Cinema

A história surreal do sem-abrigo que participou em centenas de filmes de Hollywood

Tornou-se um ícone das histórias gravadas em Nova Iorque — e até foi feito um documentário sobre o “Radioman”.
Radioman e Matt Damon na rodagem de um filme.

O que têm em comum “The Departed”, “Elf – O Falso Duende”, “Godzilla”, “O Irlandês”, “Homem-Aranha 3”, “A Vida Secreta de Walter Mitty”, “Laços de Sangue”, “Donnie Brasco”, “Zoolander”, “Shutter Island” ou “Romance & Cigarros”? Todos incluem a participação de Craig Castaldo, um homem sem-abrigo que no circuito de Hollywood se tornou conhecido como Radioman. 

Craig tem cerca de 71 anos e viveu nas ruas de Nova Iorque durante vários anos. Tem também uma grande paixão por filmes e um talento especial para identificar sets de gravação. Por isso mesmo, apareceu inúmeras vezes como figurante, em produções mais ou menos milionárias e que foram gravadas na cidade.

Tornou-se, como Tom Hanks diz, “uma instituição cultural”, uma figura de culto dentro da indústria. Conhecido como Radioman por usar constantemente um rádio ao pescoço, sempre falou de forma articulada (e com diferentes tipos de vozes), embora usasse roupas sujas e barba e cabelos longos.

Durante quatro anos, a cineasta britânica Mary Kerr acompanhou Castaldo para produzir um documentário, que ficou com o título — claro — de “Radioman”. Estreou em 2012 e inclui depoimentos de super estrelas de Hollywood que contracenaram com este sem-abrigo.

George Clooney, Johnny Depp, Meryl Streep, Josh Brolin, Matt Damon, Robin Williams (com quem era bastante parecido), Jude Law, Eva Mendes, Helen Mirren, Sandra Bullock, Tilda Swinton e Sting são alguns dos nomes que participaram na produção documental.

This is the 'homeless' man who has appeared in more than 100 movies filmed in the streets of New York City 🎬He's…

Posted by Real Stories on Saturday, May 29, 2021

Radioman foi até um dos convidados especiais numa edição dos Óscares apresentada por Whoopi Goldberg, que o levou à cerimónia em Los Angeles. Também costumava sentar-se no passeio à porta do The Ed Sullivan Theater, na Broadway, onde era gravado o talkshow de David Letterman. As celebridades convidadas costumavam passar pelo Radioman para o cumprimentar antes de entrarem. Era como se fizesse parte do meio.

Apesar de a grande maioria tecer elogios à figura do Radioman, e de mostrar uma postura tolerante à sua presença nos filmes, o documentário também revela que outras estrelas não ficaram tão à vontade com a iniciativa de Craig Castaldo. James Gandolfini e Ricky Gervais, por exemplo, são alguns dos que não achavam muita graça ao Radioman.

Costumava alimentar-se da comida do catering dos sets e parecia estar sempre super informado — Shia LaBeouf diz mesmo que o Radioman sabia primeiro do que ele onde é que ia trabalhar. “Ninguém filma em Nova Iorque e não sabe quem é o Radioman”, declarou Clooney. Na cidade, Castaldo deslocava-se de bicicleta. Ao longo dos anos chegou mesmo a ter algumas participações com falas.

“Sempre me interessei sobre as presunções que podes fazer sobre alguém”, disse Mary Kerr, citada pelo “The Star”, na altura da estreia do documentário. “Adorei que este tipo, Radio, tivesse esta vida mágica. Esta é uma cultura tão baseada em celebridades e as pessoas estão tão desejosas de conhecer os seus ídolos. A maior parte das pessoas passaria semanas a fazer dietas e a arranjar o cabelo para conhecer o seu ídolo e depois há aqui o Radio.”

Num artigo sobre o Radioman publicado no “The New York Times” em 1996, um fotógrafo de cena chamado Barry Wetscher dizia: “Ele pode dizer-vos quem está a gravar o quê, onde estão a gravar, e provavelmente quanto é que ganham. É incrível. Ele conhece toda a gente na indústria e toda a gente na indústria o conhece. E a maior parte das pessoas gosta dele”. 

Aparece sempre com um rádio ao pescoço.

Segundo informações recolhidas pelo jornal, Radioman terá sido um veterano de guerra no Vietname. É natural de Brooklyn, Nova Iorque, e começou a aparecer na rodagem de filmes por volta de 1989. O primeiro terá sido “O Rei Pescador”. A publicação diz que o homem se chama Craig Schwartz — mais tarde, ter-se-á percebido que o seu apelido era outro.

“Eu estava a tentar vender jornais que tinha encontrado perto do set e conheci o Robin Williams”, disse o próprio ao “The New York Times”. Depois dessa boa experiência, continuou a frequentar sets de gravações, onde a comida era acessível e havia estrelas de cinema por todo o lado, e foi assim que ganhou o gosto.

Conheceu Sting, por exemplo, durante as filmagens de “Perigo Íntimo” — o músico britânico ofereceu-lhe até um bilhete para um concerto no Carnegie Hall. Segundo o “The New York Times”, o Radioman recusou porque não tinha um fato para levar vestido. Então a equipa de guarda-roupa ofereceu-lhe um para usar no espetáculo. Ao longo dos anos, também foi convidado para estar presente nalgumas estreias de filmes.

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