Cinema

A história verdadeira de violação e traição que inspirou “O Último Duelo”

Um dos últimos julgamentos baseados num confronto mortal autorizados em França está na origem do novo filme de Ridley Scott.
Matt Damon é o cavaleiro Jean de Carrouges

Em 1386, uma multidão reunia-se para assistir ao que seria o último julgamento decidido por um combate da história do país. O duelo colocou frente a frente dois antigos amigos íntimos que acabariam por combater até que a morte, e não um juiz, resolvesse a disputa.

No centro da desavença estava Marguerite de Carrouges, esposa de Jean de Carrouges, um dos duelistas, que acusava Jean Le Gris de a ter violado. O episódio medieval foi alvo de estudo profundo pelo autor americano Eric Jager, que em 2004 assinou o livro “The Last Duel”, obra que viria a servir de base ao novo filme de Ridley Scott, que chegou aos cinemas a 28 de outubro.

Para contar a história, o realizador de “Alien” e “Gladiador” contou com a ajuda de Matt Damon no papel de Jean de Carrouges, Adam Driver como Jean Le Gris, Ben Affleck como Conde Pierre d’Alençon e Jodie Comer na pele de Marguerite de Carrouges. Affleck e Damon assinam também o argumento, escrito em parceria com Nicole Holofcener.

Enquanto os primeiros dois atos do filme seguem de forma fiel a história recompilada por Jager a partir dos parcos registos históricos que existem, o último ato é “uma espécie de argumento original”, explica Matt Damon ao “The New York Times”. Centrado no ponto de vista de Marguerite, tratou-se de um exercício mais de ficção inspirado em factos reais — já que a opinião feminina raramente era ouvida e, contrariamente à masculina, quase nunca registada por escrito. “O mundo das mulheres [nessa época] tem de ser inventado e imaginado”, justifica Damon.

“O Último Duelo” retrata o que terá acontecido na noite de 18 de janeiro de 1386, na quinta da família Carrouges em Capomesnil. Jean partira para Paris, os empregados estavam fora, a acompanhar a sogra de Marguerite, que acabaria por ficar sozinha. Nessa madrugada, terá sido violada por um invasor que viria a identificar como Jean Le Gris.

Anos antes, a amizade íntima entre Carrouges e Le Gris azedou devido a uma disputa de terras que haveriam de levar perante o Conde Pierre d’Alençon, dias antes desse ocaso de 18 de janeiro. Terá sido durante a discussão que Le Gris ficou a saber que Marguerite iria estar sozinha.

Le Gris tinha oportunidade e motivo, para além da fama de mulherengo colada à pele— tornar-se-ia no principal suspeito. Mas a resolução do crime não seria assim tão simples, mesmo na época medieval. Se a pena aplicada a violadores era a morte, a mesma pena era aplicada a quem fazia falsas acusações.

Mesmo sem ter possibilidade de provar a identidade do violador, Jean de Carrouges formalizou a acusação em nome da mulher. A decisão cabia então ao regente local, o conde Pierre d’Alençon, que desvalorizou as declarações de Marguerite como meros devaneios femininos.

Frustrado com a decisão, Jean viajou para Paris para apresentar o caso ao rei Carlos VI. Sem forma de provar a violação, o cavaleiro pediu que o caso fosse resolvido através de um duelo mortal. O pedido que só foi autorizado muitos meses depois, quando os tribunais perceberam que não chegariam a qualquer conclusão.

Por trás da decisão de convocar um duelo até à morte estava a convicção de que num julgamento por combate, o resultado final seria decidido por Deus — o único que saberia o que realmente aconteceu. “Ninguém sabe qual é a verdade”, escreveu à época o advogado de Le Gris.

“A lógica feroz da disputa baseava-se na ideia de que as únicas provas estariam no corpo dos dois combatentes e que a divindade do duelo serviria para revelar, no resultado final, qual dos homens teria prestado um falso testemunho e qual deles estaria a dizer a verdade”, nota Jager.

O confronto tinha implicações que iriam além da morte de Le Gris ou de Carrouges. Como acusadora e principal testemunha, Marguerite seria também executada, caso o marido perdesse o duelo.

Porque não queremos revelar quaisquer spoilers, o resultado do embate fica para quem for ao cinema ou optar por ler o livro de Jager. Mais de cinco séculos depois dos acontecimentos, o autor norte-americano sublinha que os factos do filme são “pelo menos 75 por cento fiéis ao que realmente aconteceu”.

A dificuldade em encontrar documentos históricos que descrevam cenários e situações concretas obrigou a que algumas cenas fossem recriadas, tendo por base o que se conhecia da cultura da época. Os penteados e barbas das personagens, que foram alvo de piadas e memes na Internet, são, de acordo com o escritor, muito fiéis aos usados pelos cavaleiros na França medieval.

Infelizmente, há um facto sobre o qual não há qualquer dúvida sobre a sua veracidade — o que dá título do filme. O combate entre Carrouges e Le Gris foi um dos últimos julgamentos por combate sancionados pelo sistema judicial francês e autorizado pelo rei, mas não o derradeiro. Esse aconteceu em 1547, entre Guy Chabot de Jarnac e François de Vivonne. Mas quem é que quereria assistir a “Um dos Últimos Duelos”?

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