cineasta à revista “The Hollywood Reporter”, mencionando outros filmes controversos que dirigiu. Mas assegurou: “Nunca provoco deliberadamente — essa não é a minha intenção. As imagens simplesmente vêm-me à mente. E se estou interessado em vê-las, o público também vai estar”.

Em Cannes, citado pela “Variety”, Verhoeven também defendeu o filme das críticas. “Não se esqueçam de que em geral, as pessoas, quando fazem sexo, tiram as suas roupas. Estou chocado que não queiramos olhar para a realidade da vida. Porque este puritanismo que foi introduzido… na minha opinião foi errado.”

Nas cenas eróticas, houve uma em particular que causou choque, quando uma ​​efígie da Virgem Maria é usada como brinquedo sexual. “Não percebo como podem criticar algo que aconteceu em 1625. Não podem mudar a história, não podem mudar as coisas que aconteceram, e baseei o filme no que se passou.”

Além disso, houve mesmo uma controvérsia no seio da equipa de produção. O guionista Gerard Soeteman, colaborador habitual de Verhoeven, abandonou o projeto alegando que este era demasiado sexual. Além disso, acusou o realizador de não se querer focar na perspetiva mais feminista e ideológica que existe no livro. O próprio cartaz oficial de promoção do filme é bastante erótico.

O elenco inclui ainda nomes como Lambert Wilson, Hervé Pierre, Olivier Rabourdin, Clotilde Courau, Quentin D’Hainaut ou Guilaine Londez, entre outros.

Paul Verhoeven, de 82 anos, realizou filmes como “Instinto Fatal”, “Robocop — O Polícia do Futuro”, “O Homem Transparente”, “Soldados do Universo”, “Showgirls” e “Desafio Total”, entre vários outros.

Carregue na galeria para conhecer outros dos principais filmes que vão estrear em Portugal até ao final do ano.

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