Cinema

As histórias reais que inspiraram “Malcolm & Marie”, o novo filme da Netflix

O realizador e argumentista, Sam Levinson, foi um toxicodependente. E esqueceu-se de agradecer à mulher num discurso.
John David Washington e Zendaya são os protagonistas.

Estreou a 5 de fevereiro e era um dos filmes mais esperados do ano. Filmado a preto e branco e gravado num cenário minimalista, com uma narrativa a condizer, “Malcolm & Marie” não é uma das tentativas da Netflix para criar um blockbuster digital. 

A produção tem sido apresentada como um potencial candidato aos Óscares (e a outros prémios da indústria do cinema) — sendo assim uma aposta da plataforma de streaming como projeto de prestígio. Estes filmes também têm fãs e em Portugal já chegou ao top das tendências do catálogo, mesmo que não seja expectável que alcance os primeiros lugares.

Escrito e realizado por Sam Levinson, foi uma das primeiras produções a serem gravadas em Hollywood já durante a pandemia. Tem apenas dois atores, John David Washington e Zendaya, que é como quem diz “Malcolm & Marie”.

Malcolm é um jovem realizador na “melhor noite” da sua vida, após a estreia do seu novo projeto ter corrido muito bem — é o filme que vai lançar a sua carreira. Marie é a sua namorada, com créditos de atriz no currículo, que acompanhou todo o processo.

Aquilo que era para ser uma noite de celebração rapidamente se torna numa discussão épica de várias horas, que vai durar pela madrugada fora, numa casa de luxo em Los Angeles. Malcolm esqueceu-se de agradecer a Marie no discurso de agradecimento, pediu-lhe desculpa no cinema e Marie disse que não havia problema. Mas claro que havia.

É esse o pontapé de partida para uma discussão (com algumas pausas pelo meio), com estrutura teatral, que vai chegar ao âmago daquela relação. Com esta disputa verbal (por vezes bastante intensa), vamos chegar às inseguranças de cada um, aos pontos fortes e fracos da relação, à maneira de como se veem um ao outro e às esperanças frustradas e desilusões que ambos sentem.

Isto também tem tudo a ver com o lado profissional: o novo filme de Malcolm, sobre uma jovem negra que se tenta livrar do vício das drogas, é diretamente inspirado nas vivências reais de Marie, que acredita que devia ser mais reconhecida por isso. E o próprio enredo de “Malcolm & Marie” também se baseia nalgumas histórias reais.

O passado de toxicodependência de Sam Levinson

Sam Levinson, que é filho do famoso realizador Barry Levinson (“Encontro de Irmãos”, “Bom dia, Vietname”), foi um toxicodependente durante vários anos na adolescência — só conseguiu ficar limpo aos 19 anos. “Passei a maioria dos meus anos de adolescência a entrar e a sair de hospitais, clínicas de reabilitação e instituições”, contou à revista “The Hollywood Reporter”.

“Eu era um toxicodependente, tomava tudo até que deixasse de ouvir, respirar ou sentir. Algures quando tinha 16 anos, aceitei a ideia de que as drogas me iriam matar, e que não havia razão para lutar contra isso. Iria simplesmente deixar que elas tomassem conta de mim e tinha feito as pazes com isso. Aos 19 já estava na reabilitação, estava a tentar deixar os opiáceos e a ir para uma droga mais produtiva, como as metanfetaminas.”

Foi na reabilitação — ansioso e a sofrer uma depressão — que começou a refletir sobre qual seria o seu legado se morresse naquela altura. “Era um mentiroso, um ladrão, um viciado, fui merdoso para quase todas as pessoas na minha vida que amo, e tive um momento em que pensei: não me sinto assim por dentro, acho que sou uma melhor pessoa que isso.” 

Sam Levinson percebeu que poderia ser a tal pessoa melhor se conseguisse deixar as drogas — e conseguiu. Há 16 anos que está limpo. Foi esta história “profundamente pessoal” que o levou a querer criar uma série como “Euphoria”, que estreou na HBO em 2019, e que tem Zendaya como protagonista.

“O que eu queria mesmo retratar era a dor e a vergonha que tens quando estás naquela situação e não te consegues tratar, apesar do caos e da destruição que estás a causar à tua volta e isso é uma coisa difícil para um ator conseguir transmitir.”

“Euphoria” baseia-se numa produção israelita, mas Sam Levinson também usou a própria história para criar a série. “Simplesmente escrevi-me a mim mesmo. Escrevi-me a mim mesmo enquanto adolescente. Essas memórias e sentimentos são muito acessíveis para mim, por isso não foi difícil”, explicou Levinson a outra revista, a “Entertainment Weekly”.

Apesar de o realizador não ter associado as próprias experiências à história de “Malcolm & Marie”, é claro que é um tema muito próximo e que isso teve a sua influência neste guião.

Aquela vez que não agradeceu à mulher

Uma história mais específica que foi usada neste filme — e que é o tal ponto de partida para toda a discussão — foi a vez em que se esqueceu de agradecer à mulher. Quando o filme “Assassination Nation”, de Sam Levinson, estreou nos cinemas em 2018, o realizador esqueceu-se de agradecer à mulher, Ashley Levinson, no seu discurso.

“Tinha sido um processo mesmo intenso e brutal, em particular a edição do filme, que fiz de seguida durante um ano. Durante esse tempo, a Ash tinha visto 100 cortes de 100 versões diferentes do filme, e quando foi a estreia, esqueci-me de lhe agradecer”, conta Sam Levinson  num comunicado sobre este filme divulgado pela Netflix.

“Não acabámos a ter uma discussão gigante como o Malcolm e a Marie, foi uma conversa bastante simples e direta que foi essencialmente ‘Quem raio é mais importante para o teu processo do que eu?’ Mas fez-me pensar muito sobre o que realmente é uma relação, sobre qual é o trabalho prioritário, quais são as contribuições que trazemos um ao outro, e o que sentimos quando essas contribuições não são reconhecidas.”

Sam Levinson e Zendaya.

Ashley Levinson não é atriz, como Marie, mas é produtora — aliás, tem trabalhado com o marido em vários dos seus projetos. A própria falou sobre o assunto no mesmo comunicado.

“Só falámos disto uma vez, que foi na viagem de carro para casa, e nunca mais discutimos isto. Por isso quando ele começou a escrever ‘Malcolm & Marie’ e disse ‘Acho que tive a ideia certa — o Malcolm esquece-se de agradecer à Marie durante a estreia’, ambos desatámos a rir. E devo acrescentar que, quando “Euphoria” estreou um ano depois na mesma sala, ele deu um dos discursos mais bonitos, elaborados e eloquentes sobre relações, amor, companheirismo e a minha importância para ele, por isso houve esta ironia bonita sobre tudo isto.”

A crítica do “Los Angeles Times”

Durante o filme, um dos temas recorrentes é o feedback que a crítica do “Los Angeles Times” deu a Malcolm sobre o seu filme. A meio da noite, o texto é mesmo publicado no site do jornal, o que origina mais reações da parte do cineasta.

Malcolm diz que está a ser politizado pela crítica branca só porque é negro — quando na verdade ele só queria fazer um filme sobre uma rapariga que tenta ultrapassar a toxicodependência. Malcolm acaba por criticar bastante a crítica do “Los Angeles Times”. Na vida real, há aqui mais um paralelo com “Assassination Nation”.

Quando o filme estreou em 2018, uma crítica freelancer chamada Kate Walsh escreveu um texto nada positivo sobre a produção no “Los Angeles Times”. Quando questionado pelo jornal “The Independent” sobre isto, Levinson recusou fazer essa ligação (embora não tenha desmentido de forma clara), dizendo apenas: “Olha, simplesmente achei divertido. Cada vez que o Malcolm faz isto, simplesmente faz-te rir”.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT